Atormento
Eu sou uma gotinha frágil a leste do Atlântico
Encurralada na incógnita de não saber ao certo quando
O sol fervente do teu peito vai me fazer evaporar
Eu sou o azar do inseto que cai de abdômen pra cima
Debatendo as pequenas perninhas
Na tentativa falha de rodopiar o próprio corpo
E alcançar com as patas o assoalho do chão do teu quarto
Eu sou uma fenda de luz que atravessa o vão da janela
Destacada na escuridão noturna
Perturbando a sensibilidade dos teus olhos exaustos em ter que lidar
Com a vida lá fora todos os dias
Eu sou um fardo nas costas do mundo
Uma praga inconveniente em tua agricultura
Dentre centenas de pragas inconvenientes na plantação de soja
Eu queria que você tivesse paciência pra lidar com a minha insensatez
Eu queria que você tivesse brilho nos olhos ao ouvir as vagabundagens que falo quando passa da meia noite
Eu queria, sobretudo, não ser um pássaro engaiolado
Na indigestão da tua indiscreta indiferença.
