A batalha das mulheres no rap brasileiro, por Bárbara Sweet

“Não vão privatizar o meu desejo, não vão. Não vão decidir o que eu almejo, não vão. Não vão maquiar o que eu vejo, não vão. Não vão. Nunca passarão.” Nos 30 minutos de show, a MC Bárbara Sweet dominou aquele palco rimando sobre liberdade sexual, feminismo e união entre mulheres. Além das autorais (como Tem Que Ter, que abre essa entrevista), incorporou as divas Beyoncé e Amy Winehouse e recitou o poema Dona Dama, também autoral. No cenário do rap brasileiro, a mineira é tão forte quanto sua voz: duela com homens sem baixar a cabeça para os xingamentos e busca aumentar a representatividade das mulheres no rap, meio predominantemente masculino, através da Liga Feminina de MC’s que fundou com outras rappers.
Por que seu apelido é Sweet?
Bom, quando comecei a ir pra rua eu era bem nova, tinha uns 12 ou 13 anos e comia muita bala de uma loja que chamava Sweet Sweet Way que tinha lá em Belo Horizonte. Eu chegava na escola cheia desses pacotes de bala e aí quando a gente estava escolhendo um nome pra pichar eu acabei ficando como Sweet.
Quando você começou na música?
Eu comecei a pesquisar sobre a cultura hip hop quando tinha uns 13 anos, mas eu comecei realmente a rimar com uns 16. O meu contato com a música começou bem cedo porque eu fazia parte do coral na igreja, de família católica. Fiz coral dos dez até os 12, mais ou menos, e eu fazia a voz e o violão. Depois que o rap chegou eu me dediquei a isso.
Desde o começo da carreira você já participava de batalhas?
Não, o duelo veio bem depois. Eu comecei escrevendo, gravei uns sons, participei de alguns coletivos na cidade. Depois eu tive um grupo com uma outra MC lá de BH, chamado Controversas. Aí eu participei de um outro projeto chamado Ripanca, que é um coletivo de MC’s e depois eu saí e fui solo. Os duelos começaram em 2012/2013.
E qual estilo você prefere?
Ah, cara, eu gosto das duas coisas. Hoje em dia eu prefiro fazer mais show, porque o freestyle é legal, eu adoro participar de batalha, sou apaixonada mesmo, mas eu tenho uma necessidade hoje em dia como artista de fazer um som que fique, de mostrar minha identidade musical. O freestyle é uma coisa que você faz ali no momento, mas a música é algo que perpetua e que mostra mesmo sua cara como artista, sua opinião pessoal sobre diversos temas.
Qual foi a tua primeira barreira na música como mulher?
Ser mulher. Minha primeira barreira na música foi ser mulher, principalmente dentro do rap. O rap tem uma cultura muito misógina. Quando eu comecei a ir no rap, nós não íamos de roupa feminina, a gente só ia de roupa larga. As mulheres eram praticamente uma versão menor dos caras. E nisso a gente já vê muito como era um espaço extremamente masculino. Não era muito bem visto você ser uma mulher no rap. Eu conversei com um cara que é um grande nome no rap, lembro que eu era novinha, tinha uns 18 anos, super empolgada e ele falou pra mim: “não adianta esse negócio de ser mulher no rap. No rap ou você é mulher de alguém ou você é bandida. Se eu fosse você ou arrumava um cara pra casar aí do rap ou já se conforma que vai ser conhecida assim”. Essa era a mentalidade que a gente enfrentava muito forte e ainda enfrenta um pouco, mas de uma forma mais branda.
Minha primeira barreira na música foi ser mulher, principalmente dentro do rap. O rap tem uma cultura muito misógina. Quando eu comecei a ir no rap, nós não íamos de roupa feminina, a gente só ia de roupa larga. As mulheres eram praticamente uma versão menor dos caras.
E você não só é mulher, como também fala sobre isso nas suas músicas. Isso também é uma barreira?
O ponto de vista da mulher é sempre tido como coisa de mulherzinha. Quando o cara tá falando alguma coisa que ele passou, as pessoas dizem “ah isso é uma experiência legal”, quando a mulher tá falando “parece um diário”. O ponto de vista da mulher é sempre subjulgado e o rap teve uma alavancada boa nisso com MC’s como Flora Matos, Karol Konká, Carol de Souza, minas do rap mesmo que subiram. Até a própria Beyoncé lá fora, que não é propriamente do rap, mas que não deixa de abordar essa questão do feminismo. Então eu acho que não teria como não falar disso no rap, porque é o que eu sou. No rap você passa muito do seu ponto de vista perante alguma coisa.
Quando o feminismo se juntou com a sua música?
