ABANDONE O MOVIMENTO LGBT

FONTE: blog incandescencia-ponto-org, em 9 de janeiro de 2014
Autoria: JUNO

Queridas mulheres lésbicas, pessoas bissexuais, pansexuais, assexuais, pessoas trans e em especial mulheres trans e travestis deste Brasil,

A hora já passou. Já testemunhamos o que o movimento LGBT (daqui em diante referido como GGGG) nos tinha a oferecer: melhor exemplo patente do que significa o termo “assimilação”. Exemplo patente de que vivemos numa sociedade patriarcal, onde a realidade de gênero onde vai se colocar um homem cisgênero resulta numa realidade de dominação interna ao movimento. Se as nossas demandas e necessidades específicas foram postas e re-postas nas mesas forradas com a bandeira do arco-íris, nos gabinetes limpinhos das instituições onde esta “política” tem sido feita, e foram repetidamente negligenciadas e tratadas como secundárias por tanto tempo, não precisamos de mais evidência. É na nossa carne que já foi gravada com obviedade que estes espaços estão sitiados: sitiados por homens gays cisgêneros que têm agido repetidamente de forma misógina, transfóbica, lesbofóbica e bifóbica.

Internamente aos círculos deste movimento temos assistido silenciadas enquanto a invisibilidade lésbica e o apagamento bissexual imperavam em cima das demandas de pessoas diversas. Assistimos silenciadas enquanto estes homens veementemente defendiam que pudessem casar-se uns com os outros, e que criminalizassem o que chamavam de “homofobia”. Eu digo silenciadas por caladas nunca estivemos. Nossas vozes não estavam ausentes, mas atropeladas. Resistimos. Não vimos este mesmo empenho de luta em direção à Lei João Nery, não vimos este empenho na luta contra a misoginia que atravessa inexoravelmente a realidade de nós, mulheres lésbicas e bissexuais.

Tal acontecimento não é um acidente do destino, ou erro de má gestão. Que nossas pautas sejam esmagadas dentro deste movimento é resultado do fato deste movimento inserir-se dentro do patriarcado, e dentro do patriarcado toda misoginia segue protegida pela irmandade entre os homens, pela misoginia que ensopa a bandeira do arco-íris, bandeira com a qual muito já foi enxugado. Chegou a hora de torcer esta bandeira, e fazer desse sangue água. Chegou a hora de matar nossa sede.

Esqueça o movimento LGBT. Não existe nada a se disputar ou reformar que seja valioso para nosso tempo. Nosso tempo deve ser gastado sabiamente. De nós já arrancam tempo demais quando nos dão as tarefas que não dão para si. De nós já arrancaram tempo demais ao nos botar para trabalhar sem receber nada em troca: mulheres trans e travestis e drag queens sempre estiveram nas trincheiras deste movimento, estivemos na sua origem, estivemos em cada passo. Isto foi trabalho não pago. E trabalho não pago é exploração. E no que trabalhamos e sangramos, não nos vimos representadas. Não vimos a misoginia e em especial a transmisoginia sendo atacada. Nós vimos travestis sendo colocadas na presidência destes grupos como enfeites. Nós vimos as estatísticas sendo infladas com as mortes das travestis — estatísticas que o movimento GGGG chamará de “mortes por homofobia”, e não de transmisoginia, de transfobia, como de fato é. Este movimento não era nem muito menos é combatente árduo do que nós sofremos especificamente. Se estas estatísticas estão altas assim, não é também por acaso. O movimento GGGG é também quem encharca esta bandeira.

Não existe potência a se resgatar. Abandone o movimento LGBT. Organização política entre as pessoas trans, em um movimento trans, é o que precisamos para chegar a algum lugar. Organização política entre mulheres lésbicas, entre as pessoas bissexuais e pansexuais, assexuais é o que alavancará estas lutas. Sujeitar-se à mediação e à aprovação de homens gays cisgêneros é um desperdício de tempo ao qual nossa paciência já deveria ter se esgotado. Se ainda a temos, é porque o movimento GGGG fez bom trabalho em mascarar a realidade de forma a fazer parecer que ele era a única via. A fazer parecer que se não lutávamos ali não havia onde lutar. Forjemos então nossos espaços, bordemos nossas bandeiras — pois a bandeira do arco-íris não me representa, e se você se sente representar por ela talvez seja boa hora para repensar o que ela realmente significa: apagamento lésbico, monossexismo, transfobia. Ninguém reconhece esta bandeira como uma bandeira de nossas lutas, mas como uma bandeira de luta contra a homofobia e nada mais. Esta não é a nossa luta: nós possuímos especificidades e precisamos dar cabo de nossas lutas.

