Sobrevivente

Dentre tantas almas abortadas, foi a que nasceu. As primeiras palavras que ouviu, de seu pai um tanto perdido, foram “vem com o titio”. De lá, foi ao colo da mãe deprimida e ao colo da babá, e passou de mão em mão, até que ganhasse a forma de uma menina e pudesse mendigar por um olhar. Da mãe, virou confidente. Do pai, seguidora incondicional. No meio dos dois, buscava algum consolo. No espelho, via tudo embaçado. A cabeça doía. Cresceu, casou, descasou, namorou, casou, teve um filho. O estômago corroía, as palavras presas na garganta e o corpo preso naqueles corpos que não são o seu. Agora, pede ajuda, grita e chora. Tem consciência de que um corte profundo deixa cicatrizes. Mas vai cortar.

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