Baseado em faltas reais

Eles me ensinaram lógica, astronomia, química orgânica, futebol
O uso da crase
das fórmulas
do teclado​ do computador.
Me ensinaram a usar a língua pro bem
E a usar a língua pro mal;
A portuguesa, a inglesa
A árabe
E esta presa entre os dentes.

Eles me ensinaram a mentir, também!
Depois de me ensinarem, claro, que mentira é errado.

Eu vaguei pelo mundo como quem vagueia por campos semi-áridos
Levantei minha bandeira, abaixei a voz
Gritei!
Pulei o muro de casa, 
da escola 
do mundo:
Me ensinaram a pegar impulso pra pular.
Quitei aulas de geografia pra fumar maconha
Quitei corres de maconha pra estudar geografia
Quitei seu nome da minha lista...
Escrevi de novo, afinal
Rasurei;
Cantei pra você no telefone:
chorei depois de ter desligado.

Eles me ensinaram que garotos não choram
E eu pensei que um dia você pudesse 
não ser tão garoto assim.

Eu pintei de vermelho dedos que imploram
E mãos que acatam;
Escrevi poemas que de tão pequenos cabiam no bolso - 
Mas não cabiam em mim.

Treinei a retórica, detestei Hobbes, me apaixonei por pintura e pelas mentiras contadas na tela.

Me ensinaram também que a história de Tiradentes nem é tão verdade assim
E eu chorei.
Porque as histórias 
As melhores histórias
São todas sensacionalistas!
E me lembro, agora, de quando você disse que talvez eu fosse um pouco sensata de menos
Ou louca demais.

Eu levei bronca, dei bronca
dei de quatro
dei sem querer ter dado
e dei com muita vontade de dar.
Eu dei um tapa no seu rosto esperando que você revidasse 
Mas você não revidou;
Eles me ensinaram que não se agride mulher.
Eu perguntei, irônica, se agressão era só física e eles me pediram para prosseguir com a leitura.

Eu bati de frente
bati no muro de olhos fechados
bati na porta do guarda-roupas
com uma força que nem cabe em mim.
Dancei de novo
Plantei uma árvore
Plantei duas árvores
Mas joguei a bituca no chão.
Rezei sentada de olhos pro rio
Querendo olhar pra mim
E eu me vi, enfim,
Sozinha.
Eu me vi enfim sozinha.

Me ensinaram que as mulheres só choram porque são feitas de açúcar
E eu entendi que talvez você pendesse mais pro lado do salgado que do doce.
Eu fui fúria, fui medo, afeto, desvio
Fui mulher, fui homem, fui mulher outra vez
Eu fui Vênus e fui 
água de côco.

Deus me tenha!
Corri entre oásis meio secos
E orgasmos já molhados
Até concluir que [pausa] eu não sou eu.
Sou metafórica
Metamórfica
Metalinguística, também, às terças.
Eu sou uma versão barata do que falam de mim.

Sinto cheiro de amora. E de saudade um pouco mais.
O horizonte senta na minha frente
Tampando a luz do sol.
Me ensinaram tudo, afinal.
Só não me ensinaram que a gente aprende sozinho o que basta
Porque sozinha, de novo, eu fui.