A misandria, o feminismo e o discurso do ódio

(Originalmente publicado no portal Causas Perdidas.)

O conceito de misandria não necessariamente precisa remontar às táticas feministas de combate ao discurso machista moderno, porque qualquer atitude que possa ser considerada de ódio aos homens (do sexo masculino) é misândrica. No contexto do feminismo, porém, que nos interessa neste texto, misandria é definida muito mais como uma prática que pretende combater o discurso machista e patriarcal da sociedade que se propaga, infelizmente, não apenas por meio dos homens, mas também das mulheres.

Neste sentido, o conceito do senso comum de misandria como “ódio aos homens” não é usado, para estas feministas, como um ódio dirigido a um indivíduo, mas ao homem enquanto “instituição política”: aquele portador do direito de falar, do direito de legislar, do direito de agir. É sabido que nossa sociedade ainda não atingiu o patamar da igualdade de condições entre homens e mulheres. Assim, de acordo com as feministas misândricas, combater o discurso machista é uma tentativa de aniquilar a ideologia machista. É um ódio fundado em todo o tipo de violência que as mulheres sofreram em prol da manutenção da estrutura (ideológica e discursiva, mas com reflexos práticos bastante visíveis) machista e patriarcal que funciona porque beneficia os homens enquanto classe política.

Enquanto as diversas formas de misoginia (ódio e violência contra a mulher) se manifestam no cotidiano, vitimando milhares de mulheres pelos mais diversos métodos (agressões verbais, físicas, espancamentos, assassinatos, criminalização do aborto, culpabilização da vítima, discursos opressores e todo o tipo de violência simbólica ou não), o campo de batalha das misândricas é discursivo. Isso significa dizer que a misandria enquanto tática feminista se propõe a criticar, a princípio, discursos machistas e patriarcais e pessoas que reproduzem esse discurso, mas não existe na sociedade enquanto prática de opressão, porque não é real como a misoginia. Além disso, a misandria é entendida como uma prática de defesa e empoderamento de mulheres vítimas de abusos e não como uma tática feminista obrigatória.

Fazendo um processo de pegar a parte pelo todo, a misandria parte do princípio que as atitudes que um homem teve seriam as mesmas que outro homem teria, uma vez que estão todos interligados e abençoados pelo discurso patriarcal que protege os homens na sociedade. Então, se um homem foi capaz de dizer ou fazer determinada coisa, todos os outros seriam. E se eu posso odiar um homem pelo que ele fez comigo, eu posso odiar a todos porque todos seriam iguais, agindo dentro do mesmo padrão de comportamento ditado pelas práticas sociais. E é neste ponto que eu afirmo que, enquanto feminista, não endosso a misandria. Não condeno e não deslegitimo, mas não adoto como prática minha.

E isso não porque eu não tenha empatia pelas vítimas do machismo opressor (tendo mesmo eu sido uma delas já que nasci mulher, com a sorte de nascer cis, branca, heterossexual) ou porque não entenda o empoderamento que isso pode gerar nas vítimas ou mesmo porque queira defender os homens e me compadeça das male tears.

Se, por um lado, todos os homens se beneficiam com o discurso do patriarcado, isso não significa que todos eles se sintam confortáveis com a opressão contra as mulheres. Aquilo que se entende por categoria política “homem” não é apenas formada por homens, mas por mulheres que replicam e endossam discursos do patriarcado. Não é de hoje que nós, feministas, nos revoltamos contra milhares de discursos repetidos pelas bocas daquelas que gostaríamos de representar também: “mulher tem que se dar ao valor”, “aquela mulher não vale nada”, “mulher que faz x ou y merece se ferrar” e assim por diante. Um exemplo que eu acho interessantíssimo da perpetuação do discurso machista são as chamadas “revistas femininas”, escrita por mulheres, para mulheres, com discursos que atribuem e perpetuam mais ainda papéis de gênero submissivos (“seja uma esposa perfeita: boa de cama, mesa e banho”, “agrade seu homem”, “35 posições que vão leva-lo à loucura” e assim por diante) numa época em que mulheres já sonham com outro tipo de vida há muito tempo.

