O jornalismo e meu avô: como um amor desperta outros

Sempre fui uma pessoa sonhadora. Quando criança, meus familiares não hesitavam em incentivar minhas ideias: desde ser uma “caubóia” (que seria uma cowgirl nos dizeres de hoje, mas para mim sempre caubóia), bailarina, sereia, fada, veterinária, ou médica. Não me lembro de uma única vez em que alguém me disse que eu não seria capaz de galopar num cavalo, dar belíssimas piruetas com o meu tutu- que era, na verdade, uma boia rosa de piscina murcha- ou de até conseguir uma vaga no curso mais concorrido do país. Dentre essas pessoas, está o meu avô.

Seu Aguinaldo: um senhor simples, companheiro, correto, e que não compartilha seu DNA comigo, mas mesmo assim, meu avô. Ele, nos seus quase 60 anos, assumiu um dos papéis que, no futuro, seriam considerados os mais importantes da filha do seu jovem casal de vizinhos. Se entregou sem pedir nada em troca, confundindo quem sempre pensou nele como uma pessoa impaciente ou fria. Quem passasse pela rua Tapajós há uns 10 anos atrás, no finalzinho da tarde, com certeza tentaria decifrar a cena da pequena menina de cabelos cacheadinhos e o cachorro cor de mel acompanhando um senhor que, mesmo com os braços cheios de bonecas- inclusive uma Emília do tamanho de uma pessoa real- seguia sorridente.

Nós dois criamos um vínculo que ultrapassa o já conhecido pelas famílias de hoje- somos mais que neta e avô. Somos dois amigos, de nova e velha infância: Seu Aguinaldo sabe de todas as minhas histórias, foi a primeira pessoa para quem eu contei do meu primeiro beijo, me acompanhava na volta da escola- e chegou a ir me buscar até quando eu estudei em outra cidade, me contou suas vivências de criança e jovem na intenção de apenas relembrar (e não de pronunciar moralismos e comparações), nunca faltou em um aniversário meu, foi o primeiro com quem eu tomei uma cervejinha num almoço de domingo, e por fim, foi a primeira pessoa que eu entrevistei. A questão é que meu avô, não sei como, sempre soube os momentos de me tratar de igual para igual e os momentos em que eu precisava de colo, apenas uma criança, e talvez seja por isso que nós temos essa amizade tão forte: não apenas o amor como o respeito também é mútuo.

Graças a esse respeito, Seu Aguinaldo entendeu meu sumiço de sua casa no ano de vestibulares. Dava o seu jeitinho de mostrar que estava por ali quando eu precisasse. E eu precisei: quando decidi pelo jornalismo, vi as mesmas pessoas que concordaram com a minha suposta vocação peoa ou médica franzirem a testa quando contei da minha escolha. Dentro de mim, era como se o muro que elas mesmas tivessem construído, tijolinho por tijolinho de “realmente, você vai conseguir, ser uma fada tem tudo a ver com você!” estivesse sendo quebrado por elas. Enxergava-os decepcionados, indo até o murinho e tirando o seu elogio em silêncio, quase em luto. No final, restaram poucos tijolinhos, dentre eles o do meu avô. Que num sorriso terno seguido de um abraço reconfortante, apenas disse: “você vai voar alto, nega. Tudo o que você quer você vai lá, faz e consegue. Se te fizer feliz, eu vou estar feliz”. Nesse momento tudo fez sentido. Ele, ali, a primeira pessoa que eu entrevistei- para um trabalho do meu incrível professor de história Luiz Fabrício, um dos poucos tijolinhos que sobraram- e que no dia da entrevista me fez sentir um formigamento, uma curiosidade, enfim, uma vontade de contar para as pessoas tudo o que eu havia aprendido com ele, sorrindo para a escolha mais importante que eu já fiz: ser jornalista.

Eu lembro do dia em que recebi o trabalho depois da correção. Cheguei em casa e fui atrás das redações que havia feito para as disciplinas de sociologia e filosofia: obviamente podia melhorar, mas escrevia bem. Alinhei esse fator ao amor pela leitura, a curiosidade sobre tudo e ao “você é tão comunicativa!” que me acompanhou a vida toda e pá: jornalismo. Comecei a pesquisar e a cada dia que se passava eu me identificava mais com a profissão. Perguntas relacionadas ao dinheiro e ao medo de ser jornalista e, sei lá, sofrer um atentado, nunca me impediram de seguir em frente. O meu maior medo, na verdade, era fazer meus pais pagarem minha faculdade sendo que o futuro infelizmente é incerto quando se trata do jornalismo. Recebi todo o apoio deles para os meus estudos, mesmo sentindo em alguns momentos que estava os decepcionando por ter feito uma escolha destoante daquelas que eles imaginaram pra mim. Mas segui firme e consegui: passei na faculdade que eu queria e fui muito abraçada por pessoas que escondiam seus tijolinhos atrás das costas. Meu avô me abraçou com as duas mãos livres. Como ele sempre quis que eu fosse.

O impulso que tive para escrever esse texto veio, na verdade, da desmotivação que eu senti nesses últimos meses. No cenário atual do nosso país, a profissão do jornalista é cada vez mais desrespeitada e até mesmo perigosa, e isso me fez questionar, pela primeira vez em meses, se eu estava no momento certo: momento, pois a UNESP de Bauru me ajuda a ultrapassar minhas velhas barreiras diariamente, e mesmo se eu fosse de outra época, ser jornalista ainda seria a minha opção. É óbvio que compreendo os motivos de tanta indignação, mas isso não dá razão a ninguém para afirmar que “os jornalistas são nojentos” ou até mesmo agredir alguém que só estava ali fazendo o seu trabalho. Assistindo a esse declínio do respeito pelo meu futuro, me perguntei se deveria continuar. Me senti culpada pois pensei que por estar questionando, talvez não fosse o certo.

Mas no auge da crise, me lembrei do meu avô e do olhar terno que transmitiu o primeiro “acredito em você” e foi como se, novamente, tudo tivesse voltado ao seu lugar. Por mil e um motivos, escolhi o jornalismo e hoje eu escolho continuar nele e por ele. Não me amedronta o corre do dia a dia, o talvez futuro salário baixo ou a exposição que eu me submeterei ao assinar o meu nome no final de cada matéria. O que me dá medo é pensar no meu silêncio sendo que eu posso sim tornar o mundo melhor, expondo a verdade e o desconhecido, mesmo que isso tenha que começar dentro da minha própria casa. E começou.

Eu brinco que o meu avô foi o meu primeiro amor, pois me apeguei nele- uma pessoa que não tinha nada a ver com a minha família- ainda bebê. E finalizo esse texto afirmando que esse meu primeiro amor me ajudou a descobrir o mais recente: o jornalismo, que me faz uma pessoa melhor a cada dia. Obrigada, vô.