Foto de Guilherme Meneghelli

O jogo ainda não virou, mas vai virar

A resistência das mulheres na Batalha da Alfândega

Estas três mulheres vieram de cidades diferentes, com trajetórias diferentes, mas é no Largo da Alfândega que a história delas se cruza pela primeira vez. Bem ou mal, a batalha de rap que acontece todas as quintas há mais de cinco anos no centro de Florianópolis foi ocupada por elas e fez nascer dentro delas não só a união inevitável de quem batalha a mesma guerra, mas também a percepção individual de que “a rua é nóis”, mas é mais deles que delas.

Ka Alves foi a primeira mulher a ousar adentrar o espaço dominado pelos homens no ringue de batalha da alfândega, em 2010. Apesar de ter se envolvido com a música há tanto tempo que mal consegue me precisar as datas, foi só em 2008 (ou 2009, talvez) que ela gravou a primeira música autoral. Antes disso, ela já tinha dividido o palco com amigos e foi ali que surgiram as primeiras músicas. Hoje, a ponta-grossense de sotaque carregado vive da arte: o artesanato que sustenta a família e a rima que sustenta a alma.

Suzi Oliveira rodou as batalhas de Maringá (sua cidade natal), Londrina, Apucarana, São Paulo e, finalmente, Florianópolis. Parece ser a mais sensível à situação das mulheres na Batalha da Alfândega: não hesita em apontar o sexismo presente na cena musical que trabalha — hoje fora do freestyle, mas em projetos pessoais. A vida das mães solteiras, o medo de sair na rua sozinha, a negação do direito da mulher de dizer “não”: todas as pautas que poderiam estampar cartazes de manifestações feministas são os temas sobre os quais ela rima hoje. “Como diz uma irmã que conheci na Alfândega, é noix por noix”, completa.

“Sem amarras, desarmas/ entre os cantos se cala/ deitada no sofá da sala/ pensando se ela descarta a hipótese, chance/ de vingar seus romances./ Ela cansou desses lances/ e com seus olhos brilhantes/ ela comenta que é difícil isso pra ela/ Quer ser apenas das histórias Rapunzel, Cinderela/”. Esses foram os versos que Anna Puga escolheu pra me dar uma amostra do trabalho que faz como rapper. Mas a atitude da mulher de 27 anos nada lembra qualquer história de princesa que eu já tenha ouvido na infância. Fala com carinho da companheira de vida — que no dia também foi companheira na entrevista -, sente o nó na garganta ao lembrar do irmão que está preso na Austrália, conta, humilde, detalhes da mais nova trajetória na música eletrônica que já dá frutos e fãs. Uma história de vida complexa que ela descreve nas mais de 70 letras que compôs. “Tem muita letra que eu fiz que eu acho que nunca vai morrer, que é aquelas letras que alguém vai pegar um pedacinho dela, vai guardar e usar em algum momento da vida”. Esta reportagem já pegou algumas palavras emprestadas, pelo menos.

Apesar de cada uma dessas mulheres ter me cedido pelo menos uma hora dos seus dias, foi um verdadeiro desafio encontrar esse tempo. A Suzi não teve como e a nossa conversa teve que ser online. Entre o estágio e os freelas que faz pra se sustentar, ela não tinha como me encontrar; já a Anna combinou comigo na mesma semana. Mas aí apareceu um problema de saúde, consulta médica, exame. Remarcamos. Com uma jornada quádrupla de mãe, dona de casa, artesã e MC, foi quase impossível marcar com a Ka. Durante duas semanas nós conversamos pelo Facebook tentando achar uma data que funcionasse pra nós duas. Nesse meio tempo ela já tinha feito duas viagens. Com o deadline apertando, perguntei se ela não podia conversar comigo por videoconferência. “Eu não tenho nem computador em casa!”, ela me respondeu rindo. Eu, acostumada com as fontes burocráticas que o jornalismo decidiu legitimar como oficiais, não pude perceber que a vulnerabilidade que aquelas mulheres expunham nas rimas eram pedaços de uma vida muito distante da minha. A mesma voz que canta na meia luz da Batalha da Alfândega é também a que briga com o chefe, nina a criança, pede emprego, marca shows, enfrenta a polícia que enquadra.

