O bem, o mal e o azul

[em conversa com o Ronny, que escreveu a sua versão aqui: https://medium.com/@ronnyfc/ser-bom-ta-na-moda-e-todo-mundo-quer-bf0323c11c6c#.st137auom ]

A conversa começou por causa de um post irônico no facebook que ganhou vários comentários de aprovação e uma única condenação. Era de alguém que apontava sua ironia como um julgamento. Essa inquietação sobre a diferença de valor entre um julgamento “bom” (elogio) e um julgamento “ruim” (crítica) já tinha rondado conversas anteriores, sem muito sucesso de se tornar o foco principal. Dessa vez, ela nos ganhou e empacamos nessa dicotomia.

Mas primeiro era preciso investigar o porquê do uso de ironia no tal post e qual era o real conteúdo escondido por trás de um humor levemente ofensivo e potencialmente desrespeitoso. Para nossa surpresa, a verdade interna escondida era um pedido de ajuda — a essas mesmas pessoas ironizadas no post. Um pedido de ajuda que, se tivesse ficado mais claro, teria chamado ainda mais atenção na sua rede de amigos, teria aproximado algumas relações, teria tido um resultado prático, talvez até impactado a vidas das pessoas envolvidas.

Foi uma conclusão bonita e importante: a verdade interna é de alguma forma “maior” e buscar a linguagem que expresse essa verdade com clareza tem feito muito mais sentido do que a saída fácil e superficial. Digo fácil porque reconhecemos, ambos, o trabalho que dá investigar o profundo e comunicá-lo. E quando essa verdade finalmente aparece, é permitido que ela esteja triste, magoada, desiludida, sem que o outro se sinta criticado por isso. Ambos passam a cuidar das verdades um do outro como passarinhos feridos. Para efeitos de entendimento, chamamos essa verdade maior de “azul”.

Então, e o bem e o mal? “Se eu disser que uma pessoa é inteligente, é bem visto. Se eu disser que uma pessoa é burra não é bem visto. Tem alguma coisa estranha aí. O juízo de valor é o mesmo. E não existe um, sem o outro.” Essa era a sua tese. Da minha parte, a sensação era outra. Matematicamente, tanto o elogio quanto a crítica, se desvinculadas dessa verdade interna profunda, são farsas. Enaltecem ou enfraquecem o ego do outro, mas falham em expressar com detalhes o que se sentiu, viu, viveu. Então porque o julgamento bom é aceito, acolhido, bem-vindo e a crítica de dedo em riste é um pecado?

Se você diz que alguém é inteligente, você está perpetuando a noção de que existe alguém que não é. Se fôssemos todos inteligentes, essa palavra talvez nem existiria. Se nos fosse permitido simplesmente ser, talvez nem teríamos adjetivos — seríamos todos só seres humanos, e usaríamos outras palavras para comunicar as tais verdades internas profundas. Sem dicotomia, sem competição. Que mundo lindo seria. Azul.

Mas não é. E taí a chave da nossa discordância. A desigualdade no mundo é inegável. Os privilégios de uns sobre tantos outros pesam na nossa visão de mundo, nossa educação, nossa comunicação. O ego, coitado, sofre muito mais bullying do que é ovacionado.

Eu vejo assim: Se a humanidade fosse um videogame, nasceríamos todos zerados e a cada crítica ou elogio, a cada julgamento externo, ganharíamos ou perderíamos pontos-egóicos. E então os budistas saltariam de alegria com a facilidade que seria percorrer o caminho do meio e se abster de julgar o mundo ao redor, tanto positiva quanto negativamente. A minha realidade é que a esmagadora maioria de nós, simplesmente por termos nascido mulheres, negros, pobres, deficientes, esquisitos, árabes, gays, etc etc etc etc não nascemos no zero. Nascemos no -94. Para piorar, ao longo de toda a vida perdemos muitos mais pontos-egóicos do que ganhamos, muitos muitos mais.

Minha tese não é uma justificativa, mas uma possível explicação. Quer usar um humor irônico cuja interpretação possa ser ofensiva? Sê livre. Mas perceba que a chance é grande de você acertar num ego já pobre de espírito, tão pouco valorizado pelas pessoas ao seu redor que já não reconhece mais a si mesmo. Vejo dois resultados possíveis: essa pessoa irá acreditar em você e perderá mais pontos-egóicos, se afastando e se desconectando da sua própria humanidade; ou se ofenderá, entrará em competição contigo e ambos se afastarão ainda mais das suas belas verdades internas.