Fazedor de desejos

Encontrei um fazedor de desejos. Era começo de ano, como agora, e ele estava à toa na rua quando nos esbarramos. Dizer que ele estava à toa é pura especulação, mas caso se tratassem de ações da bolsa, com certeza eu enriqueceria. Com o tempo, percebi que ele estava sempre à toa, preparado para esbarrar com quem fosse. Era começo de ano e eu corria para voltar para casa. Tinha sido um dia bastante cansativo, muitas contas para pagar, clientes para atender e pendências do ano anterior ainda para resolver — uma página da história que viramos rapidamente, que mal percebemos que viramos, deixando a folha amassada com orelhas nas pontas.

Não tinha planos e resoluções para o ano recém-nascido. Distante de qualquer ambição, só pensava em cumprir minhas tarefas, receber meu salário e pagar minhas contas. Comer, beber e ler um livro com o que sobrava. Não era muito, mas o suficiente para viver. Mas então encontrei um fazedor de desejos. Ele não tinha uma aparência extravagante, nada que pudesse caracterizá-lo como um exímio fazedor de desejos. Um homem comum, à toa — sempre à toa. Era fim de tarde, mas ainda tinha sol e o calor fazia com que minhas axilas suassem. Eu estava com sede.

Você está com sede, ele disse assim que nos cruzamos. Sim, estou com sede, respondi automaticamente, você também não está?, terminei perguntando. Todas as pessoas andam por aí e sentem sede quando faz muito calor. Você quer um pouco de água gelada, ele perguntou, mas sem a entonação de pergunta, porque já sabia minha resposta. Sim, eu queria um pouco de água, e gelada, de preferência. Foi então que surgiu uma garrafa de água bem geladinha no bolso lateral da minha mochila. Beba à vontade, ele disse, apontado para a garrafa.

O que você é?, eu perguntei depois de beber um gole da água. Poderia ser água suja, poluída, cheia de micróbios, até mesmo envenenada, eu não sabia, mas parecia extremamente saborosa e pura naquele momento e não pude deixar de bebê-la. Eu estava morrendo de sede. A água é a da mais pura fonte, não se preocupe. Quando tiver sede, nessa garrafa aí que está na sua mão vai nascer água da fonte pelo tempo que você viver e for capaz de beber água, é claro. Não é literalmente para sempre, mas na prática pode-se dizer que seja para sempre mesmo.

É o quê?, eu reagi como uma engasgada. Você só pode estar brincando, isso é simplesmente impossível. Nada é impossível para mim, ele respondeu desdenhando de mim. O que você é, afinal? Algum tipo de deus?, eu insinuei e ele gargalhou. Não, não, não sou nenhum tipo de deus, não se preocupe em me cultuar, ele fez que não com o dedo indicador da mão direita como se estivesse conversando com uma criancinha. Eu só sou um fazedor de desejos. A água foi um brinde de boas vindas, porque sou muito generoso e a fonte de água nunca se esgota mesmo, mas sou um fazedor de desejos e fazer desejos não é de graça.

Fazedor de… desejos?

Pensei em dar as costas e ir embora, pensei em tacar a garrafa naquele corpo magro e cheio de ossos, pensei em xingá-lo de todos os nomes, mas não fiz nada dessas coisas. Sabia que estava tentando me passar a perna de alguma forma, me dando o que seria o novo golpe na praça, mas então olhei para a garrafa em minha mão e todo o volume de água que eu já tinha bebido estava lá novamente, como se eu mal tivesse tomado uma gota. Viu como a água brota?, ele disse em um sorriso confiante. A água brota mesmo e eu sou capaz de realizar qualquer desejo que você tiver aí, bem no fundo do seu coraçãozinho.

Eu não tenho desejo nenhum!, disse. Estava irritado com a atitude dele, me tratando como se eu tivesse cinco anos de idade. É claro que tem…, ele insinuou, como se pudesse ler meus pensamentos. Você só não quer admitir que tem, ele completou e senti meu rosto pegando fogo. Um pouco era pelo calor, mas eu estava com raiva. Eu trabalho da seguinte maneira, ele então mudou o tom da voz, como se estivesse tratando de um negócio com um cliente. Posso realizar o desejo que for, por mais extravagante ou bizarro que seja. Mas para cada desejo, você perde um ano de vida. Simples, não?

Simples? Uma série de contas surgiu na minha cabeça. Considerando que uma pessoa viva uns setenta e tantos anos, oitenta se tiver sorte e saúde, bem, perder um ou dois anos para ter desejos realizados não parecia ser uma troca tão ruim. Eu poderia pedir dinheiro. Um milhão de dólares, um milhão e meio talvez. Com dinheiro se consegue o restante e tudo isso com apenas um pedido. Qual a diferença de se viver setenta e cinco ou setenta e quatro anos? Sim, até que é simples sim.

Pedi o dinheiro e recebi o dinheiro. Investi e poupei. Pedi um carro porque não queria gastar o dinheiro que tinha ganhado e recebi um carro com o tanque que brotava gasolina, assim como a garrafa de água que brota água. Pedi uma mulher, pedi filhos, pedi uma casa grande e um Golden Retriever. Pedi uma plástica no nariz da minha mulher que era levemente arredondado na ponta. Pedi a cirurgia de desvio de septo do meu filho. Pedi que minha filha tirasse notas boas em matemática na escola. Pedi a isenção dos impostos. Não queria pagar nem me esforçar por nada disso se poderia, simplesmente, pedir, tanto que nem lembro mais de tudo o que eu pedi.

Adoeci de repente. Pedi que melhorasse. Melhorei, mas adoeci de novo no intervalo de um ano. Minha família estava preocupada, mas eu não procurei médico nenhum. Pedi que melhorasse de novo e voltei a pedir. Pedi e pedi. Então o fazedor de desejos reapareceu, talvez não tão à toa, e sorriu para mim, como se quisesse me lembrar da nossa troca. Me dá só mais um ano, eu pedi — implorei! — , já quase sem conseguir falar. Ele então, em um gesto da gentileza que nunca tinha demonstrado antes, cobriu meus olhos com sua mão magricela. Eu vi a escuridão, depois não vi mais nada.

A garrafa de água estava vazia.


Foi assim que eu me tornei um fazedor de desejos. Era começo do ano, como agora, mas já não havia mais desejos que eu quisesse realizar. Nem para mim, nem para ninguém.