A solidão de se viver o que acredita


(Foto: Malu Green. http://tinyurl.com/pa8kpw9.)

Eu fui criada numa fé católica. Mais especificamente, numa vertente franciscana, que leva em consideração alguns pilares bem conhecidos (como humildade, pobreza, respeito pela natureza, atenção e cuidado com os outros, entre outras coisas que o Papa legal tá levando ao conhecimento de todo mundo). Uma das mais famosas orações de São Francisco, que eu ouvia desde que estava dentro da minha mãe, diz coisas como “onde houver tristeza, que eu leve a alegria”, “onde houver desamor, que eu leve amor”, “que eu procure menos ser amado do que amar”... É tudo muito bonito, mesmo, e tudo foi sendo enfiado dentro da minha cabeça de uma forma bastante coerente, e isso sempre me convenceu. Que EU faça as coisas. É uma oração que não pede nada pros outros.

Ser desse jeito me levou a adotar várias práticas, desde o começo da minha vida adulta, que foram massivamente mal interpretadas, criticadas e condenadas pelas pessoas. Quando eu me tornei vegetariana, muitas pessoas falavam bobeiras pra mim e iam comigo no restaurante pra ficar com a minha porção de carne. Eu me sentia mal por pegar a carne (pois o consumo não ia estar sendo reduzido), mas era rapidamente convencida de que a pessoa precisava comer duas porções de carne e que minha participação na produção de carne do mundo, com um bife a menos, não ia fazer diferença.

Além disso, quando eu comecei a ir pra faculdade, eu não tinha dinheiro. Tinha duas (no máximo 3) calças, um tênis, uma jaqueta. Todo inverno, eu precisava comprar duas calças novas e uma jaqueta nova. Uma vez ganhei uma bota que tinha lã por dentro, então passei a ter também uma bota que era trocada a cada ano. Eu não fazia isso por franciscanice da minha parte, eu só não tinha dinheiro (mesmo!). Isso me levou a não querer nunca avaliar uma pessoa pela roupa que ela usava, não achava que era um critério justo. Mas eu fui medida e avaliada e criticada pelas roupas que eu usava. Ouvi que eu parecia uma “vileira que morava na região metropolitana” e que minhas roupas pareciam “baratas” e que eu não ia nunca chamar a atenção de ninguém me vestindo daquele jeito.

“Procurar menos ser consolado que consolar, ser compreendido que compreender, ser amado do que amar.”


Quando as pessoas me falavam que meu bife a menos não fazia diferença, que eu não ia chamar a atenção das pessoas pela forma como me vestia, eu passei a entender que estava errada: ora, se tanta gente me falava aquilo, eu precisaria compreender. Eu deveria ser humilde e aceitar as críticas. Como eu não fazia nada pelo mal de ninguém, não imaginei que ninguém ia falar aquilo para o meu mal também. Compreender mais do que ser compreendido me levou a acreditar que eu estava sempre errada.

Eu amei algumas pessoas que fizeram mal pra mim… Amei mais do que era amada. Pelo menos, do que fisicamente ou emocionalmente eu sentia como “ser amada”. Claro que não todos: uma minoria. Mas, com esses, ainda que não conscientemente, eu sentia que tinha que dar tudo o que eu podia, que eu deveria dar mais uma chance, que eu deveria ver o lado bom, que eu deveria colocar a pessoa num lugar mais alto que o meu, numa espécie de crença que chamo de “deixa que eu lido com o problema porque eu consigo lidar, não carregue o peso”. O sentimento que eu tenho agora é o mesmo de ser vegetariana no meio dos que comiam carne: ninguém me entende. Ninguém consegue olhar pra mim e achar que eu estou fazendo a coisa certa. Eu sinto que eu tenho que explicar pra todo mundo o tempo inteiro por que eu dou chance, por que eu não acho que estou fazendo papel de trouxa, por que eu tenho paciência e tantas e tantas outras coisas. Nunca consigo.

Eu acredito que estou fazendo a coisa certa — e, juro, nem me passa pela cabeça moralismo cristão nesse momento — porque eu me coloco no lugar da outra pessoa. Eu tento ver como eu me sentiria se fosse eu quem tivesse cometido um erro, como eu ia precisar de mil chances pra fazer as coisas direito (até porque eu já precisei! Muitas das pessoas que estão na minha vida já me deram milhares de novas chances.). A única forma que eu tenho de agradecer a elas por terem feito isso por mim é fazendo isso pelos outros.

Colocando desse jeito até parece bonito e poético, mas a realidade é desgraçada. Meus amigos já enjoaram das histórias com pessoas que me fazem sofrer; ninguém aguenta mais me ouvir chorar por essa ou aquela pessoa, já cansei de ouvir que “as pessoas só gostam de mim porque eu faço papel de trouxa” ou que eu sou “boazinha demais” (em tom elogioso ou de crítica) ou que “me coloco como capacho” pros outros. Eu (lógico!) entendo o lado deles e tento compreender que as pessoas não pensam como eu, e que não são obrigadas a pensar. Mas no final fica um gosto meio amargo de solidão, de esforço quixotesco pra combater moinhos de vento, de um bife a menos no prato que não vai mudar nada no grande panorama das coisas. E de que talvez eu devesse procurar compreender mais do que ser compreendida.