Sobre começar sem esperar o momento ideal

Aos 8 anos eu queria ser escritora. Pegava folhas de sulfite, dobrava ao meio, fazia o texto, os desenhos, a capa, tudo. Minha mãe ainda tem um desses guardado em alguma gaveta por aí. Não é exagero dizer que, enquanto algumas coisas aconteciam eu pensava em como escrever a cena, porque já sabia que queria colocar no papel — isso ainda na infância. Muitos anos se passaram e a vontade ainda estava aqui. Eu sabia onde ela estava, sentia o seu olhar em cima de mim, com aquele ar meio reprovador meio indignado, perguntando o motivo de eu não começar a levar essa certeza adiante, afinal de contas.

Eu estava esperando o momento certo. Talvez um diploma da faculdade, uma determinada idade, ou quem sabe o ano em que as coisas finalmente estariam arrumadas na minha vida. Contas pagas, conta bancária no azul, filha na escola, casa de campo, viagens, carro, bicicleta. Eu sei lá o que eu tinha na cabeça, mas sei que nunca achava que onde eu estava era um bom lugar para começar. Sempre precisava de mais, de algo assim muito abstrato e intangível. E sem saber dar nome pra tal da coisa ficava realmente difícil conseguir.

Segui escrevendo todos os tipos de textos que se possa imaginar, desde agendas até crônicas e contos. Só que não levava muito a sério, era apenas uma forma de expressão. O livro, a vida de escritora, viria lá na frente, depois de conquistar outras coisas. Aqui eu identifico a Síndrome da Impostora, com certeza. Aquela coisa de nunca achar que somos suficientemente boas para algo. Que não podemos fazer ainda. Que irão nos julgar. Imagina, quem sou eu para querer ser escritora.

Acontece que era tarde demais. Até podia existir essa vozinha irritante aqui no meu ouvido, mas a vontade, ah a vontade, essa tinha muito mais força, porque ela foi plantada muito antes de eu saber o que eram padrões ou limites ou regras sociais. Eu só precisava entender que podia ir mesmo com os medos todos que surgissem. Era como se, quando eu fosse escrever o livro, por já “ter” todas aquelas conquistas ilusórias o medo não existisse mais, porque eu seria uma mulher madura e muito segura. Lá no horizonte, essa utopia bonita que nos faz caminhar, só existiria boas decisões e dias azuis. Me enganei lindamente, porque não só os medos existem como podem ser bem maiores. E se eu fosse esperar estar tudo perfeito, não daria pra fazer nada nunca.

É perigoso colocar a nossa felicidade e aquilo que a gente mais quer fazer lá no futuro, numa projeção idealizada. Não porque eu ache que devemos sair fazendo tudo que der na telha de forma descompensada por aí afora, mas é sempre bom lembrar que o futuro não existe. A não ser que você comece hoje com o primeiro passo, que você construa o seu caminho a partir de onde está, não vai existir futuro. Sempre será o tempo presente. E se não prestarmos atenção, vai passar 1 ano, 5 anos, 20 anos e ainda estaremos esperando aquela coisa mágica que, estranhamente, não está chegando.

Eu não tinha isso assim tão claro até decidir que iria escrever um livro. Ele ia ser feito e depois eu pensaria no que no que fazer, pra onde mandar, onde publicar aquele manuscrito. Comecei a organizar algumas memórias, colocar na tela em branco o que eu sempre acreditei que seria o meu primeiro trabalho sério. Todos os dias sentava, abria o arquivo e escrevia escrevia escrevia. Até que foi me dando o tal do “bloqueio criativo” e nada saía da cabeça. Um dia comecei a escrever outra coisa. Uma lembrança solta no meio de todas as outras. Aquilo foi crescendo, aumentando o número de palavras, e eu fui gostando do sentimento, da história, daquela pessoa. Quando percebi, estava escrevendo ficção. Não era eu ali, apesar de termos algumas semelhanças, se é que me entendem. Mas são traços, apenas, detalhes. No meio do processo, descobri que tinha uma editora nova que estava aceitando originais até dali pouco mais de um mês. E foi aí que eu decidi terminar no prazo para enviar o meu também. Assim mesmo, num fôlego só. Veja bem, o livro nasceu como exercício de escrita. Foi depois que decidi começar a escrever, e escrever muito — quase o mesmo número de palavras que tem o livro final — e só então recomeçar do zero, outra coisa totalmente diferente, foi que eu entendi o caminho. Que eu enxerguei o rumo. Quando eu tomei a decisão não fazia ideia do destino, mas quis ir mesmo assim.

Não estou contando isso pra dizer que “se eu consegui você também consegue”, porque julgar as escolhas do outro a partir da minha experiência não é empatia, é projeção. Só quis falar como foi que eu entendi. Eu tinha 26 anos, uma filha de 1 ano e meio, nenhum dinheiro no banco, muitas contas pra pagar, dívidas, dúvidas, medos, zero diplomas, crises, sem contar as outras demandas da vida adulta. Definitivamente, não era o momento ideal. Mas chegou o cansaço, sabe? Desde os 8 até os 26 anos passou tempo suficiente pra eu deixar pra depois. Não rolava colocar tudo nas mãos do futuro. Já era ele, né? Eu era adulta, casada, mãe, morava no meu apartamento (alugado). O que mais eu estava esperando? Costumo dizer que foi pura sorte — um milagre! — eu ter escrito esse livro em um mês, ter tido coragem de mandar pra editora e, oito meses depois, descobrir que ele tinha sido aprovado e ia ser publicado no ano seguinte (este ano! Mês que vem!). Mas a verdade é que eu só encontrei a sorte quando comecei, a muitos quilômetros adiante, depois de várias curvas. E mesmo com ela ainda segui escrevendo madrugada adentro, editando, modificando, respirando, comendo e sendo o livro por todos aqueles dias. Foi cansativo e maravilhoso.

E pode até ser que fique bonitinho escrito tudo assim, uma palavra depois da outra, com vários cortes de anos entre as cenas. Mas se fosse pra contar tim-tim por tim-tim já seria um livro inteiro, não é mesmo? (quem sabe ele saia qualquer dia desses). Eu não quero dizer que é fácil. Só quero te lembrar de ir assim mesmo. De começar exatamente do ponto onde está agora. Comece. Não vai dar pra saber a menos que tente.

Tudo é caminho.

Não é o tempo que nos traz o que queremos, como se fosse um Ser Especial. Nós é que usamos o tempo para chegar lá, seja o seu “lá” onde for. Com ajuda, auxílio, reforço e amparo, com certeza, seja das pessoas ao seu redor ou de mentores espirituais (se você acreditar) — ou ambos, que é como eu sinto. Temos companhia por toda a jornada, mas os passos são por conta de cada um. Isso é vida em seu plenitude. E só nos resta ir.