Eu te dedico

Dia desses uma amiga muito querida me emprestou um livro de crônicas do Veríssimo.
Na noite do empréstimo, arrumei meus travesseiros bem altos na cama, acendi o abajur, planejando ler antes de dormir.
Na primeira página, antes do livro começar, já havia uma história: a dedicatória. Algumas palavras de alguém que a presenteou em 2003 me contavam, de uma forma implícita, que alguém viu um pouco (ou muito) da minha amiga naquele livro. Alguém pensou nela quando viu aquela capa, se recordou do quanto ela gostava daquele autor, imaginou o quanto aquela leitura lhe faria bem. Alguém pegou uma caneta vermelha e resolveu deixar impresso pra sempre, sua letra, seu carinho, em uma página, em uma memória.
Eu sorri.
Talvez porque percebi que estava na hora de ir atrás de mais sensações gostosas como aquela, que as coisas que a gente ama fazer proporcionam.
Talvez porque percebi que aquele livro era especial para ela, e que me emprestá-lo era um jeito de dividir isso e muitas outras coisas comigo. Talvez porque isso me fez pensar que preciso voltar a dançar. Sim. Aparentemente, nada tem a ver a dança com o livro, com a dedicatória ou com qualquer outra coisa dessa cena. Mas dentro de mim a lembrança da paixão era a mesma: lembrança de um tempo em que escrever, ler e dançar eram um continuum integral que me mantinham inteiramente no presente.
Comecei a lembrar do meu corpo se movendo. Eu estava deitada na cama, mas podia sentir as espirais que nasciam nos ombros e morriam nos quadris, a pele tocando o chão e logo voando nos saltos, o foco do olhar no horizonte.
Quero voltar a dançar.
Quero voltar a sentir alguns prazeres, que muito mais do que “coisas que gostava de fazer”, eram atos profundamente necessários para eu fosse quem eu sou.
Já era muito tarde.
Depois de ler tudo isso na primeira página, provocada pela dedicatória, já estava na hora de dormir.
As crônicas? Comecei no dia seguinte.
