Quem vê Maria não sabe como é pesado ser Maria

Ilustração: Renata Nolasco/Atóxico

Mais uma semana começa e Maria repete o que faz todo dia. O despertador toca às 5h30 e ela levanta. O marido continua deitado. Se banha e, ainda enrolada na toalha, vai até a sacada pra sentir o clima. Apesar do calor de março tirar todo o frescor do banho recém tomado, ela prefere deixar o vestido novo de lado e ir com a (nem tão) boa e velha calça jeans. “É melhor assim, né? A essa hora não é bom chamar muita atenção”, pensa Maria. Joga a bolsa no ombro e sai em direção ao ponto de ônibus mais próximo. O aperto no busão não é pequeno. Mão na bunda. Uma encoxada. Duas. Três. Chega no trabalho.

Bate o ponto e começa o trabalho na redação do jornal da cidade. Capa do dia: Violência Silenciosa: é um dos últimos estados em denúncias de violência contra a mulher, mas o medo e a impunidade escondem uma realidade muito mais grave. A mão raspa involuntariamente a cicatriz que carrega há alguns anos na lombar. Suspira. Continua.

Na hora do almoço a TV mostra um humorista — “é desse tipo de coisa que as pessoas riem hoje?” — falando que mulher feia que é estuprada não tem o que reclamar. Uma mesa ao lado cheia de homens brancos como seus colarinhos riem. “Por isso que essas feministas aí são todas mal comida. Bando de mulher feia”, fala um deles. Maria levanta, paga a conta e volta pro escritório.

No intervalinho do meio da tarde resolveu dar uma espiada nas notícias na internet. Notícia: Bandeirinha é afastada por CBF. Comentário: gostosa. Notícia: Dilma Rousseff diz que aeroportos estão preparados para atender bem na Copa. Comentário: hahaha até parece, sua vagabunda. Notícia: Elza Soares interpreta A Bossa Negra no Teatro Municipal. Comentário: Essa mulher é o cão chupando manga. “Acho que deu por hoje”.

18h. Hora de voltar pra casa. Mais um latão cheio. “Consegui um lugar sentada, que sorte!”, pensou Maria. Cochilava no longo caminho para casa até sentiu que alguém em pé ao seu lado estava perto demais. Com roupa de menos. Levanta e faz o resto da viagem em pé. 19h30. Hora de entrar em casa. Pobre Maria.

Louça na pia, roupa no chão, comida na mesa, geladeira vazia. “Amor, o que você fez o dia inteiro”, perguntou com a delicadeza de uma flor que é Maria. “O jantar já deve estar pronto pra ficar de conversa mole, né?”. Respira, Maria. 21h30. Casa limpa, comida pronta, marido satisfeito e dormindo. Tira a roupa desconfortável, deita ao lado do esposo que ronca em volume alto, encosta a cabeça no travesseiro e pensa: é, mais um dia normal na vida de Maria. Cai no sono. 5h30. Trim, trim, trim.