A nossa missão pela ciência

Em um dos últimos textos eu falei um pouco sobre o por que da ciência ter de ser levada mais a sério. Coloquei alguns fatos recentes, discussões que incrivelmente ainda são levantadas.

Mas hoje a conversa é outra. Por que temos uma obrigação com a ciência. Temos uma obrigação com a verdade.

Em março escrevi o seguinte texto num grupo de whatsapp com alguns amigos:

Eu acredito que nos próximos anos nós teremos uma enxurrada de idiotices sendo levadas mais a sério. Bom. Isso é claro, mas o que estou me referindo é um crescimento semelhante ao Tea Party dos Estados Unidos e de toda a ignorância e do poder baseado em ignorância que ele acarreta.
Não demora muito o Brasil vai ter uma maioria de políticos que vão se pronunciar, pregar e fazer projetos de lei para assegurar que o Aquecimento Global seja dado como farsa ou como não tão grave ou como só uma possibilidade.
Já existe na população uma grande parcela que ja nega o evolucionismo e até mesmo que a terra é redonda. Claro que isso não é algo natural, mas sim resultado de uma soma de anos de educação fraca baseada em crenças e não em fatos. Uma escola que não ensina. Um grupo político que está disposto a ser porta voz de uma classe econômica que lhe pague o que quiser e se mantenha no poder com regalias.
Isto poderá ser a derrocada da ciência? Creio que sim. Se nos EUA esta cada vez mais difícil se conseguir financiamentos para pesquisas, por ex, relacionadas ao espaço, no Brasil onde isso já é raridade teremos cada vez menos possibilidades de tais questões prosperarem.
E nas humanas isso será um golpe ainda maior. Somado este fato com o fato “anti-comunista” que vivemos, qualquer pesquisa que fale sobre Estado Social ou sobre direitos em geral serão cortados, serão limados, e terão pleno apoio popular pois acreditam que pesquisas como essas é que são o problema, longe da solução.
E o que fazer?
Novamente, baseado no que acredito, creio que o ideal será se armar do conhecimento científico quanto a dicotomias igreja x ciência e de grandes marcos da ciência para se combater a ignorância e o ódio com saber, mas também estar preparado para a defesa pessoal contra os ataques reais que podem acontecer, assim como conquistar espaços políticos e de trabalhos.

Perceba, não falo nem de ser de esquerda ou direita para participar de tais espaços políticos. A luta será por algo ainda mais fundamental do que os interesses econômicos (com as devidas ressalvas).

Nos próximos anos a nossa luta será pela mera ciência. A nossa luta será contra a ignorância. Mesmo que não estejamos de acordo com este ou aquele ponto ou que achemos não-satisfatória uma resposta científica, nossa luta será pelo simples direito de podermos ter ciência.

Parece algo besta mas desde março esse cenário já se alterou. No Brasil o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação foi um dos primeiros a ser divulgados como extintos pelo governo do então Presidente Interino.

Bolsas de estudo e incentivos para pesquisa são cortadas pelo Governo Federal e pelos governos estaduais com uma voracidade imensa. Universidades se veem cada vez mais às mínguas. Projetos culturais são descontinuados a bel prazer de governantes. As torneiras se fecham para a ciência e se mantém abertas ao poderio econômico, empreiteiras e afins.

E aqui ainda cabe mais um ponto. A sangria está sendo imensa. E nas humanidades ela será ainda maior. Critérios para seleção de bolsas são cada vez mais voltados à produtividade e ao benefícios às ciências naturais, que são vistos como realmente ciências ao contrário das humanidades que são vistos, graças à uma campanha contínua e difamatória (que vem de anos), como coisas secundárias ou inúteis.

Caberá a nós, pessoas com apreço pela ciência, estudar a mesma, se apropriar de conceitos chave e de discussões chave para entrar em embates diretos e constantes em defesa da verdade.

O que eu acredito que sejam estes principais conceitos? Uma pequena lista

  1. Um conceito do que é ciência e seus principais marcos, principalmente entendendo que a ciência não é democrática e não está aberta para “achismos”, a não ser que estes sejam hipóteses reais de pesquisa.

2. Evolução. Com o crescimento de fanatismos religiosos de todos os lados, se apropriar do conceito de evolução e evolução genética talvez seja um dos principais pontos a serem levados em consideração.

Vamos falar da evolução do Dawkins em um zuero?

3. Conceitos básicos de astrofísica. Aqui acho que mais pra conversas sobre ciência em geral do que se realmente entrar neste assunto.

Ces acharam que eu não ia achar um lugar pra colocar o Sagan ❤ Ausência de prova não é prova de ausência.

4. Relevância das humanidades. Com o arrocho de verbas para Universidades e pesquisas as pessoas tenderão a achar mais relevante estudar a flexibilidade do rabo da lagartixa azul indoeuropeia do que estudar economia e comportamento social. Caberá aos interessados em uma sociedade que progrida defender a importância das ciências humanas.

5. A relevância da formação completa. Também com o tempo a tendência é que as pessoas defendam cada vez mais o ensino técnico ao ensino humanístico. Vejam bem, não estou dizendo da formação técnica em escolas técnicas apenas mas sim que o ensino regular deva ser voltado para a formação para o mercado de trabalho. A tal “Reforma do Ensino Médio” que foi proposta pela Presidência da República é exatamente a exacerbação disso. Você literalmente proíbe de forma institucional que os estudantes tenham contato com todas as áreas do conhecimento de forma decente. Se ensina apenas o básico e de forma que os conteúdos não conversem entre si e nem possam gerar nenhum tipo de saber real no aluno.

6. Direito. As pessoas com o tempo vão querer dizer que tem mais direitos do que realmente tem e por outro lado dirão que as outras pessoas tem menos direito do que dizem ter. Um estudo sobre direito e Constituição será necessário. Além disso, um estudo mais aprofundado sobre as contradições do direito, principalmente da Magistratura e da jurisprudência, será o que irá armar as pessoas que quiserem discutir sobre isso.

6.1 Democracia. Entender o formato atual e um formato mais justo de democracia e suas implicações também será essencial para debates futuros.

Enfim, estes são alguns tópicos. Creio ainda que quando não tivermos conhecimento sobre um assunto em específico podemos ter como referência outras pessoas que poderiam nos ajudar nessas discussões ou em defesa de opiniões específicas.