Desde cedo a música esteve presente na vida delas, e de forma muito rica. Suzi diz que conheceu o mundo do hip hop ouvindo os álbuns da irmã de Racionais MC’s, um dos maiores nomes do rap nacional. O groove que Anna descreve como inspiração pode ser percebido até no jeito ritmado que ela fala. O apego familiar fica ainda mais evidente quando lembra das rodas de samba que participava ao lado do pai. “Sou canhota, não sei tocar instrumentos de corda, mas adoro fazer um batuque, colocar uma poesia em cima”. Jura que no pendrive que coloca no carro não tem música nova, só clássicos de jazz e blues — o que é confirmado pelo olhar e o riso da parceira.

Na hora de listar as principais influências musicais, os nomes se repetem. Flora Matos, Dina Di, Lauren Hill, Sabotage, RZO, Elo da Corrente, Brisaflow, Sara Donato. No dia que eu comecei a escrever esta reportagem, Ka Alves me mandou uma mensagem pedindo pra que eu incluísse uma das maiores inspirações dela, um grupo chama Inthefinityvoz. Como não conhecia, fui pesquisar pra tentar entender a importância tão grande a ponto dela ter entrado em contato comigo de novo só pra acrescentar um nome. Além do som forte e das rimas com temática pesada, encontrei o show “Da Extinção à Existência”. Isso já foi explicação suficiente pra mim, já que a conversa com essas mulheres me fez perceber que essa é a luta delas no rap: existir.

Fui a duas batalhas na Alfândega pra entender esse ambiente que, por relatos, eu já sabia que era extremamente masculino. Mas foi só lá que eu percebi como o machismo ditava a dinâmica da batalha. Na primeira vez, eu acompanhei mais de longe. Fiquei fora da roda que cerca os MCs e o condutor da disputa. De cara já fica muito claro o contraste: os espectadores homens são uma maioria esmagadora. Nesse dia, nenhuma mulher batalhou. Mais longe ainda de onde eu estava, sentadas num banco, estava um pequeno grupo de mulheres. Resolvi me aproximar. Duas irmãs grafiteiras me receberam muito bem, já me oferecendo o que elas bebiam e cigarros. Quando contei pra elas do meu objetivo ali, uma delas chamou uma MC, a Dandara. E se engana quem pensa que ela só carrega o nome de guerreira. Chegou na roda, mas me olhou desconfiada. À medida que eu fui contando um pouco do meu trabalho e envolvimento com o tema, ela foi se desarmando e até contou uns causos da batalha. “A gente vai batalhar com o cara e ele diz que eu sou feia e que não quer me comer. E quem disse que eu quero dar pra ele, né?”.

Cerca de um mês depois, eu voltei. No dia da segunda batalha que observei, o Cubano — um dos organizadores atualmente da Batalha da Alfândega — postou uma playlist “pra aquecer” o pessoal. Das 50 músicas, só oito tinham participação de mulheres e em apenas uma delas a voz principal era feminina. A Suzi pareceu ter profetizado isso na entrevista que me deu poucos dias antes: “Na cultura do rap a mulher é colocada sempre atrás do homem, como se o lugar dela fosse no refrão ou numa frase, mas nunca na música inteira”. O mesmo homem foi quem anunciou pra outros dois MCs que o tema daquela rodada da batalha era o movimento feminista. Eu pude notar instantaneamente uma mistura de reações de quem assistia. As poucas mulheres que estavam do meu lado conversando se viraram rápido pro centro da roda. Eu e a minha colega jornalista nos olhamos arregaladas prevendo, pessimistas, de que aqueles dois homens que já tinham provado ter boas rimas, talvez fossem decepcionar meu ouvido sedento por essa pauta. Foi uma batalha morna e genérica — ao invés de falar sobre feminismo, adotaram um já famoso discurso de “nem machista, nem feminista”, pois “somos todos iguais — e isso não é apenas um juízo de valor que eu faço. O barulho das palmas e gritos que por vezes é ensurdecedor, ali foi calado. Reação parecida com a de muitos que compõem o movimento do rap frente às mulheres que cobram mais espaço e respeito ali dentro. Quando a rodada terminou, o MC que perdeu passou por mim e disse pra um amigo com um sorriso amarelo que não era de vergonha, mas de conformação: “Cara, eu nem sei o que é movimento feminista”.

É evidente o carinho que as MCs tem pela Batalha da Alfândega. Todas destacam a importância de ter um espaço público de incentivo à cultura, especialmente numa cidade que foca no turista que vem gastar o 13º na Ilha e esquece quem não pode pagar. O Estado, contudo, parece discordar das meninas. No início de 2015 começou uma forte repressão policial no Largo da Alfândega pra impedir que as batalhas acontecessem. Os policiais interromperam as rimas que voltaram pra margem, pulando de ponto em ponto pela cidade pra não morrer de vez. Foi só alguns meses depois que, com muita ocupação, a Batalha voltou pra casa.

