Sobre os dias estranhos

Era um dia estranho.
Estava no ônibus a caminho do trabalho.
Do meu lado da janela, o dia se fazia azul, límpido e ensolarado. Desviei meu olhar por alguns segundos e, do outro lado, o céu estava cinzento e tristonho, como se o corredor do ônibus em que eu estava fosse, sei lá como, o que dividisse o mundo entre homens felizes e homens tristes.
Não que eu estivesse particularmente feliz naquele dia estranho. Nem triste. Era só um dia estranho.
Na minha mente, dia feliz e dia triste se encontravam acima de mim, no céu, enquanto o ônibus continuava seu caminho, e se fundiam para formar o dia estranho. Apenas um de tantos e tantos dias estranhos.
Estranho mesmo? Não é só mais uma peça que a cidade de pedra e de mármore em que vivemos pregou para nós? Pode até ser, mas continua estranho.
Porque o céu se tornou vermelho como o sangue e preto como a morte. O sangue derramado pelas armas empunhadas; a morte da memória e da esperança que queimaram até virar pó.
O dia se fez abafado, então, e depois choveu, mas logo parou e voltou a chover só um pouquinho. A água não levou a sujeira embora, parece que já caiu meio suja.
Mais uma farmácia abriu no bairro. Padaria só lá do outro lado da avenida, mas será que ainda tem pão? Floricultura em frente ao cemitério, flores e urubus.
A noite caiu. A noite é a noite absolutamente, céu escuro com lua ou sem lua. Garoou uma garoa fina inconsequente e esfriou. Dentro de casa o ar parado ainda era quente, sono sem sonho.
Uma criança morreu de bala perdida sem entender que o dia era estranho; um velhinho sofreu um ataque, mas a ambulância demorou e ele morreu em casa mesmo. Afinal, quanto menos gente souber que o dia é estranho, melhor.
Acordo de manhã e, surpreeesa! Outro dia estranho nasceu.
Vivemos mesmo dias estranhos. Será que eles vão parar ou vamos nos acostumar a eles até que deixem de ser estranhos?
Até que a estranha seja eu.
Se já não sou.
