Quando não queremos o que querem da gente

Sou psicóloga, amo ensinar, amo ler e estudar, já fui monitora, trabalhei com psicologia escolar (área da educação), ministro cursos e palestra, minha mãe é professora, a equipe de consultores da M. Simeão quase toda é composta de professores universitários, mas, na contramão do que seria óbvio, eu não quero fazer mestrado.

O intuito desse texto não é, nem de longe, falar sobre os pontos negativos de fazer mestrado. É questionar os “você tem que…”, que as pessoas, o mercado e nós mesmos nos impomos. Muitas vezes, engolida goela abaixo, não questionamos se, na bagagem das escolhas que fazemos, sobrará espaço para continuarmos levando itens essenciais da nossa jornada pessoal.

Vejamos o que me fez refletir sobre isso.

Talvez ele nem saiba, mas foi um estudante de Mestrado que me fez pensar sobre esse tema e querer compartilhar essa ideia com vocês. Obrigada, João* :)

Eu estava na Unifor, alinhando uma mesa-redonda sobre Carreira, que iria conduzir no Mundo Unifor com a Luciana Karine, o João e a Noália. E no decorrer da nossa reunião, diante de um comentário que fiz, João me interrogou com um ar de espanto perguntando-me: “Tu nããão vai fazer mestrado? Tem que fazer!”. João estava certíssimo! Eu concordo em número e grau! Seria um absurdo ELE não fazer Mestrado com todos os itens que ELE levantou como importantes para A VIDA DELE. Para a vida dele. :)

Isso me fez pensar sobre a forma como faço as minhas escolhas e sobre as escolhas que meus pacientes e orientandos fazem na vida.

Fazer uma escolha, da mais simples à mais complexa, envolve muita coisa, inclusive pensar em:

- quem somos,

- quem queremos ser,

- como será a nossa vida,

- quais problemas/conflitos estamos dispostos a encarar;

- como será o nosso estilo de vida;

- o que ganharei e extrairei dessa escolha;

- de que terei que abrir mão.

Desde escolher com quem queremos dividir a nossa vida à escolha da nossa profissão, estamos constantemente sendo instigados a refletir sobre quem somos e quem queremos ser. E é preciso muito autoconhecimento para não confundirmos escolhas dos outros e da sociedade com escolhas realmente protagonizadas por nós.

Deixa eu compartilhar com vocês como essa reflexão se deu quando eu mesma me questionei se um dos meus caminhos seria fazer um Mestrado. A base é a mesma que uso na condução da Orientação de Carreira com meus pacientes. Passamos pelas seguintes etapas: autoconhecimento, conhecimento da realidade profissional, análise e escolhas.

Ser professora seria maravilhoso, porque:

1) estaria propagando o conhecimento e formando pessoas,

2) constantemente sendo levada a estar estudando,

3) não seria mais uma das únicas da equipe M. Simeão a não ter Mestrado (e justamente uma das Diretoras — sim, esse “fantasminha” às vezes bate, mas hoje, eu já tenho uma nova forma de acolhê-lo),

4) teria o reconhecimento e afeto advindo dos alunos,

5) ah, e seria uma vitrine para a clínica.

Poxa, se minha análise parasse por aí, poderia dizer que já tinha todos os motivos para fazer Mestrado, não é? Mas vejamos outros pontos tão importantes quanto.

Amo estudar e ensinar, mas na bagagem de ser professora também vem:

1) Preparar aulas e corrigir provas;

2) encarar o “produtivismo acadêmico” com o seu formato de normas e regras nada instigantes para mim — ponto este crucial para o reconhecimento e crescimento na profissão.

Sobre o ponto 1.

Embora eu não considere essa atividade ruim, eu “sofro” de uma característica que viria a dificultar esse processo: o perfeccionismo. Isso me demandaria muito tempo extra sala de aula, o que comprometeria sobremaneira o equilíbrio com meu lazer e vida familiar (dois de meus valores pessoais). Ao final eu sei que me instigaria e me motivaria, mas por outro lado, estaria imersa na culpa por ter passado horas/dias afastada do meu esposo, sobrinhos e futuramente, filhos.

Sobre o ponto 2.

Adoro ler, adoro escrever, mas nesse formato aqui que vocês leem. E gosto mais de depender do meu investimento em minha carreira e em meu conhecimento para crescer profissionalmente, do que estar submetida a regras dentro de uma instituição.

Mas aí você se pergunta: “Mas Marina, você mencionou em quantidade muito mais pontos positivos que negativos. Não compensaria mais a escolha pelo Mestrado?”

Não. Embora tenha mencionado menos pontos negativos, um deles envolve um VALOR meu. E um VALOR deve ser olhado com muito afeto. Ele representa a nossa essência e, quando não escutado, pode nos trazer muito, muito prejuízo.

Fechei a gestalt entendendo que poderia exercer a minha afinidade por 1) estudo; 2) escrita; e 3) ensino de outras formas. Poderia elaborar eventos pontuais (rodas de conversa, mini-cursos, palestras), trabalhar na TCC (uma abordagem que usa fortemente a psicoeducação como ferramenta), oferecer supervisão, participar e montar grupos de estudos, dedicar meu tempo para pesquisas e leituras de livros e artigos científicos para incrementar a minha prática e escrever artigos informais, como este que você lê. E então, tá tudo certo.

Lembre-se, esses são os MEUS MOTIVOS. Cada um é responsável por encontrar os seus motivos. E como o mundo seria mais lindo se não quiséssemos impor para o outro as respostas que melhor se adequam à nossa vida. Não preciso negar ou desqualificar a escolha do outro para legitimar a minha. Cada qual sabe de si.

E aqui vai um recadinhos para os aspirantes a Mestrado, Mestrandos, Mestres. Por favor, continuem fazendo o que fazem! Vocês qualificam nossos estudos, embasam nossa prática profissional e fazem um trabalho divinamente basilar para a mundo. Vocês formam pessoas!

Ah, e só uma pequena observação. Não senti que o questionamento do João teve o teor de impor a sua visão. Parecia mais um “Vamos, pode ser tão bom para você como está sendo para mim. Você não sabe o que está perdendo” :)

Mas ressalto, temos que ter o cuidado de não nos apaixonarmos pelas respostas e referenciais dos outros e esquecermos de olhar para esse lugarzinho interno que se chama essência. Fazer escolhas envolve muita percepção e autopercepção, o que compreende inclusive dizer não para coisas que gostaríamos, por “n” motivos, dizer sim.

Só para finalizar. Esses motivos fazem sentido no meu HOJE. Somos seres passíveis de mudanças e, de acordo com minhas novas necessidades, conjunturas, eu poderia futuramente estar escrevendo um texto para vocês de título “Por que eu decidi fazer mestrado” e essa é uma das belezas da vida: ela é fluida, flexível, mutante.