.Porta-retrato.

Eu me coloquei em um porta-retrato.

Mas não foi nesse que você está pensando. Esse que emoldura uma foto importante, de algum momento da sua vida. De um momento essencial ou de uma pessoa essencial, que pode ou não estar presente fisicamente, mas por quem você tem o sentimento mais puro.

Não. Não estou falando desse porta-retrato.

Estou falando desses que você compra ou ganha de alguém. Esses que vem com uma foto de pessoas que você nunca viu na vida, pessoas forçando um sorriso vão. E que você deixa ali, em um canto qualquer da prateleira pra fazer volume. Você sabe que precisa colocar ali uma foto que signifique algo, mas nunca o faz.

E o porta-retrato vai criando raizes. E aquelas pessoas desconhecidas vão ficando tão conhecidas ao seu olhar que passam despercebidas. Você esquece do porta-retrato. Deixa ele lá. Ocupando um espaço. Meramente decorativo. E a cobrança de colocar outra foto acaba. “Vai dar muito trabalho”. “Deixa do jeito que tá”.

Então, chega uma visita na sua casa e pergunta porque você não trocou a merda da foto que veio com o quadro. E você dá de ombros, dizendo que sempre esquece de fazer isso. A visita insiste em ajudar com aquilo, mas você afirma que não é a hora certa pra fazer isso. E isso vai se prolongando. O porta-retrato vai ficando ali, de lado, esquecido pelo tempo… até chegar o dia.

O dia fatídico.

O dia que você encontra a foto.

O dia que você encontra aquilo que já lhe foi essencial. Aquilo que foi parte importante de quem é. E então, não existe mais preguiça. Não existe mais “deixa pra amanhã”. Você precisa fazer aquilo. E precisa ser agora. Você coloca a foto em um pendrive. Procura a gráfica que esteja aberta àquela hora do dia, seja a hora que for. Pega quantas baldeações forem necessárias. E vai! Faz o que for preciso para colocar aquela foto no porta-retrato. E quando o faz, parece que ela sempre esteve ali. Que aquele sempre foi o lugar dela. E o porta-retrato, que estava indiferente, passa a ser um lugar bom. Um lugar de lembranças boas. Um lugar que dá forças e faz você lembrar de como chegou onde chegou.

Eu me coloquei em um porta-retrato… agora estou tentando encontrar a foto.

[E quando encontrar, nunca mais me coloco naquele lugar.]

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