“Afundo um pouco o rio com os meus sapatos/desperto um som de raízes com isso/a altura do som é quase azul.” Manoel de Barros

Nessa toada:

Lembro de quando afundei meus pés no rio pela primeira vez. É preciso arrastar para não pisar nas arraias, me disseram. Arrastei então meu pé no rio e não vi o fundo. A água era turva e a correnteza era forte.

Lembro da Thaís comendo filhote na casa das meninas com o máximo respeito. “É um privilégio comer esse peixe” ela disse, e seus olhos cintilavam.

Lembro do cheiro de floresta molhada. Era bom. Sempre havia chuva.

E nas manhãs chuvosas de inverno, lembro de olhar pela janela e ver o pescador sair na voadeira encoberta ainda pela neblina. Nem dava pra ver a copa das árvores. O pescador logo sumia no horizonte.

Lembro agora das fotografias que eu não fiz lá. De todas as imagens que ficaram na minha cabeça e que eu jamais poderia registrar. Cenas invisíveis, como o dia em que vimos um velório ser feito na sala minúscula de uma casa. Ou quando eu passeava pela orla e vi crianças brincando na água do esgoto. Havia um bebê de fraldinha. Ou ainda quando os urubus me cercaram na Agrário Cavalcante e eu fiquei paralisada. Imagens presas na minha cabeça.

O cheiro de peixe do Tacacá da Moça ali na esquina e os jantares na Lurdinha e no Tinguela. Lembro também de quando faltou energia durante a missa e fiz uma leitura falando bem alto. “Mais alto”, pediu Dom Erwin, para todos ouvirem. E rimos porque a luz voltou em seguida.

Agora lembro vagamente dos índios andando pelas ruas e de como não ousei fotografar nenhum deles porque simplesmente não cabia; do mofo na sola dos sapatos. Do calor que subia no fim da tarde e do engarrafamento de ônibus do Sítio Pimental na Coronel José Porfírio. Era assim que a gente via a poeira subindo, pelo farol dos ônibus.

Lembro da nossa vidinha de todos os dias. Marido indo e voltando do trabalho, eu ficando e lendo todos os livros que gostaria, inúmeros textos, mais horas nas redes sociais do que me orgulho de contar. E de como também foi assim, sozinha que aprendi, na marra, a fazer comida. E de como comer nos unia. Era em torno da mesa que nós e as meninas passávamos os dias. Cerpa, Tijuca, vinho e pato no tucupi. Tudo fazia sentido. Também passei um bom tempo pedindo caixotes de feira no sacolão e fazendo móveis pra casa. Ah, e fazendo fotos de coisas que eu também já quis esquecer.

Lembrei do pó de terra que — como bem disse a Malu — impregnou para sempre os nossos sapatos e a nossa memória, e dela chorando assombrada no sofá da minha sala de estar; dos amigos que deixamos lá, das risadas, da energia boa da Darlene e do dia em que eu e Dadá choramos juntas depois que ela me contou a sua história em Belém.

A verdade é que afundei um pouco o rio com os meus sapatos e não cheguei a despertar raízes. Não houve tempo. E eu também não quis. No meu coração ainda é tudo contraditório sobre aquilo ali. Tenho uma percepção menos romântica agora, confesso, porque me tornei mãe e agora pra tudo tem uma real. Mas eu não entendia nada dali. E ainda não entendo. Sinto que afundar os pés no rio não foi suficiente. Só fiquei na superfície.

Eu fotografei.. Fotografei compulsivamente. Fotografei muitas coisas, inúmeras fachadas de casas, paredes caindo aos pedaços, janelas que davam direto pra rua, grades sobre portas. Cachorros, gatos e urubus. Fotografei palafitas, crianças, mulheres, céus, rio, poeira e flor. Mas não há fotografia capaz de retratar o que Altamira significou na minha vida. Nada. Nada disso é suficiente para retratar essa cidade, tamanha sua complexidade.

Lembro de quando fui embora de lá. Olhei para baixo e me despedi do rio em silêncio. O céu era azul. Não havia som. Eu estava muda.

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