A formação do (e)leitor

(Originalmente publicado no portal Causas Perdidas.)

Ultimamente, tenho lido sobre alfabetização, letramento, multiletramento e assuntos afins ao mesmo tempo em que minha timeline do facebook é invadida por posts políticos defendendo e acusando os candidatos que disputam o segundo turno. O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo.

Em termos leigos: uma coisa é você conseguir decodificar as letras que eu juntei, umas ao lado das outras, às vezes com espaços entre elas, às vezes não. Outra coisa é você conseguir ler um texto e, no final, se capaz de me dizer sobre o que era. E outra coisa, ainda, é você entender um texto pensando em quem o escreveu, quando o escreveu, porque o escreveu. Mais: por que o autor daquele texto pensa desse jeito? Por que ele quer dizer que pensa essas coisas? Qual o efeito que esse texto tem sobre mim? Pensar nisso e responder a essas perguntas é letramento.

Por definição, ser (completamente) letrado é impossível porque você está sempre em construção enquanto leitor. Do mesmo jeito que está sempre em construção enquanto pessoa. E sempre que você lê uma nova coisa, ouve uma nova ideia, vê um novo acontecimento, você assimila essas informações com as demais coisas que já viu/leu/ouviu antes e constrói novos sentidos e novos significados para as coisas. Os textos nunca estão prontos quando saem da mão do autor, mas eles “proliferam” os sentidos na mão de cada leitor. Isso você já deve ter ouvido na escola.

Agora que você já está espertinho, deve estar se perguntando onde eu quero chegar com tudo isso. Pois eu digo: nenhum dos textos que circulam pelo facebook, pelos jornais, pelos blogs, pelos sites de notícia e colunas de opinião são neutros. Nenhum deles é imparcial. Nenhum deles é isento. Todos eles querem te convencer de alguma coisa (há linhas teóricas que dizem que toda vez que alguém fala alguma coisa é com alguma intenção, por menor que ela seja). Trata-se, sim, de uma “guerra ideológica”. Há argumentos de um lado e de outro. Alguns são válidos, outros são mentirosos, outros são parciais. Quem decide o que é argumento válido é o leitor. Mas todos eles querem te convencer, no mínimo, de que estão certos. (Há várias coisas que eu poderia dizer sobre estratégias que um autor usa para construir uma imagem de que está “certo”: por exemplo, quanto mais famoso, estudado, referenciado ele for, quanto mais famoso o veículo de comunicação no qual ele fala, quanto mais isso ou aquilo, maiores as chances que o autor tem de ser considerado “autoridade máxima e inconstestável” sobre o assunto.)

Em alguns casos, o leitor não tem repertório o suficiente para comparar as coisas e acaba deixando nas mãos de outras pessoas a responsabilidade de dar o aval sobre o que está sendo dito ali. Imagine o seguinte: eu vejo um gráfico no jornal. Esse gráfico me dá dados sobre, por exemplo, o preço do sabonete. Eu não consigo, sozinha, interpretar o que esse gráfico quer me dizer. O que significa o preço do sabonete ter subido e depois ter caído nos últimos 3 anos? Aí, na minha timeline, aparece alguém que escreveu um texto sobre o preço do sabonete e interpretou o gráfico. Então, já que eu não consigo sozinha interpretar o que o tal do gráfico está me dizendo, vou ler o texto de determinado autor pra que ele me diga o que deve ser interpretado.

Entende por que isso é perigoso? O autor do texto não sou eu: não viveu a mesma vida que eu, não leu as mesmas coisas que eu, não tem a mesma condição que eu teria para interpretar o gráfico. Mas eu compro a interpretação dele como se fosse a minha. E saio por aí falando do preço do sabonete como se eu tivesse entendido o gráfico. Na verdade, não estou falando do preço do sabonete: estou falando da visão do autor X sobre o preço do sabonete. Aquela não é toda a verdade. É a verdade do autor do texto que eu estou propagando como se fosse minha.

Eu não estou dizendo pra você qual dos dois candidatos ao segundo turno é o mais qualificado ou qual tem os melhores argumentos. Estou propondo que você olhe pra si mesmo: quem é você? Como é a sua família? Onde você estudou? Como fez pra chegar até onde está agora? O que você leu? Como leu? Que tipo de pessoas convivem com você? O que você quer? O que as pessoas ao teu redor querem? O quanto você entende do que acontece ao teu redor? E o quanto você entende do que acontece globalmente? O quanto você se sente preparado para falar sobre a tua realidade? E o quanto consegue associar da tua realidade com as outras tantas que estão ao seu redor? Do que você gosta? Do que você não gosta? De que tipo de coisas você sente falta? Que horas você acorda? Que tipo de pessoas encontra no caminho até o trabalho? E assim por diante, se propondo milhares de outras perguntas que sejam necessárias para que você se entenda e se posicione enquanto indivíduo no mundo. Até que você possa responder a mais fundamental de todas as perguntas: Quem eu quero que fale por mim?

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