Qual é a sua página 2?

Se eu grito contigo na cozinha e bato a porta do quarto, somos parceiros?

Se juntamos nosso bolinho de dinheiro todo mês, mas cada um ainda contabiliza qual pedaço vem de qual bolso original, somos parceiros?

Se sei o que posso fazer pra te facilitar a vida, mas às vezes prefiro ficar no sofá, somos parceiros?

Se compartilhamos a cama e os filhos, mas não os medos, somos parceiros?

Se meu CNPJ é o seu CNPJ, mas todo dia as 18h eu checo seu trabalho em escondido pra aumentar minha confiança em ti, somos parceiros?

Se rimos ao telefone lembrando das nossas porradas e puxões de cabelo, mas nosso último abraço foi no último enterro, somos parceiros?

Se me recebes toda noite alegre e amável como ninguém, mas prefiro coletar teu jornal na cozinha a te levar para brincar, somos parceiros?

Se me ajudas a conquistar meus podres poderes, mas vou dormir com medo da tua delação premiada, somos parceiros?

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Ai, gente, desculpa, eu sei. Discurso derrotista não é a minha cara. Muito menos pessimista, poliana que sou. Talvez esteja sensível. Esses dias to desenvolvendo uma lente especial que mostra minhas incoerências internas, verde brilhante num fundo todo cinza. Não visitei meus pais aquele dia porque não queria responder aquelas perguntas: verde. Não olhei nos olhos do moço da esquina e ainda disse que não tinha nada: verde brilhante no meio da rua. Até hoje não sei o nome do porteiro novo: verde. Fiquei aquele tempão todo zangada com ela e ninguém sabia de nada: verde. Cismo que acredito na abundância da rede mas não dou um passo pro lado sem antes olhar o valor restante na poupança: verde verde verde.

Fiquei me perguntando sobre esse lance de parceria. Será que cada um de nós tem um limite diferente? Somos parceiros sim, até a página 2. Qual é a minha página 2? Será que realmente acredito que esse ou aquele outro amigo realmente estarão lá pra mim, sem nem eu pedir? Ou precisa ter que pedir? Já sei, vai depender do assunto. Se for vida, posso contar. Mas se for morte, aí vai depender…

Ok, encontrei alguém como eu. Renovo as esperanças. Vamos juntos, conversando, acordando, dividindo. Mas e quando você mudar de ideia, decidir mudar teu prumo? Direito seu, faz parte, vai com tudo, sua felicidade é a minha felicidade. Mas vou mesmo continuar o sonho sem ti? Não guardarei na geladeira meus ressentimentos, pra depois te oferecer um prato só meio descongelado, sem gosto e emborrachado de abóbora-magoada? Nem desconfio, eu sei que vou. Verde. Brilhante. E cheio de sal pra disfarçar.

Chego aqui e resisto à tentação de mudar o tom. Sufoco a minha garotinha sempre contente que já não aguenta mais esse papo descrente. Lá está ela segurando uma placa de Nem tudo está perdido. Verde. Sou forte, me agarro às minhas contradições, preciso ficar aqui. Me imagino pendurada nelas como um morcego. Faço ninho, me aconchego e ligo a luz. Quero olhar pra elas, expô-las, dissecá-las, entendê-las, perdoá-las, enterrá-las e observá-las até que renasçam, novas. Minhas lindas hipocrisias. Minha querida página 2.