Vidas Negras

Ficção baseada na história real de Pateh Sabally, imigrante africano morto afogado no Grande Canal de Veneza (24/01/16), onde centenas de pessoas assistiram sem tentar ajudá-lo.

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Pateh Sabally nasceu na Gambia, um dos menores países da Africa ocidental, em 1994, ano que o ditador Yahya Jammeh assumiu o poder. Pateh era um jovem sonhador. Talvez por ser o melhor aluno de sua classe, pensou que pudesse ser alguém na vida. Talvez por ser o moleque mais querido do bairro, sempre sorridente e disposto a ajudar, pensou que pudesse ser alguém na vida.

Aos 14 anos começou a trabalhar como carregador de malas em um luxuoso resort em sua terra natal. Apesar da pobreza extrema dos seus habitantes, Gambia tem uma beleza natural incrível. Gostava do seu trabalho, principalmente por poder conhecer pessoas do mundo todo. Uma vez uma menina sueca em viagem com os pais, se apaixonou por Pateh. Disse a ele que em seu país eram todos meio iguais, brancos, loiros, sem graça, e no seu ultimo dia de férias em Gambia, prometeram que um dia se reencontrariam e ficariam juntos.

Por ser muito solícito e simpático, os hóspedes do resort adoravam conversar com Pateh. Ele perguntava sobre como era a vida em seus países e ouvia maravilhado histórias de um mundo que ele não conhecia. Mas gostava mesmo era dos turistas italianos. Ah, os italianos! Falavam sobre a beleza das suas cidadezinhas antigas, do gosto dos seus tomates, dos queijos, dos vinhos, da vida no campo, da Toscana, da Sicília… narravam com detalhes a maravilha que era Veneza e seus canais e sempre reclamavam que o problema ali era só o excesso de turistas.

Pateh, que acreditava que pudesse ser alguém na vida, sentia que precisava experimentar algo novo. Queria crescer, queria poder dar uma casa para a mãe, queria conhecer a vida além daquele hotel. Queria fugir da pobreza e da violência. Não queria deixar de acreditar em si mesmo, já tinha 18 anos e sabia que precisava mudar.

Foi quando conheceu Somolon, garçon do resort em que trabalhava, que lhe contou que estava prestes a embarcar para a Itália. Os olhos de Pateh brilharam e ele sentiu que essa era a sua chance de “ser alguém na vida”, como ele sempre acreditou.

Foi para casa onde morava com a mãe e os quatro irmãos mais novos, contou por 3 vezes quanto era a soma das suas economias de 4 anos de trabalho duro e no dia seguinte disse a Somolon que iria com ele para Itália.

O barco partiria em dois dias e durante esse tempo um turbilhão de sentimentos tomou conta de Pateh. Será que conseguiria rever a menina sueca que gostou dele? Será que conseguiria mandar dinheiro para a família? Será que as pessoas na Itália também gostariam dele? Sua mãe lhe garantiu que sim, pois era impossível não gostar de um cara como Pateh. Fez então suas malas e foi em direção ao porto onde pegariam o barco. Não entendeu bem porque o barco era tão pequeno, estava tão lotado e por que não deixaram embarcar as suas malas.

Pateh não fazia ideia o pesadelo que seria passar dias e mais dias naquele barco, não imaginava nada daquilo. Quando avistaram lá longe um pedacinho de terra, o barco foi abandonado pelo capitão que os deixou à deriva. Muitos pularam no mar por desespero, mas Pateh não sabia nadar e resolveu esperar rezando para que o barco não afundasse. Horas mais tarde, no meio da escuridão e sem saber onde estavam, um barco veio resgatá-los. Cobriram cada um deles com uma capa de alumínio e aquilo foi como um abraço para quem sentia tanto frio, fome e medo.

Descobriram mais tarde que tinham descido na Sicília, sul da Itália. Ele ouvira falar muito bem da Sicília e com os pés em terra firme, seu coração se enchia de esperança.

Dois anos se passaram. Pateh entendia razoavelmente o italiano mas falava poucas palavras. Como não tinha oportunidades de praticar a língua, não tinha evoluído muito. Se sentia sem lugar, não pertencia a nada daquilo. Reconhecia a beleza que os turistas italianos tinha relatado, mas nada daquilo o emocionava. Apesar de sua mãe ter lhe garantido que as pessoas gostariam dele, o que ele sentia na pele era absolutamente o contrário. As pessoas não o olhavam nos olhos, sentiam medo, desprezo, raiva. Parecia que sua pele tinha um rótulo escrito “negro oportunista que veio para o seu país te roubar, estuprar suas filhas e tirar o seu emprego”. Ele simplesmente não entendia o porquê de tanto ódio, mas não conseguia se aproximar de ninguém para mostrar que ele não era nada disso.

Pateh pulava de cidade em cidade em busca de um lugar onde pudesse realmente recomeçar a vida. Mas depois de dois anos aquela autoconfiança já não existia mais. Não acreditava mais em si mesmo e não via mais razão para nada. Não queria voltar para casa, não quis ser um perdedor.

Conseguiu juntar alguns euros com as pulseirinhas que vendeu nos arredores da estação central de Milão e decidiu então comprar uma passagem de trem para Veneza.

Chegando na estação Santa Lucia, ficou por horas olhando para as águas do canal, o enjoo que sentia durante a travessia de Gambia até Sicília voltou a tona. Olhava o vai e vem dos barcos, lotados de turistas do mundo todo. Lembrou da reclamação dos italianos e pensou que talvez eles estivessem realmente certos.

Nesse momento sua vida veio como um filme na sua cabeça. Lembrou da família, dos seus sonhos que não deram em nada, do seu país, do resort, da menina sueca que nunca mais veria, da cor escura da sua pele que gerava tanto medo, de todas as cidades que tinha passado, da falta de esperança, do desprezo das pessoas por ele. Olhou em volta e concluiu que, apesar de tudo, Veneza era realmente o lugar mais maravilhoso que já tinha visto.

Sem pensar em nada, pulou nas águas geladas do Grande Canal.

Propositalmente tinha esquecido que não sabia nadar. No fundo não queria morrer, mas a morte bem que aliviaria muita dor. A poucos metros de onde ele estava, tinha um Vaporetto com umas 100 pessoas. Do outro lado, um barco da polícia.

Enquanto engolia aquela água salgada, percebeu que jogaram uma boia salva vidas. Tentou alcançá-la mas o frio tinha congelado seus movimentos, nesse momento alguém gritou “sei schemo!”, achando que ele simplesmente não queria pegar a boia. Ouvia as pessoas gritando: “sta facendo finta”, “Africa”, “Dai che te torni a casa tua”, “e ora, neghite”.

Em um surto momentâneo de consciência, percebeu que realmente morreria afogado. Logo ele, que conseguiu sobreviver a uma das travessias de barco mais perigosas do mundo. Percebeu também que realmente a sua vida negra não valia nada, que centenas de pessoas assistiriam à sua morte sem fazer nada e depois iriam comprar máscaras de souvenir nos camelôs da cidade.

Sentiu seu corpo afundar, o gosto salgado na boca. Conseguiu olhar nos olhos de algumas pessoas por uma ultima vez, um fio de esperança no ser humano o dizia que alguém pularia para salvá-lo.

Mas não.

A mochila de Pateh abandonada na estação Santa Lucia foi só o que sobrou da sua história: uma foto amassada da família, 5 euros do troco da passagem e um visto Humanitário que ele havia conseguido, apenas para nos mostrar que humanidade deveria ser outra coisa.