Estes homens irão nos pedir paciência. Mulher, não lhes dê essa paciência. Pessoas trans, não lhes dê essa paciência. Mulheres trans, por favor, por favor, não lhe dê essa paciência. Não é paciência que querem: é silêncio. Nos prometerão como padres que nossa hora chegará. E assim como o padre, estão mentindo.

Não quero sugerir que não devemos manter laços entre nossas realidades de luta, que não devemos ter solidariedade e nos apoiar mutuamente, não quero dizer que não devemos trabalhar com intersecionalidade. O que quero dizer é que precisamos de autonomia, e principalmente de que precisamos de autonomia em relação a estas pessoas que nos tem travado a participação e a presença.

A misoginia dentro da comunidade GGGG transborda pelas margens. A transfobia chove todos os dias. Isto não é um afirmação aberta a ponderações, é uma constatação de quem a sentiu na carne. É uma constatação a ser compartilhada por quem quiser se dispor a debruçar-se por cinco minutos sobre a questão. Não gastemos nosso tempo empurrando pedras de cinco toneladas morro acima na tentativa fútil de convencer homens cisgêneros a não serem misóginos: contornemos o morro, derrubemos nós as pedras, precisamos fortalecer os movimentos específicos e nos organizar entre nós.

O movimento GGGG falhou conosco. Ele falhou. Falhou em se colocar firmemente contra o capitalismo. Pelo contrário, hoje institucionalizou-se no Estado e assimilou-se como se nosso trabalho enquanto pessoas subalternalizadas pelo heterossexismo fosse gerar dinheiro para grandes capitalistas. Fala-se em “turismo LGBT”, em “família LGBT” (família, uma das instituições que mais tem sustentado e exercido o controle sobre nós) e em “público LGBT” como um nicho de mercado. Nós não queremos ser nicho de mercado. Queremos liberdade e autonomia para as pessoas marginalizadas tanto pelo heterossexismo quanto pelo Capital. As pessoas não-heterossexuais e/ou trans de classe trabalhadora são duplamente subalternalizadas, e numa sociedade que comercializa nossos corpos, nossa sexualidade e nossos gêneros — principalmente os de nós mulheres — isto não significa pouca coisa. Um movimento que se pretende “LGBT” e que não é firmemente anticapitalista é como um movimento feminista que não é firmemente anti-transfóbico. Falha em suas premissas, compromete-se com as ferramentas de quem nos está matando aos poucos.

Abandone o movimento LGBT. Forje solidariedade interna. Leiamos o que o movimento GGGG nunca imprimiu: leiamos sobre monossexismo, sobre transmisoginia, sobre lesbofobia. Digamos aquilo que o movimento GGGG nunca disse: criemos autonomia e lutemos por justiça, e não por um lugar junto às pessoas cis heterossexuais burguesas e brancas. Cansemos de uma vez por todas de sermos rifadas e caladas internamente, a hora é essa e já é por demais tardia. Não existe paciência a se deixar exigir por estes homens. A esta altura do campeonato, separar é unir. Precisamos falar sobre nós agora. E é só sobre nós que falaremos onde nos organizarmos.

Não nos assimilarão!

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22 comentários sobre “Abandone o movimento LGBT”

Zé Libertário em 18 de janeiro de 2014 às 00:46 disse:

Por um novo movimento combativo!

Chega de Parada Gay! Para as barricadas! VIVA A AÇÃO DIRETA!

T.Mendes em 15 de janeiro de 2014 às 22:15 disse:

O texto toca em muitas verdades, mas a crítica ao capitalismo não tem absolutamente nada a ver com o restante, tanto que a homofobia. machismo, transfobia, etc, existem e existiram em sociedades não-capitalistas e muito antes do capitalismo surgir. Inclusive houve e há muita homofobia em países socialistas, como a antiga URSS.

  • Juno em 16 de janeiro de 2014 às 03:53 disse:
  • Oi, T. Mendes.
  • A crítica ao capitalismo tem a ver com o texto a partir do momento que as identidades não-heterossexuais e trans são tornados públicos de consumo, e realidades inseridas no capitalismo. Que é o que são.
  • Sobre terem havido sociedades socialistas heterossexistas e transfóbicas, me confunde. Este é um blogue anarquista, e não é nosso o ponto do leninismo. Ainda que fosse, contudo, não consigo ver esta lógica como procedente. Que tenham havido sociedades heterossexistas e transfóbicas onde o sistema econômico era socialista quer dizer tanto quanto se tivéssemos exemplos de sociedades não-transfóbicas e não-heterossexistas onde o sistema era capitalista. Ambas as coisas são problemáticas isoladamente, e conjuntamente são piores ainda. Que haja uma e não a outra não quer dizer que uma ou outra é menos problemática. Não se trata de querer achar a gênese de uma opressão, mas de destruí-las as duas. E todas as demais.

