Sobre regime, saúde e a fiscalização do corpo alheio

Há algumas semanas eu assisti o documentário Amy, dedicado a recontar a vida da cantora Amy Winehouse, e não pude deixar de olhar para além da grande artista e mulher que ela foi. As imagens e os depoimentos da família e dos amigos dela nos fazem ver de forma bem clara, e quase sem possibilidade de distorção, a sequência de problemas que colocaram um fim à sua vida.

Mas não, eu não vou falar do vício em bebidas alcoólicas e em drogas. Essa parte da vida dela nunca foi segredo para ninguém e sempre acompanhou o seu nome nas manchetes dos jornais. O que nem todo mundo sabe, ou pode até saber mas, geralmente, não dá a devida importância, é que Amy também era bulímica desde a adolescência. E uma prova de que a gente menospreza esse tipo de problema é que, até hoje, para grande parte das pessoas, Amy morreu por causa do abuso de drogas e álcool e não pela fragilidade que o transtorno alimentar impôs ao seu corpo.

Quem me conhece de perto sabe que eu sempre fui a louca das dietas, daquelas pessoas que começa uma nova a cada segunda-feira e ela não costuma durar nem até o final de semana. Mas quem me cerca nos últimos anos sabe que, de um tempo pra cá, eu comecei a ficar de olhos mais abertos para os padrões de beleza inatingíveis que o mundo nos impõe.

O Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos (NIMH) constatou que 70 milhões de pessoas em todo o mundo sofrem de algum tipo de transtorno alimentar (2012). Um outro estudo aferiu que apenas uma a cada 17 mulheres que possuem um peso considerado saudável se consideram magras. Dessas 17, apenas 13% se sentem felizes com o próprio corpo. Uma pesquisa feita pela marca Dove, em 2014, mostrou que apenas 4% das 6.400 mulheres entrevistadas se sentia segura o suficiente pra se considerar bonita e 59% delas se sente pressionada para ser bonita. A gente se cobra muito, a sociedade nos cobra demais. O mundo fitness nunca esteve tão em alta e qualquer minuto gasto nas redes sociais é o suficiente pra gente se deparar com mil dietas e novas formas de perder peso. Nós nos sentimos pressionadas a sermos bonitas, mas, para esses padrões, ser bonita é ser magra.

A cobrança para que nos encaixemos em um padrão é constante e vem de todos os lados, até de nós mesmas, mas há algo além que me aterroriza nos processos de reeducação alimentar: a nossa incapacidade de empatia e, por que não, de bom senso.

No documentário, a mãe da Amy conta que “quando ela tinha 15 anos, ela me falou: “estou fazendo essa ótima dieta, mãe! Eu como o que quiser e depois eu ponho pra fora” Eu obviamente não pensava muito sobre isso. Eu pensava que ia passar. Depois ela contou para o Mitchell (pai), ele também deixou meio de lado, não levou muito a sério. Era bulimia e não ia passar nunca.”.

Não estou aqui para condenar esses pais, mas é inevitável pensar em como as coisas poderiam ser diferentes se, em vez da passividade daqueles que deveriam ampará-la, a Amy adolescente tivesse se deparado com um ambiente acolhedor e que desse a ela a informação e o apoio que ela não teve. É essa mesma carência de suporte que muitas crianças, adolescentes e adultos sofrem hoje e a gente falha miseravelmente como ser humano quando deixa os detalhes passarem sem sermos aquilo que, supostamente, deveríamos fazer de melhor: ser humanos.

A gente vive por aí parabenizando qualquer pessoa que emagreceu. Um “como você está magra!”, na maioria das vezes, é o melhor elogio que alguém quer ouvir. Construímos mitos e ídolos do emagrecimento. É o ex gordo que agora é muso fitness. É aquele adolescente obeso que, depois de um ano, apareceu magro e musculoso. É a menina que posta foto das saladas e dos shakes e condena os brigadeiros. É a ideologia, muitas vezes patológica, do #foco #força e #fé e do #nopainnogain. E todas essas pessoas se transformam em exemplos a serem seguidos. Como se já não estivéssemos saturados de musas e musos fitness com vidas perfeitas no Instagram, a gente também constrói modelos do dia-a-dia, que nos servem de meta, muitas vezes pelas suas histórias de superação. A tendência atual que gostamos de seguir é a de pressionar pessoas para que elas sejam iguais a esses modelos de superação e fazemos isso em pessoas cada vez mais novas.

