Excurso: Alternação e Biografia (Ou: Como Adquirir um Passado Pré-Fabricado)

NOTA: êste é um excerpto de um dos capítulos do livro “Perspectivas Sociológicas” de Peter Berger.

No capítulo anterior tentamos demonstrar como o surgimento de uma consciência sociológica é particularmente provável numa situação cultural caracterizada pelo que chamamos de “alternação”, a possibilidade de opção entre sistemas de significados diversos e às vezes contraditórios. Antes de passarmos à parte principal de nossa argumentação, que será uma tentativa de esboço de certos aspectos chaves da perspectiva sociológica sobre a existência humana, gostaríamos de nos deter por mais um momento nesse fenômeno de “alternação”, afastando-nos um pouco de nosso rumo e perguntando que importância esse fenômeno poderá ter para um indivíduo que tente compreender sua própria biografia. Este excurso poderá deixar
claro que a consciência sociológica constitui não só uma interessante novidade histórica que se pode estudar com proveito, como também uma ação bastante real para o indivíduo que procura ordenar e dar sentido aos fatos de sua própria vida.

Segundo o consenso geral, nossa vida é constituída por uma determinada seqüência de acontecimentos, cuja soma representa nossa biografia. Escrever uma biografia, portanto, consiste em compilar esses acontecimentos em ordem cronológica ou de importância. Entretanto, até mesmo um registro puramente cronológico suscita a questão de quais os acontecimentos que devem ser incluídos, uma vez que nem tudo quanto o biografado fêz pode
ser registrado. Em outras palavras, até mesmo um registro puramente cronológico levanta questões referentes à importância relativa de certos acontecimentos. Isto se torna evidente ao se decidir aquilo que os historiadores chamam de “periodização”. Exatamente em que ponto
da história da civilização ocidental devemos supor que tenha começado a Idade Média? E exatamente em que ponto da biografia de uma pessoa podemos supor que sua juventude tenha terminado? Tais decisões são feitas quase sempre com base em acontecimentos que o historiador ou biógrafo consideram “momentos críticos” — digamos, a coroação de Carlos Magno
ou o dia em que Joe Blow decidiu tornar-se membro da igreja e permanecer fiel à mulher. Contudo, até mesmo os mais otimistas historiadores e biógrafos (e também ou autobiógrafos) têm seus momentos de dúvida quanto à escolha desses acontecimentos verdadeiramente decisivos. Podem pensar, por exemplo, que o verdadeiro momento crítico não foi a coroação de Carlos Magno e sim o momento em que ele completou a conquista sobre os saxões. Ou que talvez tenha sido o momento em que Joe renunciou à sua ambição de se tornar escritor que realmente marcou o começo de sua idade madura. É óbvio que a decisão entre um acontecimento ou outro depende do quadro de referência pessoal.

Este fato não passa inteiramente despercebido ao consenso geral. É encontrado na opinião de que é necessária uma certa maturidade para que se possa realmente compreender o que foi a vida passada. Por conseguinte, a consciência madura é aquela que possui, por assim dizer, uma posição epistemologicamente privilegiada. Tendo chegado à meia-idade, e depois de
aceitar o fato de que sua mulher nunca vai ser mais bonita do que é e que seu emprego como subgerente de publicidade nunca vai tornar-se mais interessante do que é, Joe Blow lança os olhos para o passado e chega à conclusão de que suas antigas aspirações de possuir muitas mulheres belas ou de escrever o romance definitivo do século eram inteiramente imaturas. A maturidade é o estado de espírito que se acomodou, que se conciliou com o status quo, que renunciou aos sonhos mais atrevidos de aventura e realização. Não é difícil perceber que tal noção de maturidade desempenha a função psicológica de dar ao indivíduo uma justificativa para a redução de suas expectativas. Tampouco é difícil imaginar que o jovem Joe, se possuísse o dom da vidência, teria renegado sua meia-idade como uma imagem de
derrota e desespero. Em outras palavras, diríamos que a noção de maturidade conduz realmente à pergunta do que é e do que não é importante na vida de uma pessoa. Aquilo que para um certo ponto de vista pode parecer sensata maturidade, para outro não passará de covarde transigência. É preciso admitir que envelhecer não representa necessariamente tornar-se mais sábio. E a perspectiva de hoje não tem nenhuma prioridade epistemológica sobre a do ano passado. Aliás, é exatamente isto que faz com que a maioria dos historiadores atuais encare com muita reserva qualquer idéia de progresso ou evolução nas coisas humanas. É muito fácil considerar nossa própria era como epítome do que os homens fizeram até agora, de modo que qualquer período passado possa ser julgado numa escala de progresso em termos de sua proximidade ou distância do ponto em que nos encontramos. É possível que o acontecimento decisivo na história do homem neste planeta tenha ocorrido uma tranqüila tarde do ano 2045 a.C., quando um sacerdote egípcio despertou de sua sesta e de repente percebeu a resposta final ao enigma da existência humana — e imediatamente morreu sem nada dizer. Talvez tudo que desde então aconteceu não passe de um poslúdio inconseqüente. A ninguém é dado saber, com a possível exceção dos deuses, cujas comunicações parecem lamentavelmente ambíguas.

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