tallerdeteoriaqueer em 15 de janeiro de 2014 às 13:48 disse:

Concordo com a ideia geral do texto, mas acho que tem trechos onde faz o mesmo que vem denunciar, e isso lhe tira efetividade. Começa mencionando a “realidade de gênero onde vai se colocar um homem cisgênero”, mas no resto do artigo as criticas referem quase só a “homens” ou “machismo”. Em primeiro lugar, falar em “machismo” e “patriarcado” quando se fala da exclusão e invisibilização das pessoas trans, é supor que os homens trans não sofrem exclusões, só por serem “homens” (e supor também que não existem homens trans gays). É um erro similar àquele que o artigo denuncia, pelo qual se fala em “homofobia” como se a transfobia não fosse um problema também (presente, muitas vezes, em quem é alvo da homofobia, enquanto não percebe a própria transfobia). O machismo é um problema, mas também o é a transfobia, e falar de uma espécie de escada de opressões na qual ficariam homens (cis) gays — lésbicas — mulheres trans, implica: 1) deixar de lado os homens trans, especialmente os homens trans gays, bissexuais e pansexuais; 2) obviar as exclusões e os preconceitos que existem dentro do movimento lésbico (por exemplo), que pelo jeito seria imune às criticas; 3) obviar as múltiplas opressões que todxs sofrimos (não apenas por causa do género ou o sexo), pelas quais acontece que uma mulher (cis) lésbica pode ter acesso a muitos privilegios aos quais um homem (cis) gay mas pobre, velho o deficiente, ou mesmo um homem trans, não têm acesso. A exclusão dos homens trans dos espacios de ativismo gay (implicitamente: cis), ou lésbico, ou lgbt, é um exemplo nisso.

Imagino que o objetivo do artigo era se referir em particular as mulheres lésbicas e trans. Mas dá para pensar se essas representações que fazemos dos problemas do movimento não são à sua vez transfóbicas, enquanto não consideram a realidade de todas as pessoas trans, e não evaluam criticamente todas as nossas próprias práticas, mas só aquelas que tem nós como alvo (e não como agente) da opressão.

O movimento que eu quero abandonar é o GGGG, que exclui todo o que não seja homens cis gays brancos, de classe meia, não migrantes nem deficientes; mas também o LLLL que exclui todo o que não seja mulheres cis, lésbicas, brancas, de classe meia, “gold star”, não migrantes nem deficientes, o TTTT que só pensa em mulheres trans, sem incluir homens trans por considerar que por serem homens não sofreram as exclusões da transfobia… Enfim, qualquer movimento que não se pense em aliança transversal com a luta contra outras opressões, incluidas aquelas que nós mesmxs exercemos sobre nossxs irmãos e irmás.
[Disculpas pelo Português!]

  • Juno em 16 de janeiro de 2014 às 03:48 disse:
  • Oi, tallerdeteoriaqueer.
  • Me interessa muito um movimento TTTT que contemple não só mulheres trans e também homens trans, mas também as pessoas trans não-binárias e pessoas que têm vivências atravessadas pela transfobia e principalmente pela transmisoginia.
  • Coloco, sim, de tal forma a falar de homens porque falo deste grupo como classe. Me incomoda que assim que falemos sobre homens se levante “mas há os homens trans” porque isto me parece uma tendência individualista de pensamento. O mesmo poderia ser dito se eu falasse somente “homens cis” e esquecesse de chamá-los de brancos, sem deficiência, burgueses, etc, etc, etc.
  • Tomo como evidente que não estou falando que homens trans devem ser excluídos quando falo de homens, haja vista que a lista seria longa se eu fosse enumerar tudo aquilo que há de opressão que atravessa as vivências de homens. Acredito que esta generalização é especialmente necessária na hora de debater transmisoginia.
  • Abraços!

Rômulo Filho em 15 de janeiro de 2014 às 02:01 disse:

Excelente texto: é um tapa na cara de muitos nas lideranças LGBT. Gente como por exemplo, Luiz Mott, que escreveu um livro asqueroso chamado “crônicas de um gay assumido” e que atesta toda essa visão que aqui é combatida.

E não é algo que se nega. Já ouvi comentários muito machistas e misóginos partindo de homens homossexuais. A própria realidade e visibilidade LGBT prioriza o homem branco e cisgênero. Digo que vai mais além — é só uma forma do patriarcado se projetar.

Por outro lado, não acho que gente como Harvey Milk e afins seguiriam esta forma de raciocínio. Não foi com este fim que, penso eu, a militância LGBT começou. Como em tudo o que é movimento, sempre tem babacas para estragar e perverter todo um ideal.

Mas aí me questiono dentro do que o texto aparentemente propõe: é criando mais facções e individualismos, para por sua vez reproduzir-se como um câncer da falta de caráter humana? Me parece anacrônico quando o autor cita o capitalismo como um objeto de combate originalmente a ser combatido.

