A faculdade não tem de ser um espaço neutro. Para ninguém.

Desconsiderando toda a questão social que envolve o estar numa faculdade, queria aqui fazer algumas considerações quanto a faculdade ser um lugar de embates e debates.

Claramente a faculdade tem que ser um ambiente seguro no sentido social. Um ambiente livre de machismo, de LGBTfobia, de racismo e igualmente de preconceitos de classes. Apenas quanto a este tópico caberia todo um texto sobre como é hoje e como devem ser as faculdades. Contudo, a faculdade não deve ser um ambiente que apenas reforce as crenças e suas ideias de quem as frequenta. Ela deve ser o momento de embate. O momento de discussão e de crescimento.

O ambiente acadêmico deve ser o construído de forma a possibilitar e aperfeiçoar o diálogo. Deve ser o ambiente que fortaleça a retórica nos seus frequentadores. A atividade pedagógica em sala de aula deve ser aquela que pressupõe uma existência de pessoas interagindo de diversas formas e que existe todo um mundo cindido fora da sala.

O ambiente que eu vivi na faculdade foi muito bom para debates. Principalmente por que eu era sempre o “do contra” quando professores bradavam que o direito “tem que ser” assim para “dar certo” ou então que as leis assim o são “por que o legislador quis”. Nesse ambiente a minha fala era muito distoante. Contudo, posso dizer com toda a certeza que tive colegas que entraram na faculdade com uma ideia de mundo e selecionaram a dedo as ideias que convergiam com aquela, iam nos eventos que reforçavam a mesma e foram levando a faculdade assim. Não levando um argumento contra sequer.

Eu me pergunto se eu aceitaria isso tão tranquilamente. Sempre que estou vendo uma aula, palestra, debate e não fico ao menos um pouco incomodado com o que está sendo ensinado tenho aquela sensação de “tem algo errado”. O ensino é para me incomodar. É para me fazer ter uma motivação de sair da aula e querer abrir um livro para ver mais sobre o assunto.

Alias, aula que morre em si é uma aula natimorta.

Sem essa provocação. Sem essa inquietação. Como podemos questionar? Como podemos nos opôr? E não digo num sentido de retórica ou de conhecimento, digo num sentido mesmo de nos sentir provocados. De nos sentir impulsionados ao próximo ponto.

Existem extremos. Sem nomes, so os milagres. No quinto ano de Direito tive um docente que era famoso por ter traços de insanidade. Insanidade no seu sentido clínico mesmo. Ele ensinava com um autoritarismo que deixariam qualquer ditador orgulhoso e tinha uma postura tão depreciativa em relação ao mundo que o chamar de esnobe não faria jus a sua realidade. Contudo, o pior de tudo era o que ensinava. Ensinava um conteúdo fraco, permeado de absurdos e com erros teóricos do primeiro ao último dia de aula. A aula dele não era inquietante. Era um teatro. Era um circo. Mesmo quando ia de encontro com o que eu havia estudado e tinha como realidade, não era relevante.

Com este exemplo quero dizer outra coisa: Não é apenas o que se fala, é o contexto. O contexto desse senhor do gelo era uma aula circense. Os veteranos 5 anos mais velhos que eu citavam palavra-a-palavra as frases “iconicas” desta figura. Não há uma provocação acadêmica. No máximo uma provocação íntima de chamar materialistas de “burros inconstantes”. Era risível.

Outro exemplo: Uma professora que me lecionou no primeiro e no quarto foi participar de um debate de textos escritos em um evento. Meu texto tinha como pano de fundo a ideia de que a soberania de um país é fluida (dependendo de perante quem ela é absoluta ou não). Essa professora discordava. E ela tinha um tonto ríspido de falar. Contudo, a fala dela foi tão bem colocada que me fez perceber que para tocar o debate eu precisava ler mais do que já havia lido. Só me restou agradecer aos apontamentos e depois ir aos livros.

A faculdade é isso. É lidar com os circo. É lidar com a crítica. Nos cercar de pessoas que pensam como nós e com quem iremos conviver o tempo todo no ambiente universitário é matar a função da universidade.

É matar uma grande chance de aprender.

P.S.

Importante notar: Este texto é meramente opinativo. Eu reparei que por varios momentos observei a minha experiência sem o crivo metodológico que estou me acostumando a ter quando se fala em educação, ensino e aprendizagem. Contudo, creio que o registro e a provocação não percam suas riquezas.

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