Botando nome na cara do caos

Marina Matos
Aug 28, 2017 · 6 min read

No princípio era o caos.
Muito choro, muito medo,
desalinho.
Olhos assustados sem saber por onde ir.
Um tornado atravessando todo o espaço.
Nuvem encobrindo a visão.
Que, por ainda estar aprendendo a enxergar, não entendeu.
Turvou.
Dobrou de tamanho tudo que via.
Pegou para si tudo que vinha.
Bagunçou.
Deixou tudo assim à mostra, espalhado pelo chão.
Com isso fez-se o verbo
O primeiro movimento
Foi o começo do mundo
E ainda não acabou
.

E é claro que estou falando da minha vida. Escrevi essas palavras acima quase num fôlego só, pensando na minha infância, no começo desse mundo que eu chamo de vida. Era uma infinidade de sentimentos que eu não sabia nem nomear, que dirá conviver pacificamente. Talvez eu tenha começado esse texto de um jeito diferente porque o assunto tem um tamanho considerável na minha trajetória, e quero muito falar disso. Na verdade, comecei essa história de escrever sobre autocuidado por causa disso. Comecei a me cuidar por causa disso. É uma linha narrativa bem presente na minha caminhada. E eu quero contar desde o início.

Com 2 anos eu fui pra escola pela primeira vez. Eu chorava muito, minha mãe pensou que seria uma boa ideia me colocar na escolinha, já que havíamos acabado de nos mudar e não conhecíamos ninguém no bairro. Se eu chorava muito antes, depois ficou pior. Ou pelo menos não melhorou. Eu tinha pavor de ficar naquele ambiente longe de qualquer pessoa conhecida. Pânico. Chorava muito, muito, muito. Me escondia embaixo do meu cobertozinho azul velho de guerra que nunca podia ser lavado porque eu não deixava. Ficava encolhida num canto. Ficava numa outra sala, sozinha, ao lado da sala dos outros colegas. Sim, eu me lembro. Eu não sabia socializar. Ainda tenho os cadernos de recado dessa época e sei que cada dia que eu dava um passo, por menor que fosse, em direção a alguma interação era comemorado por meus pais e por tia Zeli, a dona da escola que eu ainda amo como alguém da família. Nossas famílias se tornaram amigas e ainda hoje temos contato e muito sentimento envolvido. Sei que foi assim por um tempo, que pra mim durou um tempo infinito, depois passei a gostar e no fim, aos 6, já participava de mais coisas sem ter febre emocional. Uma grande vitória.

Eu não sabia, mas aquilo já era meu primeiro histórico de fobia social.

Com 7 anos, na primeira série, eu já estava bem ótima e segui por todo ensino fundamental sendo uma aluna aplicada e participando de tudo que inventassem na escola. Mesmo assim, mesmo me expondo por fazer várias apresentações, existia um limite claro que eu não ultrapassava. Não falava em sala de aula, não fazia bagunça. Ali começou o famigerado apelido de cdf, mas era pânico mesmo. Porque mesmo quando eu, supostamente, estava interagindo, ainda era dentro de alguma zona de segurança. E assim foi até o ensino médio. Riscos calculados formando uma vida aparentemente normal. Tinha uma cobrança surreal por perfeição. Por não errar. Era pesado ser daquele jeito, talvez você possa imaginar.

Dois meses depois de completar 16 anos tive uma crise de pânico. Ainda me lembro bem. Era fim de domingo e eu não quis sair de casa. Comecei a chorar dentro do quarto e dali em diante não parei mais. Fiquei deitada encolhida por bastante tempo, até meus pais chegarem da missa e me acharem daquele jeito. Só saí de casa uma semana depois. Fui ao psiquiatra, tomei remédio pra dormir. Obviamente, meu rendimento escolar caiu vertiginosamente, mas isso nem era o mais importante. Eu tinha voltado a ter 2 anos de idade e precisava aprender a lidar com aquilo.

