O velho e a morte

Chove. Não sinto os pingos tocando a minha pele ou cabelos, mas a chuva dá um ar de melancolia ao ambiente, perfeito para mais um dia de trabalho. No caso, meu trabalho. Ninguém gosta de trabalhar na chuva. O céu é de um azul muito escuro, com nuvens cobrindo alguns pontos. Sou enviada para buscar alguém. Meu trabalho não é o mais agradável, nem o mais bem pago, muito menos o mais interativo. Trabalho sozinha, não importa o tempo lá fora, o quão tarde é, o quão cansado estou. Apenas busco pessoas e as levo desse mundo para outro, mas não tenho permissão de dar mais informações. Você vai ter de esperar eu te buscar.

Chego no enterro de alguém: uma menininha de 7 anos, não sei seu nome nem onde mora — não sou de fazer perguntas, apenas cumpro minha função. Há muitas pessoas no cemitério, todas usando preto com seus guarda-chuvas, algumas chorando, outras apenas com olhares vazios, outras dizendo algo como “ela ia querer que nos lembrássemos dela com alegria, não há motivo para chorar”. Típico. Só mais um dia normal de trabalho.

Espere… acho que não me apresentei, mas você deve saber quem eu sou. Sou aquela que todos temem e todos têm curiosidade. Sou atraente, mas ninguém quer me conhecer de perto, sou aquela que as pessoas evitam, numa vã tentativa. Não se pode evitar a morte. É claro que eu não sei o momento exato em que vou te buscar, e mesmo se soubesse, não poderia lhe contar. Não faço as regras aqui. Não se preocupe, não tenha medo, sua hora vai chegar e você deve apenas me acompanhar. Tente não olhar para trás, não há nada que possamos fazer.

Não costumo olhar muito em volta nessas ocasiões, não observo com curiosidade, mas algo me chamou a atenção. Ou melhor, alguém. Perto do túmulo da menina, vejo um velho olhando fixamente para baixo — aqueles olhos pareciam ter dentro deles o peso do mundo. Continuo observando de longe, uma parte de mim dizendo que não devo perder tempo com isso. Mas afinal, o tempo não passa para mim como para os humanos. O tempo não existe para a morte, o relógio é um mero objeto decorativo, o Sol é apenas uma estrela, o movimento da Terra nada significa.

Decido chegar mais perto, mas lembro que humanos não podem me ver. Tomo a forma de um homem de meia idade, as mesmas roupas dos outros ali presente e um guarda-chuva. Aquele velho não saiu da posição que estava quando o vi antes. Me ponho ao seu lado, tentando não fixar meu olhar nele para não parecer suspeita. Para minha surpresa, o velho diz:

- Odeio dias chuvosos. Não dá para fazer nada direito, seus sapatos ficam molhados, seu guarda-chuva é pequeno demais, seu carro não sai do lugar.

“Não tenho problemas com isso”, foi só o que consegui dizer. Nunca interajo com humanos (vivos ou mortos). O velho me olhou e nada disse. “Mas por que estou fazendo isso? Não faz parte da minha tarefa”, pensei. O homem percebeu que eu estava mergulhada em meus pensamentos culpados e, talvez, para me trazer de volta a realidade, continuou:

- Então você tem sorte, eu tinha esse problema quando trabalhava.

- O senhor se aposentou… há muito tempo?

- Não sei dizer ao certo, mas acho que sim. Sinto falta do meu trabalho, de tudo na verdade. Mas já estou acostumado, conheci muitas pessoas boas depois disso.

- Certo.

Depois de algum tempo de um silêncio, eu disse:

- O senhor conhece a menina?

Claro que conhece, mas queria saber mais sobre aquele homem misterioso: por que não estava com os outros, chorando, consolando, e fazendo seja lá o que os humanos fazem nessas horas?

- Ah ela era minha neta. Boa menina, muito esperta. Queria ter passado mais tempo com ela.

- Bom, ela morreu muito jovem mesmo. Mas não há o que fazer.

- É verdade. A morte às vezes é precipitada demais…

- Não acho que a morte se precipite. Quando chega a hora de morrer, não há nada que possa ser feito.

O velho ficou em silêncio, sem saber o que dizer, com um sorriso quase imperceptível. Pode ser apenas impressão minha. Certamente, a morte não é engraçada para ninguém.

- Do que sua neta morreu, se me permite perguntar?

