Eu me puno, tu te punes

Ilustração: Negahamburguer

Já era final da tarde de uma quinta-feira abafada (que, em Florianópolis, significa ficar com a pele pegajosa depois de dois minutos, por causa da umidade) quando eu resolvi sentar num café perto da minha casa pra botar um pouco de cafeína pra dentro e as ideias pra fora. O que costuma ser uma atividade solitária, acabou se tornando um reencontro com uma amiga antiga. No meio da conversa ela me contou sobre a nova terapeuta. Disse que na segunda sessão acabou confessando que dos 15 aos 20 anos viveu numa onda inconstante de crises de bulimia. Uma punição por ter um corpo fora do padrão, ela e a terapeuta concordaram. Mas o que me chamou atenção nesse diálogo clínico foi o que a psicóloga disse sobre a recuperação da minha amiga:

“O vômito era sua punição antes. Só porque você se livrou dele, não quer dizer que não esteja se punindo de outras formas.”

Eu preciso confessar que foi difícil continuar conectada naquela conversa (desculpa, miga!), porque comecei a numerar as diferentes formas de automutilação já criadas por mim. Pensei em todas as vezes que eu me proibi de usar aquele shorts jeans porque eu ousei ter celulites. Pensei naquela semana sem jantar nenhum dia porque aquele cara me deu o terceiro fora seguido; nos meses que acreditei que o meu namorado abusivo do ensino médio era mesmo o único que poderia amar “alguém como eu” e nos meses seguintes que eu neguei ajuda de amigas e amigos porque “eu merecia”; Lembrei de todas as vezes que eu abracei o rótulo de louca. De puta. De inferior. De nada.

E amigas, eu lembrei de vocês. Lembrei das vezes que você se fechou pro amor. Lembrei de você trocando de roupa tantas vezes antes de sair e de te ouvir chorosa dizendo “nada fica bom no meu corpo”; de você passando calor com o cabelo na nuca, porque ainda não conseguiu desligar a voz desse cara na sua cabeça dizendo que você fica feia de cabelo preso; pensei nas vezes que você não desistiu da tua carreira — não por amor a ela, mas porque era isso que esperavam de você. Lembro de cada olhar triste na frente do espelho, de cada “não” que te quebrou, de cada vez que você colocou a dor dos outros na frente da sua, de cada vez que você se anulou em um relacionamento pro seu parceiro poder brilhar. Lembrei de todas as vezes que eu quis te salvar e não consegui, e me puni por isso também.

Eu me puno, tu te punes, nós nos punimos, mas uma hora o ciclo tem que acabar. Sofrer é OK quando faz parte de um processo — seja ele de cura, de mudança, de perda. Colocar por conta própria um adicional de pressão psicológica é sadismo. E não importa o que você fez ou quem você é, eu sei que você não merece isso.

Qual é o nome do teu chicote?