Depressão, Terapia e Medicação
Você aceita?
Um dia você descobre que precisa fazer terapia, sei lá, por qualquer motivo.
Alguém chega e diz: Já pensou em fazer terapia? Acho que está precisando.
Você acha estranho e pensa que a pessoa está maluca. Todavia, a partir disso, começa observar os acontecimentos e suas próprias atitudes. Repetições, ciclos, choros, etc.
Você finalmente entende e diz: É… Preciso de terapia.
Posso te dizer uma coisa?
Nós precisamos de terapia. Todos nós.
Se aprendermos a prevenir. Não precisaremos remediar.
Vamos ao meu contexto.
Descobri que eu precisava das famosas sessões quando algumas pessoas começaram a “reclamar” de determinadas atitudes minhas. Eu achava que algumas coisas eram normais, como o sentimento de culpa que citei no artigo Culpa e Desculpa. Também via como algo normal de minha personalidade chorar o tempo inteiro, afinal, o canceriano costuma ser assim, não?
No início, eu me ofendia quando as pessoas falavam que eu precisava de terapia porque eu era muito “chata” com determinadas coisas, exigente comigo mesma e atenta demais à determinados tipos de detalhes.
Pensava:
O que tem demais exigir tanto assim de mim?
É só uma fase. Tenho boletos pra pagar.
Fulano não sabe de nada.
Achava que era “só stress” do dia-a-dia. E, sendo, eu deveria tratar SIM. Só não sabia que eu tinha que fazer. Muito menos “o que” e “como” fazer. Me achava autossuficiente e empurrava tudo com a barriga. Pequenos detalhes me chateavam e eu também achava normal.
Até que um dia eu explodi. Explodi de vez e em vários aspectos. Tive todos os sintomas iniciais de Burnout (depois vou escrever sobre isto, mas basicamente comecei a falhar). Chorava muito e os sentimentos de culpa e ansiedade só aumentavam. E sem motivo.
Sim. Sem motivo eu perdi a vontade de viver. O prazer.
Era pra eu me sentir feliz. Tinha meus affairs (às vezes não). Sempre me relacionei bem com as pessoas e fiz amigos rapidamente, pois me acham engraçada. Também sempre lidei muito bem com a área profissional que resolvi atuar, a tecnologia.
Não estava passando por uma decepção absurda. E mesmo quando já passei, nem sequer tive qualquer tipo de sintoma desse. Namorado nenhum me tirou a alegria, mesmo tendo me decepcionado. Eu nunca me permiti sofrer pelo fim de algum relacionamento, mesmo que a pessoa me desapontasse ao extremo.
Mas eu explodi. Repito, sem motivo.
Senti cansaço, dor, angústia, irritação. E era nítido.
E depois de muito negar, eu admiti que precisava de terapia. Não aguentava mais as pessoas ao meu redor percebendo coisas e falando, falando, falando.
Então eu fui.
E lá eu descobri muitas coisas sobre mim.
Descobri que traumas de infância afetam o que somos hoje.
Descobri que precisava reaprender a pensar vários conceitos, e que eu precisava reformular meu ponto de crença (hum… crença, religião, igreja? Assunto para outro artigo com certeza).
Descobri que trabalhava demais. Não é normal passar 48 horas sem dormir, mas eu fazia e achava que eu era obrigada a aprender tudo e muito rápido.
E por aí vai…
Voltando ao “eu nunca me permiti sofrer”, percebi que sempre omiti determinados sentimentos. E quando eu não me permitia, meu cérebro somatizava involuntariamente e isso acumulava em algum lugar em mim que, mesmo eu não lembrando das coisas lá na frente, o inconsciente estava abalado de alguma forma.
E, descobrindo tudo isso: o “sem motivo” passou para “sim, existe motivo”.
Por vários motivos eu explodi.
Vários.
Tanto motivos que se um dia eu tiver a fim de contar aqui, irei.
Mas foi algo tão sério que além de reaprender sobre a minha cabeça e as minhas atitudes eu descobri que tinha Depressão e precisava de medicação. Sim. A terapia sozinha não iria me ajudar, pois eu precisava de um tratamento terapêutico e medicamentoso.
E eu não aceitei. Não quis. Não achava justo comigo. Pensava que eu ia conseguir sozinha, apenas mudando de atitudes. Cheguei a conversar com algumas pessoas que, infelizmente, tinham o mesmo pré conceito:
“Você não é doida pra tomar remédio psiquiátrico!”
“Não entra nessa não que é um caminho sem volta!”
