Porque eu recusei um prêmio para financiar Minas no Mic

Foto minha e adesivo da artista Letícia Lima

AVISOS IMPORTANTES: 
- Eu, a Bin e a Lara, três personagens dessa história, somos mulheres brancas e lésbicas. Esse é um recorte importante para o entendimento de tudo que aconteceu.

- Estou tomando a liberdade literário de interpretar as frases como elas vêm na minha cabeça — até porque boa parte desse final de semana virou um borrão pra mim. Mas eu garanto que todas as informações são devidamente apuradas. Palavra de jornalista.

Inscrevi meu projeto Minas no Mic como proposta de série documental para a internet no festival de webséries Rio Webfest. Era simples: eles estavam abrindo a categoria “Super Project” para inscrever projetos. Os 10 selecionados teriam a oportunidade de apresentar a ideia em um pitching de 10 minutos para um empresário de um novo aplicativo de streaming. Pra minha surpresa, fui selecionada. Partiu Rio de Janeiro!

Conversando com outras amigas que também tiveram projetos aprovados, discutimos sobre a melhor maneira de vender a ideia. Falamos sobre narrativa, informações essenciais, business. Chegamos cedo na Cidade das Artes, onde aconteceria o pitching. Treinei mentalmente o que eu ia falar um milhão de vezes. O organizador do evento me chama para irmos até o teatro, onde o tal empresário me esperava.

O pitching correu dentro do que se é esperado. Falei de onde eu partia, do interesse pela ideia, da construção do projeto, das personagens, da realidade delas. Depois dos 10 minutos, saí daquela sala com vontade de vomitar. O que eu tô fazendo aqui?

Encontrei minha namorada pouco tempo depois [ela também participou do pitching) e chorei. Chorei muito.

- Acho que traí meu projeto. Passei 3 minutos falando o mais rápido possível de tudo que realmente importava e o restante do tempo desesperada tentando convencer um homem branco, heterossexual e rico de que valia a pena investir no meu projeto.

Pouco depois de eu concluir esse pensamento, uma amiga chega também chorando. Ela apresentou um projeto de websérie que tem como personagens centrais mulheres negras, assim como explora também a mitologia de Orixás. Quando ela falou isso, o tal empresário bufou. Revirou os olhos.

- MAS POR QUE ESSA MODA DE COLOCAR PERSONAGENS NEGRAS? PRECISA?

Com a coragem que só uma mulher que precisa lutar diariamente pra existir tem, ela argumenta, questiona se ele perguntou o mesmo sobre elencos brancos. Mas acaba o tempo. Quando ela termina de contar esse história, minha namorada comenta que ao falar que a personagem principal do seu projeto de série para crianças é uma menina negra, ele também revirou os olhos, parecia desconfortável com tudo aquilo.

Além de nós três, outra amiga também apresentou projeto. Juntas, decidimos que, se por acaso ganhássemos — o que àquela altura parecia extremamente improvável, já que todos os projetos propunham personagens de alguma forma periféricas: mulheres negras, lésbicas, pobres — recusaríamos o prêmio. Nesse ponto, achávamos que a escolha do projeto vencedor não seria anunciada no evento de premiação. Mas foi.

Domingo era o dia. Já no fim da cerimônia eles anunciam que chegara a hora de falar quem tinha vencido o Super Project. Nomes na tela. Música de suspense. E o vencedor é

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“MINAS NO MIC! PARABÉNS, O PROJETO MINAS NO MIC GANHOU UMA PARCERIA PARA A COPRODUÇÃO DO PROJETO, VEM CÁ RECEBER SEU PRÊMIO!”

Pânico. Eu olho pras minhas amigas e elas não precisam dizer nada. Mas já no caminho, uma delas me fala: faz o que teu coração mandar.

Eu não consigo explicar tudo que eu senti nos 60 segundos que eu levei pra chegar até o palco. Uma moça da produção me fala “parabéns! Não precisa ficar nervosa, vai lá pegar teu prêmio!”. A única coisa que eu consigo responder pra ela é: eu vou fazer uma coisa meio louca.

Quando chego no palco, me entregam o prêmio e o apresentador me dá o microfone. Eu olho toda aquela gente. O que eu tô fazendo aqui? Minhas pernas parecem que vão vacilar a qualquer momento. Acho que vou vomitar. Nem comecei a falar e já estou chorando. Não vou conseguir.

Eu não me recordo das palavras exatas que saíram naquela hora, mas vou tentar reproduzir:

“Oi, gente. Eu vou fazer uma coisa meio louca aqui. Eu sou uma mulher, feminista, lésbica. Durante o processo de pitching, casos sérios de racismo aconteceram com outras duas colegas minhas que apresentavam projetos. O representante da empresa que patrocina o Super Project revirou os olhos quando elas falaram que suas personagens principais eram negras e elas foram questionadas quanto a necessidade de representatividade racial nas produções audiovisuais. Por essa razão, eu não posso aceitar esse prêmio. O meu documentário fala sobre mulheres negras, mulheres da periferia, mulheres lésbicas, e eu estaria traindo meu projeto se aceitasse esse dinheiro, essa coprodução.”