Este tipo de discurso, evidentemente, é combatido pela misandria também. Páginas misândricas, como a “Feminazi stole my ice cream”, se valem de prints de bobagens faladas tanto por homens quanto por mulheres (e quanta bobagem!) e se propõem a mostrar como aquele discurso é pobre, ou contraditório, ou opressor, enfim, o quanto aquilo não faz sentido. Na maior parte do tempo, é engraçado ver como as pessoas pensam de um jeito torto. Por outro lado, há conteúdos misândricos que apenas perpetuam papeis de gênero e eu mesma não consigo me sentir representada por isso.

Acredito que existe um perigo no fato de tratar indivíduos massificadamente, agrupando todos em grupos supostamente homogêneos. “Os homens cis” não são um coletivo homogêneo, são uma infinidade de pessoas com vivências, experiências, esperanças, opiniões, discursos que podem ou não se sobrepor, podem ou não se contradizer. Não acredito em “os homens” enquanto categoria, do mesmo jeito que repudio a ideia de “as mulheres” enquanto categoria, ou “os judeus”, “os gays”, “os pobres”, “os coxinhas”. É prerrogativa da ideia de categorização uma homogeneização que passe por cima das diferenças. Se somos contra os papeis de gênero binários, contra a sexualidade binária, contra a imagem tradicional de família (papai, mamãe e casal de filhos), é porque somos contra a homogeneização simplificadora e porque entendemos que é na diversidade que a graça acontece. Ora, por mais terríveis e atrozes que possam ser as atitudes machistas, e por mais que filosoficamente elas estejam ligadas aos homens, não é a todos os homens. Supor que um homem agiria da mesma forma que outro homem agiria é supor uma homogeneização que não existe e praticamente supor que o indivíduo é assujeitado e incapaz de pensar, agir e responder por si próprio.

Além disso, é fato que os homens são vítimas de violência por parte de homens e mulheres, notadamente dos que propagam o discurso patriarcal. Já ouvi diversos relatos de homens forçados a transar e que se sentiram mal por isso, homens que foram ridicularizados por não saber x ou y que supostamente um homem deveria saber ou por estar fora de qualquer tipo de padrão do que “se espera de um homem”. Não estou defendendo male tears: estou dizendo que quando eu pego um ser humano que foi vítima e ridicularizo a situação (qualquer que seja) que o fez se sentir oprimido e, ao invés de tentar entender e ajudar, faço ele de mártir por todo o sofrimento que (outros) homens causaram às mulheres, eu estou tendo uma atitude nada empática e de forma alguma contribuo com a mudança do mundo. Contribuo pra criar um traumatizado que sente que não tem apoio em lugar nenhum. E isso pode gerar ódio nele, num ciclo sem fim…

Se existe um objetivo ao qual eu, enquanto mulher, feminista, vegetariana, esquerdista etc quero chegar, ele é o fim da opressão contra toda e qualquer categoria, seja ela a minoria ou a maioria, seja ela a classe do opressor ou a classe do oprimido. Acredito profundamente que homens e mulheres merecem o mesmo tratamento em todos os âmbitos e sonho com o fim da opressão dos papeis de gênero homens e mulheres cis e trans. É claro que os mascus que infernizam a vida das feministas estão completamente errados e merecem punição por isso. Mas a maioria das pessoas que repete discursos só o faz porque estes discursos estão enraizados nas suas próprias crenças e nunca refletiram sobre isso. Neste sentido, outras vertentes do feminismo (radical ou não) procuram, sem ódio contra categorias ou indivíduos, promover o debate. Acredito que, por meio da argumentação e da nossa própria prática, podemos mudar as atitudes dos outros sem violência.

E principalmente não gosto da ideia do oprimido querer se tornar opressor.

Para saber mais:

Misandria: tática de militância e proteção psicológica

Misoginia x Misandria

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