“Não seja besta, isso é pra vender.”
Continuei indo à terapia por um tempo e (logo) quando me mudei de Estado não fui mais. Simplesmente achei que poderia levar tudo numa boa. Que era loucura tomar medicação para o cérebro. (Risos)
Fiquei sem tratar por mais de 3 anos.
E sim: eu piorei.
Até um certo ponto, por mais engraçado que pareça, eu conseguia controlar às vezes. E daí se tenho crises de choro por 3 dias seguidos, do nada? E as crises de ansiedade vez em quando? É “só” de vez em quando... Eu só sinto que vou morrer, o mundo gira, às vezes desmaio, acho que estou tendo um AVC. É só eu trabalhar bastante que vai passar. (Risos)
E trabalhava. Ficava noites e noites sem dormir “pra esquecer”. Afinal, era HomeOffice.
Até o momento que eu não conseguia mais pensar, em determinados momentos, e isso me gerou uma leve estafa mental e eu voltei a falhar. Junto à culpa que eu sentia, diversas vezes eu achava que minha vida não era mais válida já que eu não conseguia nem fazer o que mais gosto: trabalhar.
E então, pensava até em me matar.
Praticamente ninguém sabia o que estava passando. As pessoas só me julgavam por atitudes repentinas, alterações de humor, pedidos de desculpas. E eu não estava bem. Não queria falar com ninguém.
Escrevi todas as minhas músicas (sim, tenho músicas) com esse sentimento. Eu queria fazer passar a qualquer custo e escrevi todas para mim. Até um momento em que eu não tinha mais prazer pra fazer nada.
Foi aí que num leve momento de lucidez eu pensei no meu futuro e na pessoa que eu queria realmente ser. Eu estava frustrada, mesmo com várias conquistas.
Não conseguia enxergar mais nada.
E então, não aguentando mais a situação, iniciei com a medicação.
Foram alguns meses de medicação + terapia online. E eu melhorei muito. É muito bom quando o cérebro volta a funcionar e você se sente vivo.
O único problema foi que, depois de 8 meses, eu achei que já estava bem e interrompi tudo pensando que poderia levar uma vida normal. E então algumas coisas começaram a voltar.
Se você leu até aqui e está nesse ponto: Não faça isto! Espere a “alta” do seu médico.
Hoje, sigo minha vida normalmente. Faço terapia e trato alguns pontos que preciso melhorar. Sobre a medicação já precisei voltar e estou lidando bem com o processo de recuperação. Não tenho vergonha por ter tido uma recaída na Depressão, ou por ter me permitido estar assim. Somos falhos. Somos orgulhosos com nosso corpo.
E o que vale de fato é você querer melhorar e buscar isto.
O que quero dizer com este artigo?
Depois de longos textos, eu preciso te dizer que você não precisa ter vergonha de fazer terapia e, se necessário, precisar tomar remédio. Sim, conheço gente que se sente envergonhada.
Eu vejo nossa vida como um banquinho. Sabe? O banquinho tem várias pernas. Temos nossa área física, mental e várias outras importantes. Precisamos cuidar de todas. Quem me fez enxergar isso foi uma amiga que é psiquiatra.
Já pensou se você cuida da mente, do seu emocional e profissional, mas não cuida do seu físico? Você sempre ficará doente ou se sentirá fraco.
É tão comum não cuidarmos de nossa mente. Sendo que esta é a parte mais importante. Não adianta termos força física, se não conseguimos pensar. Você já ouviu alguém dizer que o cansaço mental é o pior de todos?
Sim. Precisamos descansar. Precisamos cuidar. E negligenciamos tanto isso a vida inteira que pode chegar num ponto que a medicação deverá ser utilizada.
Que bom que temos medicação para isto. Já pensou se não existisse? Eu mesma estaria em maus lençóis.
E, não. Você não vai se viciar. Se fizer tudo direitinho com seu médico, você vai superar esta fase e vai ficar tudo bem. Mas, não se esqueça das outras pernas do banquinho, não é? Atividade física é importante, alimentação correta também.
Olhando assim parece que tenho tanta disciplina. Eu posso te garantir que eu luto. Mas, tem dia que não é tão fácil assim (risos).
Costumo dizer que lidar com a depressão não é algo global e sim uma luta diária, como pequenas batalhas pra vencer uma guerra.
E tenho certeza que você consegue.
Já acreditei mil vezes que não iria conseguir. Hoje, por exemplo, estou conseguindo.
O ontem já se foi.
Amanhã é outro dia.
Busco não me desesperar.

