Desemprego e felicidade: é possível isso?

Imagine a seguinte situação: você tem 23 anos. Há um ano saiu da casa da sua família e alugou um apê antigo com pessoas queridas num bairro descolado do centro de São Paulo. Começou a pagar as próprias contas e até adotou um gatinho encontrado na rua — que foi batizado de Pedro Augusta, maravilhoso nome não-binário. Nos últimos dois anos você dedicou seus dias, algumas noites e até alguns fins de semana para um emprego promissor numa multinacional, com recorrentes happy hours pagos pela empresa com gringos das mais variadas nacionalidades. Há três meses você recebeu uma promoção, já era “pleno” na CPTS, enquanto seus amigos ainda estavam fazendo estágio. Você já deveria estar terminando a faculdade — é verdade — mas fazia muito sentido atrasar o diploma em um ano e se dedicar a uma empresa que em dois ou três anos te levaria para morar fora e você finalmente seria um dos gringos que frequenta happy hours de graça ao redor do mundo. Ufa! Para quem tem 23 anos, tudo certo, né?

Até o dia em que você volta do almoço e seu chefe te chama para uma salinha.

Chefe do chefe.
Moça do RH.
Cartinha de demissão em cima da mesa.
No meio de uma crise político-econômica.

E agora?

Fiquei três meses e meio desempregada. Duas semanas foram o bastante para entender que, contrariando minhas “verdades absolutas”, eu não estava feliz no tal emprego dito tão “promissor”. Saúde fodida, hábitos destrutivos, nenhum propósito. A ideia de um futuro tão maravilhoso fez com que eu esquecesse completamente do presente. E o pior de tudo: eu não me reconhecia mais.

As próximas semanas foram um período necessário de crise existencial. Quem eu tinha me tornado? Porque isso tinha acontecido? Quais as coisas que eu amava fazer e não fazia mais? Como eu poderia cuidar da minha saúde? Como eu poderia não desabar estando desempregada (demitida!) bem no meio dessa patifaria acontecendo no Brasil? Como é que eu ia fazer para arranjar um emprego?

Eu não sabia quem eu tinha me tornado, não entendia bem porque isso tinha acontecido. Mas eu tinha certeza de uma coisa: se eu quisesse voltar a trabalhar (e ser minimamente feliz) eu tinha que voltar a acreditar em mim. E para voltar a acreditar em mim, o primeiro passo era gostar de quem eu sou.

Gastei boa parte da grana da rescisão em roupa de academia, materiais para desenho, coisas que eu queria há bastante tempo mas nunca sobrava dinheiro no fim do mês. Gastei boa parte do tempo livre dormindo. Além disso voltei a fazer TUDO que meu eu adolescente amava e umas coisinhas que meu eu adulto aprendeu a amar.

Tentei ir à academia, cozinhar, assistir séries e filmes, sair pros lugares que me faziam bem. Voltei a desenhar — fui chamada pra desenhar uma embalagem de café. Voltei a ler — li três livros em um mês (em 2015 não lembro de ter lido nenhum livro inteiro). Voltei a ser quem eu gostava de ser — arranjei um emprego na empresa que eu queria.

Escrevo esse texto após a primeira semana (que se anunciava traumática) de volta ao trabalho! Resultado: eu feliz, segura, acordando tranquila para ir trabalhar, decidida a nunca nunca nunca mais na vida me tornar uma pessoa que eu não conheço.

Muitíssimo obrigada! Oh, temido desemprego.