- Uma doença. Um vírus, para ser específico. Algo que podia ser evitado. As pessoas sentirão falta dela.

Não consegui encontrar as palavras certas para dizer a ele, então comecei a fazer algo, sem querer, que não é do meu feitio: pensei que talvez o velho estivesse certo. Quer dizer, a menina tinha uma vida pela frente, coisas para aprender. Mas logo parei.

- Acha que a morte pode ser evitada?

- Pensava que sim, mas agora sei que não se contradiz a morte.

Sim.

- E o senhor tem… medo dela? Da morte?

- Ah não, — o velho riu — ninguém devia ter medo da morte. As pessoas temem o que vem depois dela, para onde vão, se existe mesmo algum lugar. Algo além disso.

Assenti com a cabeça. Uma vez ou outra, enquanto caminho para meu destino para buscar almas desesperadas e guiá-las, tento fingir que sou uma delas. Tento me perguntar “mas e agora?”, quando já sei a resposta. Sei o que tem do outro lado. Não fico muito por lá, sou uma espécie de motorista, nunca o anfitrião. Também não tenho permissão de revelar para elas, essas pobres almas, o que lhes aguarda.

- Para onde acha que vai quando morrer? — o velho perguntou.

- Hã… n-não sei.

- Diga-me: o senhor acredita no que dizem? Céu e inferno? Que existe apenas dois destinos?

Não sabia o que dizer, se falasse mais do que devia, poderia me causar problemas. Então apenas disse:

- Nunca parei para pensar nisso.

O velho era, no mínimo, curioso. Imagina se soubesse que está falando com a morte em pessoa, que poderia, teoricamente, lhe dar todas essas respostas. Mas me limito a frases curtas, deixo que ele fale.

- Mas também acho que alguns se decepcionam ao chegar em seu destino.

O velho concordou. Quando busco minhas almas, algumas sempre dizem algo como “eu não estou preocupado, pois sei que vou para um lugar bom”. Eu não entendo. Como alguém pode estar tão certo de algo que não sabe nada sobre? E, geralmente, são essas que se decepcionam. Elas dizem, sem nem mesmo eu perguntar, que é porque praticaram o bem ao longo da sua vida. Já ouvi muito isso. Seguro o riso. Depois de tanto tempo, aprendi a disfarçar bem, para não lhes assustar e preocupar. Mas uma vez, lembro-me, foi mais difícil. Levei também a alma de sua esposa. Aquele homenzinho falava alemão alto e rápido demais, minha paciência já estava para sumir. Não teve um fim tão bom quanto imaginava.

Já estava escurecendo. As pessoas indo embora. Mas claro, o velho continuou ali ao meu lado. Ele disse, quase com um sorriso no rosto enrugado:

- Espero encontrá-la em breve.

- Não se preocupe.

É quase impossível que duas pessoas que se conhecem irem para o mesmo lugar, porém eu devia algumas palavras reconfortantes a ele. Achei melhor ir embora, levar a alma da menina logo. Não me arrependo de ter ficado mais um pouco. Afinal, não sei quando veria o velho de novo — e, na ocasião, ele pode não estar tão sereno. Mas ele me parece ser um daqueles que não dão trabalho. Eles apenas me seguem, almas leves, não fazem perguntas, não se desesperam. Sabem que chegou a hora de ir embora desse mundo e enfrentar o que vem.

- Bom, acho melhor eu ir embora. Já está ficando tarde, todos já estão indo. O senhor vai ficar?

- Vou ficar mais um pouco, sinto falta deles. Não me importo de não receber tanta atenção assim, é bom vê-los de novo.

- Tudo bem.

Toquei na mão da menina, e imediatamente ela soube o que fazer. Seu avô estava certo, era uma menina esperta. Parecia assustada no começo, mas logo avistou seu avô e acenou, e ele retribuiu. Ele sussurrou algo para ela, e ela pareceu entender. Talvez tenha sido “fique calma”. Me perguntei como ele podia ver ela, mas logo percebi, ele sabia coisas demais sobre mim.

- Leve-a com cuidado. Diga para não ter medo, como fez comigo.

Assenti com a cabeça, e a levei. Dessa vez, olhei para trás, o velho ainda estava lá, sorrindo para a menina. Será que devo voltar e dizer para ele que eles vão se encontrar em breve, como ele queria? Não, ele vai descobrir logo. Tenho trabalho a fazer, mais almas de velhos e menininhas para recolher.

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