Muito além dos carros

Comunicação é uma das prioridades da montadora Renault que tem morada em São José dos Pinhais e projetos envolvendo a comunidade local

A entrevista está marcada para 12h15, mas uma hora antes do combinado Caique Ferreira, diretor de comunicação da Renault Brasil e vice-presidente do Instituto Renault recebe a equipe da Dimensão em sua sala. O espaço, cercado de paredes de vidro e com visão para as mesas do setor, dá pistas sobre como funciona o departamento na montadora. Comunicação é prioridade.

Engenheiro Mecânico por formação foi na área de humanas que Ferreira fez morada. O mineiro radicado em Curitiba há quatro anos, assumiu a posição à convite da Renault. Anteriormente, havia passado por outra montadora em Minas Gerais e acumulava dois anos de experiência na Itália. Sobre ser um engenheiro à frente do setor de comunicação Ferreira explica. “Eles precisavam de alguém que traduzisse o ‘engenheirez’ para o grande público”.

Responsável por ações de relacionamento e divulgação de marca, Ferreira conta que a Renault considera a comunicação como uma área estratégica. “Hoje eu faço parte do comitê de direção da empresa, a comunicação está inserida nesse processo diretamente”, afirma.

Além da comunicação externa, a política de comunicação interna da empresa também é atuante. As ações visam não apenas os colaboradores, mas seus familiares. “É uma via de mão dupla. Deixamos abertos os canais para recebermos críticas, sugestões e comentários”, afirma. O Portal Sou Renault é um desses exemplos. O projeto, voltado à interatividade entre público interno e empresa, foi laureado em 2015 pelo Prêmio Amauta como o segundo melhor case da América Latina em termos de marketing direto.

O resultado pode ser visto em números. Em momento de crescimento, a Renault passa agora pela sua quarta fase no Brasil. Em 2010, a empresa saiu de 4.8 de participação de mercado para atuais 7.2. “Em um primeiro momento houve a chegada com muita inovação, a seguir, uma queda da presença da Renault, o que chamamos de segundo ciclo. No terceiro momento, a empresa teve que olhar o mercado para se consolidar. E agora estamos ampliando a gama de produtos com a chegada do Duster e do Oroch, por exemplo”, defende.

Presente em mais de 128 países, a Renault em aliança exclusiva com a Nissan, representa o 4.º maior grupo automotivo do mundo, com uma frota de mais de oito milhões de carros e 120.000 funcionários. No Paraná, são cinco mil empregos diretos e entre 20 e 25 mil indiretos. No Brasil, são 300 concessionárias com a bandeira da multinacional francesa, sendo a quinta maior montadora de veículos do país.

Parte da solução e não do problema

Uma pesquisa sobre hábitos de consumo com três mil jovens publicada pelo The New York Times em parceria com a MTV Scratch dos Estados Unidos, apontou em 2011, que os chamados millennials, a geração entre 18 e 34 anos, tem demonstrado menor interesse na compra de carros. Os dados, no entanto, não assustam a Renault, que acredita que o estudo do mercado e o diálogo podem ser a solução, além de iniciativas da própria montadora como os carros elétricos.

“A aliança Renault Nissan é líder mundial em carros elétricos. Já vendemos mais de 250 mil em todo o mundo, ele é uma realidade e também uma das soluções para reduzir a emissão de poluentes”, diz. No Brasil, foram comercializados 80 carros elétricos, 10 circulando em Curitiba em parceria com a Prefeitura e Secretarias de Turismo e Educação da cidade.

“Temos o Twizy de dois lugares, pensado para o uso urbano. Pode ser integrado à outras soluções, como com o car sharing e o transporte público. A Itaipú Binacional adquiriu 32 unidades para utilizar no parque”, revela.

Além disso, a empresa também é patrocinadora de eventos como iCities, que discute questões de mobilidade urbana e cidades inteligentes. Empresas como a transportadora FedEx, por exemplo, já utilizam Kangoos elétricas para soluções em logística nas cidades de São Paulo e do Rio de Janeiro. O carro também é utilizado pela Companhia de Energia Elétrica de Pernambuco em Fernando de Noronha.

Instituto Renault

Com cinco anos, o Instituto Renault existe porque a empresa entende que a sua missão não é apenas desenvolver, fabricar e comercializar automóveis, mas também contribuir com o desenvolvimento da sociedade. “O objetivo do Instituto é promover ações para o desenvolvimento socioambiental. São três eixos de atuação: meio ambiente, segurança no trânsito e capital humano”, explica Ferrreira.

Na área ambiental, as ações são voltadas à fábrica com o objetivo de torná-la o mais sustentável possível. Por ano, são recicladas mais de 170 mil toneladas de material. Plástico, papel, madeira, isopor, lona e outros insumos são encaminhados para parceiros e fornecedores próximos, que transformam os materiais e possibilitam que sejam reutilizados. Além disso, oito automóveis possuem o selo A do Inmetro, que os certifica como melhor consumo de combustível e emissões e ainda, o investimento mundial em carros elétricos.

No segundo eixo de atuação, a segurança no trânsito é uma grande preocupação do Instituto. “Morrem no Brasil entre 40 e 60 mil pessoas por ano em decorrência de acidentes de trânsito. É como se a cada dois dias caísse um avião, uma média de 200 pessoas”, alerta. Nesse sentido, o Instituto desenvolveu parcerias com o Denatran e também com escolas públicas da região de São José dos Pinhais, Quatro Barras e Curitiba para a educação de professores e alunos sobre os perigos do trânsito. As crianças ganham kits pedagógicos e participam de dias lúdicos em cidades mirins, onde assumem todos os papeis: pedestre, ciclista, motorista, passageiro etc. e aprendem sobre a convivência entre esses diversos atores. Essa ação, que também ocorre na França, deve expandir para outras cidades do Brasil.

Com relação ao capital humano, o Complexo Ayrton Senna é localizado na região da Borda do Campo, em São José dos Pinhais. Ali, o Instituto desenvolveu, junto da comunidade local, a Associação Borda Viva. Na sede, construída e doada pela Renault, é abrigado um restaurante que fornece alimentação diária para 180 crianças, além de serviços para outras empresas como coffe break, catering etc. em que é gerada renda para a associação.

A capacitação profissional dos membros também é trabalho do Instituto. Com o apoio da Renault, foi desenvolvida a grife Borda Viva, que produz bolsas, carteiras, nécessaires e outros produtos com artigos devolutos doados pelo Instituto, desde cintos de segurança até tecidos de bancos de automóveis. Além disso, a aproximação com universidades e fornecedores atende desde a elaboração do design das peças até a compra dos produtos, o que também gera renda para a associação.

*Essa matéria foi publicada originalmente na Revista Dimensão de janeiro de 2016