Confissões do solstício de Câncer

(01)
Quando eu era muito nova, eu era a maior C.D.F.
Mas conforme entrei e avancei na adolescência,
tornei-me mais e mais irreverente.

(02)
A molecada FDP da vila onde eu morava me chamava de “computador” ou de “enciclopédia”.
Naquela época, ainda havia aulas aos sábados.

(03)
E como eu era uma doente mental, em 1970 e 1971 eu desejava que houvesse aula também aos domingos.

(04)
Eu não era capaz de entender, OU de admitir, que êsse desejo era apenas um reflexo de que a minha ex-família era um tédio total.

(05)
Até 1975, eu não sabia o que era matar uma aula.
E quando perdia aulas porque estava doente, eu me sentia culpada.

(06)
Mas tudo mudou (e para melhor) em 1976.
Long stories…
Todas envolvendo a recém-inaugurada Linha Norte — Sul do metrô de São Paulo.

(07)
Em 1977, atingi a idade mínima necessária para
ingressar na biblioteca municipal Mario de Andrade.

(08)
Agora eu tinha uma nobre desculpa para fugir da escola onde eu tinha nada mais o que aprender.

(09)
Educação Física? Eu sempre odiei. E passei a matar essas aulas também e principalmente,
até quase estourar o limite de 25% de faltas.

(0A)
Numa manhã de 1978, o professor de Matemática me perguntou por que eu havia faltado no dia anterior. E antes que eu pudesse responder,

(0B)
êle mesmo respondeu:
“Ah!, você se casou?”
FIQUEI SEM PALAVRAS.
Êle continuou:
“Se casou com quem?”
“Ah!, foi com ela?”

(0C)
êle disse, apontando para a loirinha ashkenazi da turma, a Rosemberg.
E completou: “Você está de parabéns, fez uma ótima escolha”.

(0D)
Em 1980, cometi o êrro de ingressar no Cursinho do Grêmio Politécnico,
no bairro do Bom Retiro,
por insistência da minha irmã nº 3.

(0E)
Eu não precisava disso pra conseguir ingressar na USP.
Eu precisava só de disciplina e de empenho.
Mas independente disto,

(0F)
eu ainda não sabia que entrar numa faculdade,
e depois ter uma profissão com diploma de nível superior,

(10)
NÃO ERA o que eu realmente queria,
ou/e precisava-de.

(11)
No final de janeiro de 1981,
compro o jornal O Estado de S. Paulo,
abro a página com os resultados do vestibular da FUVEST,

(12)
e encontro o meu nome impresso lá.
Não senti alegria, nem satisfação.
Senti apenas uma grande pergunta:

¿E DAÍ?

(13)
Eu devia ter desistido naquela hora mesmo,
e que se fodessem os protestos da minha ex-família.
Mas burra que eu era, persisti no êrro.

(14)
Fui a 1ª politreca a levar um rádio-gravador
para a sala de aula e me alienar com o auxílio luxuoso de um
headphone improvisado.

(15)
Quem não tinha um Sony Walkman nem um radinho FM contrabandeado,
se virava com um rádio-gravador CCE Collaro mesmo.

(16)
Mas não era só nas salas de aula da Poli que eu fugia da realidade;
nas cabines de leitura da biblioteca do I.M.E. também.

(17)
Nossa professora de Cálculo era a Maria Izabel.
Meio narigudinha, mas bonita e gostosa.

(18)
Quem não a tinha como professora,
mandava os colegas assinarem a lista de presença &

(19)
& “migrava” para as turmas para as quais ela foi designada.
Hômis fazendo homices, deveras.

(1A)
Durante todo o ano de 1982 eu definitivamente estive em uma fase
“neptuniana”. Muito romântica e muito melosa, entre outros “defeitos”.

(1B)
Parte de mim não gostava nem um pouco disso.
Mas eu não sabia como evitar.
Também não queria evitar.

(1C)
Muitos passeios solitários no bairro de Moema.
Muitos passeios no Brooklin com a agradável companhia de uma amiguinha colorida.

(1D)
Muitas manhãs e muitas tardes no apartamento da mesma.
Muitos chàzinhos, muitos pastèizinhos e muitos docinhos também.

(1E)
E as aulas na Politécnica que se fodessem!

(1F)
Aprender um pouco de egýpcio hieroglýphico era muito mais interessante pra mim.
Êste era o livro que eu estudava na Mario de Andrade.

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