Asco

Ele já é nosso velho conhecido. Vem aqui todas as manhã, e nos alimenta com as mais variadas comidas. Há quem só jogue pão, mas ele gosta de diversificar. Já trouxe milho, comida de papagaio, sementes de girassol.

Hoje, trouxe só pão. E nem imagina que essa é a nossa última refeição juntos. Logo ele estará morto, e é provável que a gente tenha que procurar outra praça, outro velho ou até uma criança. Importante ter alguém que se preocupe e não tenha nojo da gente.

Porque os bandidos estão soltos, e acredite se quiser, aqui neste país as armas ainda são permitidas. Então assim que a garota se negar entregar a bolsa, haverá um tiro. Despretensioso, meio de canto, só pra assustar.

Mas o velho, desatento a tudo isso, quase surdo, quase cego, precisamente neste momento, terá deixado cair os óculos, e precisará se abaixar. E é em suas costas já cansadas que a bala ficará alojada.

Caído, morto, estatelado no chão. Com as migalhas fugindo dos dedos, e nós pombas ao redor. Alucinadas como urubus, mas desinteressadas da carne, atentas apenas ao duro pão de ontem. Que pode não vir amanhã.