Há uma semana eu estava vendo fotos aleatórias do meu feed no Instagram e me deparei com uma conhecida que era gorda e agora está magra e malhada. Por curiosidade, fui fuçar. Em uma das fotos recentes ela contava que estava suspensa da academia por dois meses por causa de uma lesão no joelho causada pela ginástica. Mesmo depois de recuperada, ela não poderia mais praticar spinning, corrida e algumas outras atividades que colocavam força no membro. Triste, né? Mas aí fui ver os comentários e a tristeza foi ainda maior. Não tinha sequer um perguntando se ela estava bem, desejando força ou alguma mensagem se solidarizando. Mas, claro que os “elogios” estavam lá. “Que magra! que linda”, “Maravilhosa, emagreceu!”, “A cada dia mais orgulhosa”. Sim, a pessoa desenvolveu um problema decorrente da atividade física e os comentários giram em torno de parabenizá-la pelo emagrecimento.

É inacreditável pra mim o quanto a gente é não só omisso, como age ativamente na imposição de um padrão sobre as outras pessoas. De duas uma, ou a gente não sabe o que fala ou há uma certa vontade em ser sádico. Pra mim, não há outra opção cabível. Mas, para qualquer uma delas, a gente tenta parecer bom e preocupado por trás da justificativa “você tem que ser saudável! Estou falando isso para o seu bem”. Quantas vezes a gente não ouviu isso? Quantas vezes a gente não falou isso?

Recentemente, uma amiga escreveu um texto ótimo (leia aqui!) contando sobre o seu processo de aceitação e a saga de engordar e emagrecer. Em um trecho ela fala:

“Ninguém estava preocupado com a minha saúde quando emagreci deprimida, viciada em cigarro, comendo porcamente, tomando refrigerante diet o tempo inteiro e destruindo meu estômago com chiclete. Não coloquem essa GORDOFOBIA atrás de uma máscara de preocupação, isso é feio demais.”

Provavelmente, e aqui me atrevo a falar de uma história que não é minha, muita gente que tá de fora vai achar que a melhor fase dela foi quando ela estava magra.

Muitas vezes, a gente se acha no direito de cobrar, de fiscalizar o corpo alheio e de falar qualquer coisa sob o pretexto da preocupação. Um dia desses, uma tia distante encontrou o meu pai e depois de dizer para ele que eu estava linda, ela completou “só não deixa ela engordar, pelo amor de Deus!”. O que leva uma pessoa que quase não me conhece, que não sabe como é o meu dia-a-dia, a dar esse tipo de “conselho”? O que na cabecinha dessa pessoa a faz pensar que se eu engordar, eu vou ser menos bonita?

Também não são raras as vezes que eu vejo alguém fazendo comentários sobre o prato de outra pessoa, desde o aparentemente inofensivo “nossa, queria ser relaxada assim e comer essas coisas que você come!” até os mais incisivos “olha, vai engordar!”, “cadê o projeto fitness?”. Mas, na maioria delas, a gente não tá ali do lado, no dia-a-dia, acompanhando toda a trajetória do outro, no momento que ela se olha no espelho e odeia o próprio corpo, quando ela acaba de comer e sente culpa ou quando ela se acha uma fracassada por não conseguir ter o corpo igual ao das musas fitness.

Emagrecer pode ser ótimo, saudável e feliz? Pode. Mas na maioria das vezes é imposto, doloroso e traumatizante. Quase sempre parece ser a única saída para se sentir bonita. Mas, veja bem, não é. Dar apoio a alguém que quer ser mais saudável não tem absolutamente nada a ver com exercer ainda mais pressão sobre essa pessoa. A gente precisa estar atento para o que fala, para o que faz e para as coisas que nos damos o direito de permanecer omissos e complacentes. Desde as crianças e os adolescentes, que precisam da nossa obrigação de sermos base, suporte e amparo, até os adultos que, como muitos de nós, precisam construir um pedacinho da autoestima diariamente. Adultos que cresceram ouvindo comentários negativos e punitivos em relação aos seus corpos.

Meu sonho mesmo é chegar em um patamar da vida em que nenhum comentário infeliz seja capaz de destruir em segundos um trabalho de autoestima construído ao longo da vida. Mas, enquanto isso não é possível, vamos redobrar o cuidado com o que a gente fala e endossa. E, claro, vamos nos fortalecer juntas :)

Estudo 1: http://bit.ly/1LeAF0i

Estudo 2: http://bit.ly/254Pxoq

Estudo 3: http://bit.ly/LqnFHj

Textos de mulheres fodas sobre ser gorda:

http://bit.ly/1Ugvwr6

http://bit.ly/1Qx8Dta

http://bit.ly/21vG4lE

http://bit.ly/1pMeODL

http://bit.ly/22ldzfX