Todas as memórias que eu guardei ainda estavam nítidas, só que eu não conseguia falar. Havia um abismo entre o meu mundo interior e a vida real, lá fora. Não fiz terapia nessa época, apesar de ter tentado com diferentes profissionais e ter sido levada ao pronto socorro de uma psiquiatria numa das crises seguintes. Eu tentava falar mas o que saía da minha boca não chegava nem perto de tudo que havia aqui dentro. Era tanta coisa que não sabia por onde começar. E quando eles perguntavam, não sentia que minhas respostas eram satisfatórias. Travava. Chorava. O caos, como devem imaginar.

Não sei dizer com precisão quando foi que comecei a me organizar. Sei que voltei a escrever, a fazer uma coisa por vez. Caiu a ficha que minha história era importante, não adiantava fingir que ela não influenciava meu presente. Comecei a entender que eu precisava cuidar de mim. Se eu sentia que as pessoas não entendiam a intensidade do que tinha, ou de onde vinha, eu mesma faria isso por mim. Aquelas memórias não ficaram guardadas à toa. E foi só então, com uns 17 anos, que eu consegui nomear um sentimento pra mim mesma, pela primeira vez. O alívio foi grande, não posso mentir. Quinze anos de espera, mas não foi em vão.
E me confundi muito no começo também, não foi só maravilha; chorava tudo de novo, revivia, queria culpar pessoas, tampar o buraco. Demorou mais alguns pares de anos para que eu entendesse que não havia jeito de preencher nada, a minha história era como era. Não dava pra dar um jeitinho, uma gambiarra, voltar lá no começo e alterar meu ponto de visão. Só me restava partir de onde estava e ir arrumando o espaço aos trancos e barrancos.

O que quer dizer que estou nessa de autoconhecimento há mais de dez anos. Sozinha, sem contar pra ninguém o que estava fazendo. Já tive umas catarses em tardes normais lendo blogs de maternidade, já escrevei inúmeras vezes coisas que ninguém vai ler, fiz planos, tive vontades. Aos poucos conversava com o parça e abrir alguns horizontes, mas o trabalho pesado era todo interno mesmo.

Foi só no ano passado que comecei a escrever publicamente o que eu aprendi nas minhas buscas, nas minhas tentativas de me colocar no colo e dar nome para monstros horríveis que assombravam o meu sono.

Esse ano comecei a fazer terapia e finalmente descobri que, sim, eu tenho mesmo Transtorno de Ansiedade. Transtorno esse que me faz ter essa fobia, que hoje é muito mais controlada, apesar de ainda me dar uns brancos em algumas conversas e ficar tremendo quando vou conhecer alguém novo. Transtorno esse que ainda me traz umas crises de madrugada, já me deu mãos suadas, muita dor de estômago, tontura, insônia, dor de cabeça, incapacidade de permanecer num trabalho em local fechado, taquicardia, fobia de sangue (pois é), alteração na visão (sim), impulsividade.

E é por isso que eu cuido de mim. Para lidar melhor com essa bagagem. Para entender quem eu sou, para além desses rótulos todos. Para deixar que eles voem pra longe. E também para aprender a conviver com a minha história, a me perdoar, perdoar os meus. Não é uma tarefa fácil, tem dias que parece que tenho que começar tudo de novo. Até eu me lembrar que tudo bem, é assim mesmo. É um processo constante, não preciso desistir. Já aprendi muita coisa, agora escrevendo conheço várias pessoas que passam por coisas semelhantes. Nada é em vão, no fim das contas. Nem as crises. A maior dificuldade, que era conseguir sair delas, vem diminuindo a medida que me cuido, e isso já é um grande passo também.

Ufa, não sei. Não sei se consegui passar o que tenho, mas é assim que estou conseguindo hoje. Mas é só a primeira vez, né. Alguma hora vou conseguir escrever sobre isso sem sentir um aperto no peito. Até lá, um dia de cada vez. Tudo é caminho e está tudo bem em ser quem somos.

)

    Marina Matos

    Escritora, mãe, parceira. Uma pessoa que acredita. Autora da página @paracuidardemim, aqui registro o autocuidado de dentro pra fora.

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