Não consigo mais falar e bem nessa hora eu tenho dois amores pra me salvar, justamente as duas que presenciaram essa demonstração clara de que representatividade incomoda: a Bin, minha namorada, e a Lara, uma das minhas melhores amigas. Elas sobem no palco, me abraçam, me seguram. Está tudo bem. Você conseguiu. Acabou.

Eu saio de lá sem entender nada, tremendo, chorando, precisando urgentemente sentar pra não desmaiar. Desabo no colo da minha namorada. Choro copiosamente mais uma vez. Pouco tempo depois, começa a sair todo mundo do teatro. A cerimônia tinha acabado. E eu que tinha achado que a maior loucura havia sido subir naquele palco pra recusar na frente de sei lá quantas pessoas um prêmio racista, não imaginava que a loucura mesmo era o que vinha depois.

O primeiro a falar comigo é um homem gay. “Parabéns pela coragem”. Aperta minha mão sorrindo e vai embora. Em seguida vem a mãe dele e me abraça. “Parabéns pela coragem”. Uma mulher negra, produtora de uma série LGBT, aperta minha mão, me abraça forte e diz que meu discurso representa ela. Outra mulher negra me abraça e não diz nada. Um homem negro, gay e nordestino que eu já tinha conversado bastante durante o festival me abraça e diz que está orgulhoso de mim. Uma diretora trans incrível que eu vi palestrar lá no festival me abraçou e disse que se sentia representada, porque foi tratada igual lixo por ali. Uma menina me agarra pelas pernas e fala “Você é incrível e muito corajosa. Adorei o que você falou. Eu tenho só 11 anos e já sou feminista, sabia?”. Só o que eu conseguia responder era “obrigada, obrigada, foi muito difícil, mas obrigada, obrigada pelo apoio, boa luta pra nós, obrigada”. Acho que devo ter abraçado mais de 50 pessoas. E elas não eram um empresário branco e rico. Eram mulheres lésbicas. Mulheres negras. Mulheres trans. Homens negros. Homens gays. Amigas. Amigos. Completos estranhos. Um cara que falava espanhol. Eu falei por todas essas pessoas. Que responsabilidade da porra. Mas acho que consegui. Agora foi. Acabou.


Toda essa epopeia pra dizer: eu fiz o que tinha que fizer. Por mais corajosa que eu admita ter sido naquele momento, o que eu fiz foi o mínimo para ser condizente com o que eu falo, faço e acredito.

Com que cara eu ia olhar para as minhas entrevistadas sabendo que o dinheiro veio de um lugar tão sujo? Como que eu ia construir esse projeto com a minha equipe, que tem duas mulheres negras MARAVILHOSAS que me ensinam muito todo dia e me dão a oportunidade de tentar desconstruir esse racismo tão estrutural e que eu reproduzo inevitavelmente através de todos os privilégios da branquitude? Como eu ia continuar defendendo um jornalismo plural, democrático e diverso se eu ignorasse o que tinha acontecido nos bastidores? Como que eu ia dormir em paz? Não sei. Mas não paguei — nem recebi — pra ver.

O que eu fiz naquele palco é o que eu esperava que outras mulheres fizessem se o recorte fosse outro. Se soubesse de uma amiga heterossexual que tivesse presenciado um caso de lesbofobia/homofobia em um processo seletivo desses, eu esperaria um posicionamento. Nós, como feministas, devemos isso. É o correto, é o mínimo, é nossa obrigação mais básica. Falamos o tempo todo em sororidade, empatia, em sentir a dor do outro, respeitar a dor que não dói na gente, a ocupar espaços privilegiados, a usar nossos privilégios em benefício de quem não os tem. Gosto de acreditar que a atitude que eu tomei ali cumpriu com isso.

Todo esse processo foi muito difícil, confuso, cheio de dúvidas. Eu costumo escrever palavras mais bonitas, frases mais lapidadas, narrativas mais construídas aqui. Mas hoje não deu. Hoje eu só quero botar pra fora mesmo. Só quero estabelecer aqui essa posicionamento: eu não compactuo com os mecanismos de opressão vigentes. Estou fazendo o que eu posso e o que eu devo. É um bom caminho. Recomendo.

E pra não dizer que não falei de poesia, fica um trechinho de uma fala da Audre Lorde sobre opressões, recortes e interseccionalidades:

“Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira, mesmo que as correntes dela sejam diferentes das minhas”

PS: Na página do festival tem o vídeo do momento que eu falei. Porém, coincidentemente ou não, a parte em que eu explico porque eu não quero o prêmio foi cortada. Mas agora que vocês sabem o porquê, podem assistir a loucura toda aqui a partir de 1:56:00

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