Algo que é unanimidade entre as três é o tipo de batalha. Entre a batalha de sangue — em que o objetivo é atacar o outro MC — e a batalha de conhecimento — que ganha quem desenvolve melhor a ideia a partir de um tema dado na hora — as três preferem a segunda. Quando a Alfândega só fazia batalhas de sangue, a situação pra elas era pior: quando ganhavam, ganhavam “porque eram mulheres”. Quando perdiam, também. Ka Alves foi uma das primeiras a questionar isso. Junto com outros MCs, se recusou a rimar enquanto não fizessem batalhas de conhecimento. Com o tempo, passaram a fazer os dois estilos toda semana. Isso tem pouco mais de um ano. No início, percebendo que o fato de ser mulher a perseguia nas batalhas, Suzi preferia as de sangue. “Era uma maneira que eu encontrava pra debater o machismo que naturalizavam, mas nunca dava certo. Porque ou eu desconstruía um argumento usando outro que oprimia alguém ali ou porque me sentia mal, mesmo sabendo que o MC encarna um personagem. Vejo muito ego nesse estilo e minha vibe nunca foi crescer desmerecendo algo ou alguém”.

Mesmo quando o palco da Alfândega foi aberto só pra mulheres, o instinto deles era de manter o controle. Eles queriam que elas fizessem batalhas de sangue. Ka Alves se recusou. Pegou o microfone e, no primeiro duelo, largou “Ah, vocês querem sangue? Porque a gente já sangra todo mês”. Todas as MCs que vieram depois também preferiram ocupar com ideias, e não ataques, aquele espaço reservado sempre pra quem tem o privilégio de preencher o perfil ideal de rapper. “O microfone tá na minha mão, quero ver vocês me obrigarem”, completou Ka.

Quando pergunto sobre a dificuldade de ser mulher no rap, todas elas têm pela menos uma história pra me contar sobre a Batalha da Alfândega. Puga me diz que é sempre a mesma coisa: já a xingaram por ser gordinha, ter cabelo crespo, não se encaixar no estereótipo de feminilidade, por gostar de mulher. Alves afirma a mesma coisa. Na hora de devolver a rima, a aparência é a primeira coisa que eles atacam. E é por isso que ambas preferem batalhar com mulheres. Além de uma ajudar a outra, o duelo costuma ser sobre qualquer outra coisa, menos o tamanho da calça ou o tipo de cabelo da outra. Suzi descreve outros tipos de violência, como sempre citar o gênero da MC na hora de legitimar uma vitória ou derrota. Ela é mulher, por isso não entende muito de rap. Não ouve o gênero na mesma quantidade que os caras. Só vai ganhar a batalha porque é mulher. Rima bem, até parece homem. “É foda colar num show ou batalha e ver os mano, que batem no peito pra falar que é respeito e disciplina, mas não pensa duas vezes pra assediar ou abusar de uma mulher. Uma vez, num show de rap, um cara passou a mão em mim e tava com uma camiseta do Sabotage escrito ‘respeito é pra quem tem’”.

Ka Alves e Suzi Oliveira são assumidamente feministas. Mas, mais do que isso, acreditam que o movimento é responsável por uma mudança nesse cenário musical. “Não posso dizer que eu não sou feminista porque seria um crime. Toda mulher deveria se considerar”.

Se eu precisasse dar um diagnóstico sobre a situação das mulheres na Batalha da Alfândega e do próprio movimento do rap, com certeza, apontaria a falta de representatividade. Chegar numa batalha consistente, que existe há mais de 5 anos e sair de lá sem ver uma mulher batalhar é um sintoma muito grave do machismo enraizado na música e que, no rap, parece ser mais latente. Mas enquanto eu dou esse diagnóstico, elas me dão o tratamento. A representatividade nesse espaço precisa ser feita de mulher pra mulher. Eu ouvi sair da boca de cada uma delas a importância da união das mulheres — praticamente um mito numa sociedade que nos ensinou desde que nascemos que não existe amizade verdadeira entre nós — na hora de construir um espaço menos desigual. Em poucas palavras Anna Puga deixou clara essa importância. Palavras que eu vou guardar e usar em algum momento da vida, como ela tanto deseja: “Se a gente quer mesmo o nosso espaço, a gente tem que fazer por merecer e correr atrás desse espaço juntas, porque sozinha a gente só vai pro caixão”.