Reflexão sobre Black Mirror

Contém spoilers sobre a primeira e segunda temporada de Black Mirror

Essa semana a Netflix liberou trailer anunciando a data de lançamento da terceira temporada de Black Mirror, que agora é produção da própria casa.

Com este evento eu consegui acompanhar uma série de posts no Facebook e tweets sobre o assunto e, de um deles em específico tiro a base da reflexão deste texto.

Segue:

“A Paranoia tecnológica está de volta no novo trailer de Black Mirror”

Com o texto do tweet eu pensei: Paranoia tecnológica?

Confesso que sem pesquisa mas comecei a me questionar: Será que as pessoas veem Black Mirror como uma espécie de futuro distópico de grandes tecnologias?

Vim escrever o texto. Para sistematizar o que penso sobre a série.

Será que não entendemos que a série é sobre nós? É uma alegoria para nosso dia a dia.

Logo no primeiro episódio de BM, “Hino Nacional” em português, nós já somos levados à uma Inglaterra que poderia ser muito bem 2016. Não tem nada de tão louco ou tecnológico nela. A ideia central é: A nossa sociedade de espetáculos se submeteria a algo tão repugnante quanto ao sexo com animais ao vivo? E, caros e caras, a resposta é sim. Nós sabemos disso. Não precisa mais do que uma rodada nos canais de televisão, abertos ou fechados, para nos depararmos com situações grotescas.

A internet não foge à regra. Um dos sites mais famosos entre as pessoas da minha sala e do meu convívio lá quando a internet discada era regra (olá 2005) era o “assustador.com.br”, com cenas de pessoas decapitadas e pedaços de corpos. Eu tinha amigos que entravam diariamente procurando coisas “gore” para ver.

Voltando à série, claro que é uma hipérbole. O roteiro é uma exacerbação com o nosso dia a dia situados dentro de uma indústria de entretenimento e o fim do episódio, em que descobre-se que a vítima já tinha sido liberta mas ninguém a encontrou pois estavam vendo a tal situação asquerosa e repugnante, é um tapa na cara de todos nós.

Todos. Isso inclui o leitor. Isso inclui este autor.

E isso não é novo. Há o mítico fato de que os Beatles se apresentando no Ed Sullivan Show teriam diminuído a taxa de criminalidade dos EUA durante a apresentação (e a única fonte que achei mais questionadora sobre foi essa).

Te garanto que em algum momento o Simon Cowell foi jurado do programa.

A tecnologia então não é ponto nevrálgico sobre a série. Ela é um acessório. Sempre digo isso sobre todos os aplicativos e sobre todos os devices: É ferramenta.

Os alunos não prestam mais atenção na aula”. Concordo. Perante este cenário o professor tem duas escolhas: Uma batalha (que irá perder) ou abraçar a ferramenta.

E Black Mirror usa da tecnologia a sua ferramenta para mostrar a desconexão entre as pessoas, a sociedade do espetáculo em suas mais diversas facetas, a glamurização do sofrimento e etc.

Acho que esse episódio já citado do Primeiro Ministro é um exemplo disso e o episódio “Urso Branco” é, na minha opinião (talvez por ter estudado direito isso seja relevante), o mais gritante de todos.

Uma mulher acorda todos os dias em um cenário criado e vive aquele dia como se fosse a primeira vez que acontecesse toda a história, o que de fato para ela é real, visto que apagam sua memória todo dia. Enquanto ela, totalmente desapercebida da realidade, tenta entender o que está acontecendo uma série de pessoas ficam em volta dela com celulares a gravando.

No fim, descobrimos que a personagem central cometera um crime e por ele fora condenada. Sua pena foi ser objeto deste “parque de diversões” onde as pessoas vão para gravar como seria o seu próprio ponto de vista dentro da história que a condenada “produz” naquele momento.

Episódio fantástico. Glamurização das penas de forma clara. Me diga, qual a grande diferença se há ou não um celular ali? Pois está e a principal tecnologia presente no episódio todo, com exceção do tratamento neural que a condenada recebe para ter sua memória apagada. Poderia ser uma série de pessoas de máscaras assistindo. Poderia ser qualquer coisa. Mas BM traz então uma crítica dupla:

Primeiro, as pessoas pagam para ver uma cena de desespero de perto. É um show. Um espetáculo.

Motoqueiro cai de viaduto

Segundo, elas querem registrar seu ponto de vista do show que pagaram pra ver.

Não há nada de futuro distópico tecnológico. Há uma hipérbole de nós.

Finalizando

Black Mirror logo está aí de novo para vermos mais uma série de episódios e termos aquela deliciosa, pelo menos para mim, sensação de terminar um episódio com mais dúvidas do que começamos.

P.S. 1: Breve nota sobre Trump

Em um episodio da série, um personagem virtual de pelúcia concorre a um cargo político, o Waldo. Novamente, uma hipérbole. Uma figura engraçada, controversa, que “fala o que pensa” e que vem da mídia.

Qual seria a grande diferença entre Trump e Waldo? Um é real e o outro é formado por bits? Aliás, a candidatura de Trump é algo real? Ou é mais um personagem construído?

Ou todos os políticos são exacerbação de personagem? De arquétipos?

P.S.2: Séries que me deixam com mais perguntas que respostas e pensamentos sobre a realidade.

The Newsroom — Apaixonante e ao mesmo tempo aterrorizante sobre como há uma construção sobre o Tea Party nos EUA em parte da série e como isso hoje é cada vez mais real no Brasil. Assunto pra outro texto.

The 4400 — A série não teve lá um grande desenrolar ou desfecho mas é interessante para pensarmos sobre o que aconteceria se pessoas que sumiram há anos de repente voltassem.

The leftovers — 2% da População Mundial sumiu. Do nada. Ao mesmo tempo. O que acontece com a sociedade?

House Of Cards — A unica na lista que não tem “The” no nome e que dispensa apresentações.

E você já se olhou no seu Black Mirror hoje?

Tem mais séries para indicar? Indique!

Concorda, discorda? Comente.

Até o próximo texto.

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