Manxete: A partir de oje, tudo mudou

Com a colaboração de Lara Frutos.

(Originalmente publicado no portal Causas Perdidas.)

Como se não bastasem as mudansas ortográficas implantadas na língua portugeza desde 2012, á um projeto no Senado que pretende implementar novas alterasões na nosa forma de escrita. Segundo o site do Senado, a ideia é qe a língua fiqe mais clara e asesível a todos, por meio de algumas alterasões qe, na opinião dos senadores, fasilitariam tanto a compreensão quanto a escrita do noso idioma. Estas alterasões valeriam pra o Brazil e outros sete paízes, incluzive Portugal.

No site Simplificando a Ortografia, á um abaixo asinado para qem se concorda com a “racionalizasão e simplificasão da ortografia” (escrito na antiga ortografia, é claro). De acordo com o grupo de estudos, o objetivo é democratizar a língua para promover a incluzão social. Não á ainda um projeto pronto, mas algumas alterasões são sugeridas (e estamos acatando todas neste testo). Uma das frazes que podemos encontrar no site, de autoria de um dos cabesas do movimento, Ernani Pimentel, é a seginte: “A simplificasão ortográfica é a porta para a eliminasão do analfabetismo”.

No site, as pesoas têm espaso para fazer suas sugestões para a reforma: todas as sugestões são respondidas pelos “espesialistas”. Com baze num critério que prezaria, segundo os responsáveis pelas respostas, por uma “lógica na escrita” e por uma “reprezentasão fonética mais adequada”, as sugestões variam de abolir todos os asentos, crazes, unificar sons de [s] grafados com x, c, xc, xs, ss na grafia de “s” e coisas do tipo. Uma das sugestões é para qe os sons de [k], grafados com “q” ou “c” sejam unificados para a grafia com “k”. Asim mesmo, keridinha.

Evidentemente, esta desizão partiu dos legisladores e não conta com respaldo nenhum de espesialistas no asunto, da mesma forma qe ocoreu qando Aldo Rebelo qis proibir os estrangeirismos, projeto de lei lá de 2001, mas que acabou sendo abandonado pela óbvia inviabilidade de se legislar sobre o contato linguístico. Naqela ocazião, linguistas se levantaram para discutir a qestão e o projeto de lei não pasou. Mesmo assim, a cada vez que uma nova proposta surge com o objetivo de mudar o qe qer qe seja sobre a língua, espesialistas não são nunca convocados, sendo substituídos por profesores de portugês, jornalistas ou gramáticos, qe costumam sempre olhar para a língua num viés normativo: ou seja, querem dizer como ela deveria ser, nunca prestando atensão na forma como ela é realmente. É um proceso de negasão da realidade que xega a dar pena.

Os erros de ortografia costumam chamar muito a atenção. E muitas são as soluções discutidas para que os alunos aprendam a ortografia e não cometam esses deslizes. Uma das principais causas apontadas é a dificuldade em memorizar certas regras ou mesmo idiossincrasias ortográficas do Português Brasileiro. No entanto, pasmem vocês, o português já possui uma escrita bem mais fiel à sua ortografia em termos fonéticos do que línguas como inglês e o francês. Tanto nos países de língua inglesa quanto de língua francesa, adota-se uma política de manter a ortografia como forma de registro histórico da língua. Um exemplo disto é a palavra ‘knight (pronuncia-se [nait]), do inglês, que quer dizer ‘cavaleiro’. A pronúncia da palavra era mais “parecida” com sua representação ortográfica, tendo sido pronunciada [cnirrit], em que o h representa o som glotal que no Português Brasileiro grafamos com [rr]. O mesmo vale para a diferença de pronúncia e escrita das formas plurais no francês. Escreve-se les choses ‘as coisas’’, no entanto o ‘s’ final não é pronunciado, restando na língua escrita apenas como uma marca de plural que fez parte da língua no passado.

Não se trata aqui de mero purismo, uma vez que o que colocamos em questão não é apenas a manutenção de aspectos histórico-filológicos da grafia das palavras por mera questão cívica ou mesmo afetiva — há quem sinta uma relação de afeto com a atual grafia das palavras. O que queremos apontar neste texto é que, uma vez que a causa dos erros ortográficos não pode ser reduzida ao quão fonético é o sistema ortográfico, não decorre dessa mudança que as pessoas terão necessariamente mais facilidade com a ortografia. Caso assim fosse, estudos deveriam demonstrar que em línguas cuja ortografia guarda menos semelhanças com seu sistema fonético-fonológico (caso do Inglês ou mesmo do Português Europeu), as pessoas têm mais dificuldade de grafar corretamente as palavras. Nesse sentido, a solução proposta pela Comissão do Senado resulta inútil, uma que vez que não ataca a raiz do problema: um sistema educacional em que o processo de alfabetização é precário.

Outra questão que emerge dessa discussão é justamente o fato de que gramáticos esperam que a língua tenha uma “lógica interna”, como se a língua pudesse ser catalogada matematicamente e padronizada para todo mundo — inclusive, falantes de português de outros países. O fato é que há, sim, lógica interna na língua: mas só podemos encontrá-la quando olhamos para ela sem preconceitos e sem anseios padronizadores. Dizer para a língua como ela deve ser não funciona efetivamente, porque a língua é dinâmica, mutável, variável. Se assim não fosse, estaríamos usando a mesma língua primitiva dos homens das cavernas até hoje. Além disso, cabe ressaltar que língua falada é uma coisa, língua escrita é outra: não se mexe na “lógica” da língua quando se mexe nas convenções utilizadas para grafá-la. É bastante óbvio: quando se mudam as convenções, as convenções é que são mudadas. Nada além disso.

Deve-se ainda atentar para a audácia da proposta. Foram muitos anos de acordos e tentativas de padronização para que a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa pudesse chegasse a um consenso a respeito de quais alterações seriam aceitas no Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que tem movimentado o mercado editorial desde que entrou em vigor. E essas padronizações em nada tinham que ver com uma grafia mais fonética da língua. Temos hoje, mesmo dentro do Brasil, diferentes formas de pronunciar uma mesma palavra. Optar uma grafia mais fonética implicaria, nesse sentido, em usar a grafia para privilegiar uma determinada pronúncia, o que poderia facilitar — se esta fosse realmente a questão — o aprendizado da ortografia para um determinado grupo, mas a complicaria para grupos que possuem uma pronúncia diferente. Se pensando no Brasil, teríamos que decidir entre grafar o som de ‘s’ em final de sílaba, como em ‘sexta’ ou ‘gosta’ como ‘s’ ou como ‘x’, se pensarmos nas muitas variações internacionais, a tentativa de uniformização de acordo com a fonética parece ser mesmo impossível. Ainda assim, esse tipo de preocupação fonética não se vê discutida nas pautas reformistas.

Há diversos argumentos favoráveis e contrários a qualquer reforma ortográfica, mas a principal questão é que a validade desses argumentos pode — e deve — ser questionada, uma vez que a maior parte deles é dada no nível do “achismo” e são opiniões que não deveriam ser levadas em conta num debate de verdade. Enquanto as pessoas continuarem confundindo língua escrita com língua falada, achando que mudanças na convenção são capazes de efetuar mudanças na forma como as pessoas falam ou são alfabetizadas, não tem como levar esse tipo de discussão a sério.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.