O feminismo é realmente algo que eu sempre li, procurei saber, mas nunca tinha realmente abraçado o movimento da militância. Então foi mais ou menos no final de 2012 que eu comecei a ter mais contato com literatura feminista, textos, a própria internet que ainda é a maior fonte de divulgação do material feminista. A partir do momento que eu comecei a entrar nisso, eu fui trazendo o feminismo pra dentro da minha vida, como forma de me empoderar. Muito mais do que falar sobre isso, era algo que eu dizia pra mim mesma, principalmente por frequentar espaços tão masculinos como a batalha. O feminismo foi entrando levemente junto com as batalhas. Quando eu voltei pras batalhas eu senti essa necessidade de me entender como mulher, de achar que eu merecia aquele espaço também, então o feminismo me deu força pra enfrentar esse processo e me empoderar pra poder viver ele de fato.
Duelar com homem e com mulher é muito diferente?
Muito diferente! As mulheres tendem a ser mais criativas na hora de batalhar com você. Porque uma mulher não vai te zoar porque você é mulher. A maioria dos caras sempre vem nessa questão clichê de ser mulher: “eu não quero te pegar, você é feia demais, é um canhão”. E alguns caras que já me conhecem como feminista vem exatamente nesse tipo de ataque: “ah, é feminista, é mal comida, blablabla”. Em contrapartida, já batalhei com MC’s que em hora nenhuma falaram do fato de eu ser mulher. Uma coisa que eu costumo falar muito é: eu nasci mulher, eu sou especialista em ser mulher. Então se o cara vem me atacar como mulher eu tenho um arsenal de defesa muito grande.
Você lá levou alguma cantada nos shows ou batalhas?
Muito pelo contrário. Toda vez que eu rimo os caras não chegam perto. Se eu sair daqui agora você vai ver que os caras vão me cumprimentar como se eu fosse homem. Se eu rimar, eu sou tratada com extremo respeito. Até um certo nível de intimidação.
Você acha que pelo o que fala no palco os caras não tem coragem?
Com certeza. Eu tava falando isso com uma amiga. Eu estava numa festa com várias pessoas lindas e maravilhosas e eu falei “que pena que eu vou rimar, porque daí eu não tenho chance” [risos]. Os caras não chegam nem perto.
Pra mim essa técnica de que mulheres são competidoras é uma forma de minar essa força tão grande que a gente tem quando se une.
Você tem uma filha, né? Você conversa sobre seu trabalho com ela?
Demais, falo demais! Ela tem sete anos e vai comigo, sempre foi pras batalhas e pros shows. Eu crio ela sozinha — o pai dela mora em São Paulo e eu em Belo Horizonte. Então assim, o que eu tenho que fazer e que dá pra ela ir, ela vai comigo e curte muito. Eu converso muito com ela sobre as questões de mulher também e ela pergunta muito. É uma criança muito curiosa. A gente têm um diálogo muito bom tanto em relação a música, ao rap, ao meu trabalho, quanto à questão feminina.
Você apresentou um poema falando sobre a amizade entre mulheres [Dona Dama]. Como quebrar essa ideia de competitividade?
A nossa socialização é essa, né? Que mulher não é amiga de ninguém, mulher só quer ver a outra pelas costas. Mas desde que eu abracei o feminismo, eu vi o quanto o mundo se transforma quando a gente se une. Eu consegui construir coisas maravilhosas ao lado de mulheres incríveis, com quem eu aprendi demais e que se eu tivesse essa mentalidade ainda, a gente não teria conseguido. Pra mim essa técnica de que mulheres são competidoras é uma forma de minar essa força tão grande que a gente tem quando se une. Mas é uma desconstrução. É pegar isso que foi construído anos e anos na sua vida, jogar por terra e pensar diferente. A partir do momento que eu fiz isso de forma individual, as coisas se transformaram muito no grande espectro. A gente construiu uma Mostra Feminista em Belo Horizonte. A gente construiu a Liga Feminina de MC’s. A gente fez tudo de forma horizontal, com várias mulheres construindo diversas partes do movimento, com diversos tipos de arte, todo mundo com a ideia de se unir pra empoderar cada vez mais mulheres. Isso é maravilhoso, transformador. Eu comecei a acreditar realmente na sororidade quando passei por uma situação de abuso e vi que todos os homens tomaram o partido do cara — inclusive os que eu chamava de amigo. Aí eu vi que no final das contas mesmo, quando o bicho apertar, quem vai ficar do seu lado são só as mulheres, porque todas já viveram isso, seja em maior ou menor grau, e foram tratadas como mentirosas, como caluniadoras, como exageradas, nervosinhas, chatas do rolê. Mas não é verdade! No final das contas, quando a gente precisa mesmo, é só a amiga que vai olhar pra sua cara e dizer “pode chorar, amiga. Eu te entendo”.