O consolo das palavras que retarda a hora de minha morte

Aos 5 anos de idade, aprendi a ler e a escrever. Não lembro exatamente como aconteceu o processo de aprendizagem, mas uma das lembranças mais nítidas que tenho da minha infância é de quando, aos 6, fiz o teste de leitura e escrita para uma escola primária. A professora ficou surpresa ao me ver escrever “chapéu” com ch e, claro, acento agudo no “e”. Ela concordou que eu ingressasse na 1ª série do ensino fundamental, mesmo que isso exigisse a minha interação com crianças um ano mais velhas.

Pouco tempo depois, eu compreendi que os números e os seres humanos me seriam desafiadores, mas as palavras se tornariam minhas melhores amigas.

Os primeiros livros me acompanhavam aos recreios, me guiando através de uma infância solitária. As histórias de suspense, aventura, magia e fantasia me ajudavam a lidar com uma enorme dificuldade em fazer amigos e em dividir o meu espaço com outras crianças — também, com a sensação estarrecedora de não me encaixar em absolutamente lugar algum a não ser dentro de mim mesma.

Naquele período de inocência, as palavras incontavelmente salvaram a minha vida… até que, de súbito, elas se voltaram contra mim sem que eu sequer percebesse.

O problema é que, veja bem, ter intimidade com as palavras lhe faz conhecer a dimensão exata do universo e a profundeza escura dos oceanos. As palavras abandonam a superfície da água em maré tranquila e lhe carregam através do que há de mais sombrio e tempestuoso na Terra: a alma humana.

Aos poucos as palavras me envenenaram com a consciência do mundo e, como um câncer, fincaram suas raízes em meus órgãos vitais.

Quando a dor começou, eu concluí que partiria sem deixar palavras para trás. Talvez pelo Sol em Aquário que me compele a ser diferente das outras pessoas, sempre considerei bilhetes suicidas artifícios clichês. Não. Não. Eu iria embora de mim como costumo ir embora de todas as minhas relações: de repente, sem dar explicações, estando apenas subentendida — num minuto estava lá e, no seguinte, desapareci.

Mas algumas noites dilaceram, o nó ao redor do pescoço aperta e engasga a garganta, as unhas mal aparadas se enterram na pele dos ombros e os soluços tornam a respiração errática… A dor paralisa. Percebo desalentada que nem a morte é a solução eficaz para a minha letargia; a única saída é vomitar, enfim, o que me envenena por dentro. Por essa razão, escrevo o meu terceiro bilhete suicida.

As palavras são o meu único antídoto e o meu único alento. Por causa das palavras posso dar nomes às constelações e, através da palavras, sobrevivo.

Texto vomitado, 05/09/2017, 02:26 am.