Acho que a hora da consciência, mais do que nunca, é agora.

  • Juno em 16 de janeiro de 2014 às 03:45 disse:
  • Oi, Rômulo.
  • A autora do texto, eu, é uma mulher.
  • Não se trata de individualismo, pelo contrário: é uma necessidade organizativa e coletiva. Mas organizada com as pessoas certas. É preciso partir de algum ponto comum, e com homens cisgêneros não tenho lutas em comum no que tange gênero. Esta luta é minha para com minhas irmãs e demais pessoas trans.
  • Sobre o capitalismo ser anacrônico, creio que só quando ele deixar de existir. Pro momento, está me parecendo bem atual.

Marcelo Reges em 13 de janeiro de 2014 às 12:37 disse:

Muito triste o texto. Estamos cheios de ódio. E este ódio corrói tudo e se volta contra nós mesmos. E isto que o opressor quer que nós nos destruamos. Ele quer que nós sejamos nossos próprios algozes. Eu sou um homem homossexual e feministas. Sei que existe muitos homens homossexuais misógenos e homofógicos, como também existem lésbicas misógenas e homofóbicas. Acho que temos criar novas táticas para lidar de forma critica dentro do próprio movimento. Este texto “Kamikaze” só enfraquece. Eu acho que temos que lutar juntos. Como alertam vários estudiosos do comportamento humano (Michel Foucault, Zigmund Bauman etc) a fragmentação das lutas é a principal arma do sistema capitalista para fragilizá-las. É muito mais difícil lutar contra o machismo e a homofobia no movimento LGBT do que formar um outro movimento….mas fraco… menor…. e invisível. Fica a minha tristeza ao perceber que o ódio esta tomando nossos corações.

  • Juno em 16 de janeiro de 2014 às 03:43 disse:
  • Oi, Marcelo.
  • Sim, o opressor não quer ser odiado. Ele quer ser amado e tratado com paciência e carinho.
  • E sim, estou cheia de ódio.
  • Beijo!
  • Luz em 16 de janeiro de 2014 às 23:10 disse:
  • O ódio é um afeto muito potente, que a ideologia burguesa nos faz subestimar. Revolução nenhuma ocorre sem revolta. A grande questão que me parece aqui é que o movimento GGGG não tem comprometimento com revolução alguma, se tornou reformista e invisibilizador da própria diversidade que diz defender.

Jonathan Chasko em 11 de janeiro de 2014 às 02:08 disse:

Como homem homossexual cisgênero, não lhes peço paciência, lhes peço didática, não sei como dizer, mas eu quero tomar as suas lutas, sejam nos QGs, sejam nas linhas de frentes, mas nos falta conhecimentos, a nós novos integrados à luta LGBT.

Lucas em 10 de janeiro de 2014 às 23:26 disse:

Obrigado por escrever um texto tão sincero! Espero que os líderes dos grupos GGGG leiam e entendam a idiotice que eles cometem.

Augusto em 10 de janeiro de 2014 às 13:07 disse:

ia bem até o penúltimo parágrafo…
diz que é pra fazer movimentos mais específicos, e depois exige um combate ao capitalismo em todos os movimentos??
Retirando o trecho referente ao capitalismo, achei fantástico o texto.
sou homem, heterossexual, e infelizmente não vivi na carne essas discriminações, mas pude percebê-las através do texto.
obrigado

  • Juno em 10 de janeiro de 2014 às 15:20 disse:
  • Retirando-se a crítica ao capitalismo, tudo fica mais gostoso, né?

glamuorosamente em 10 de janeiro de 2014 às 12:34 disse:

Lindo texto, eu completamente de acordo, vale ressaltar que o próprio conceito de gay é muito mais um modelo de consumo do que conduta sexual, os “gays” hoje em dia nada mais são do quê os perfeitos cidadãos capitalistas, consumistas, pouco ou não politizados e completamente imbecis, vejam o que é hoje a parada gay? Um circo, um micareta gay feito para heterossexuais reafirmarem estereótipos que concebem o indivíduo como apenas sexual, sem nenhuma outra possibilidade… O que mais vi e vejo nos movimentos LGBTTI ou melhor GGGGG é misoginia e preconceito, fora isso o próprio aparato político que se apropria das lutas populares faz muito bem seu trabalho de iludir os oprimidos e tornar velhos companheiros de luta em opressores, acho que as pessoas espancadas em São Francisco teriam vergonha de constatar no que se tornou este dito movimento.

  • Paulo Roberto em 11 de janeiro de 2014 às 20:50 disse:
  • Verdade!
  • Pelech Jones em 15 de janeiro de 2014 às 10:53 disse:
  • Pura verdade, triste verdade.
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