A extinção dos correios

Entrada (ou saída, depende da perspectiva) do correio central na Praça do Correio, em São Paulo.

Não falo dos periódicos, os correios, pois esses já batem em retirada das vidas cotidianas há algum tempo junto de suas colegas magazines. Estou falando mesmo dos correios, aqueles de enviar e receber carta do namorado, de mandar presente para a prima do interior no aniversário, de falar boa tarde pro carteiro que passa na rua de casa. É esse correio que parece estar entrando em extinção.

O do meu bairro virou loja de colchões. Nada contra colchões, claro, pois é neles em que se dorme o sono da beleza, se lê os livros das vidas com as barrigas viradas para baixo, se namora e se sonha os sonhos de amor e os pesadelos de morte. Colchões são muito importantes, mas pra que mais de um por vez?

Ouvi falar que um outro correio vai virar farmácia. Também nada contra farmácias, os remédios que remediam as desgraças da vida se compram nas farmácias. Até cremes, pós compactos e batons, que fazem o tempo passar mais devagar e renovam o viço, se bobear tem nas farmácias. Farmácia é sempre bom ter pertinho pra qualquer emergência…

Mas e correio?


Há muito tempo que só tenho recebido em casa as cartas nada intimistas, nada afetivas e nada desejadas de bancos. São os chamados boletos, e neles o que de mais divertido e engraçado há são aqueles montes de linhas pretas, grossas e fininhas, enfileiradinhas, com intervalos brancos entre elas que as diferenciam. Parecem grades de uma prisão, código de barras.

Cartinha de amor eu nunca recebi pelo correio, com o carteiro batendo palma no portão de casa, gritando ó o correio!, e deixando as correspondências todas na caixinha. Nem de amiga, nem de parente nem de ninguém. Mas também, quem é que manda carta hoje em dia, minha filha?

Em viagem recente, vi as cartelas de cartões postais bem lá no canto da loja de souvenirs, meio esquecidos e meio largados, que ninguém quer vender nem comprar mais. O plástico que os envolvia cheinho de poeira, daquela poeira impregnada que não sai mais se você soprar como sopra velinha de aniversário. Ninguém quer mesmo, devem pensar, mas se um turista old school aparecer com coragem de se meter com o pó, cá está!

Vira e mexe tem alguma coisinha para enviar a algum parente distante porque a família mora cada um num canto do mundo e é para isso que eu mais uso o correio. É um presentinho, um remedinho, um vestidinho. E de vez em quando eles mandam para mim algum mimo de onde eles estão também.

A alegria de abrir uma caixa recém-chegada, seja de parente, de amigo ou mesmo de compra em loja virtual, ah!, é alegria que transborda! Desatar com a tesoura ou mesmo na mão a fita adesiva sempre excessiva, tirar plástico bolha — que a gente guarda pra ficar estourando sem parar enquanto assiste à novela, depois — ou papel velho de jornal — sim, aquele correio que entrou em extinção bem antes do correio das cartas — , e finalmente tirar da caixa o objeto tão esperado é como o nascimento de uma nova criança neste mundo e o coração chega mesmo a bater mais forte.

Imagino, romanticamente, que quem chegou a receber uma carta ou mesmo um postal pelo correio com algumas palavras rabiscadas à mão, inundadas de amor, apreço e anelo, deve ter sentido o mesmo que sinto ao abrir uma caixa de presente. O frio na barriga da surpresa, o abraço imaginário, o beijo quente na testa. Será que o êxtase de um quase parto vai desaparecer para sempre?

Nem contas recebemos mais via correio, muitas já são enviadas por email. Se bem que delas não sentirei falta nenhuma, pois é menos papel frio e sem pulsação correndo no mundo para poluí-lo.

Mas aquelas cartas de que ouvimos falar, as bonitas, as bem escritas mesmo que garranchadas, as que até poderiam ser publicadas em livros, que fazem rir e chorar, aquelas de que não se joga fora; aquelas não poderiam morrer como uma criança natimorta. E ver os correios aqui e acolá fechando as portas me faz pensar que é menos amor, menos ternura e menos crianças nascendo ao redor do mundo.