Páginas Inquietas: Sobre documentos insubmissos

Este texto é a folha de sala da exposição Páginas Inquietas, patente no Espaço Mira, Campanhã. Tal como a exposição, foi concebido por Susana Gaudêncio e Mário Moura. Para já, disponibilizamo-lo online sem grandes imagens para que não concorra com a exposição, para que quem não foi tenha um estímulo para ir, e quem foi possa consultar facilmente o comentário do que viu. Com o tempo acrescentaremos mais imagens.

©Márcia Novais

Folha de Sala, Folhas de Rua, Folhas

Alguns são objectos pequenos, portáteis, que se escondem num bolso ou na palma da mão. São assim para circular discretamente ou porque não há dinheiro para mais. Resumem-se a uma folha impressa dos dois lados e dobrada para dar a ideia de revista. Outros são grandes, demasiado grandes, é difícil desdobrá-los, as suas páginas viram-se com estardalhaço. Lê-los em público chama necessariamente a atenção, incomoda a pessoa no lugar ao lado, da mesa do fundo, põe as línguas a abanar. São o equivalente impresso de um guna que ouve música alto no telemóvel. Outros ainda não passa pela cabeça de ninguém lê-los fora de casa: vêm em formatos estranhos, exóticos, caixas, posters que se dobram para fazer páginas, encadernações de elástico, capas que brilham como os espelhos com que se fazem sinais a partir de uma ilha deserta. Alguns são novos acabados de fazer; outros envelheceram, melhor ou pior. O mesmo formato que os tornou tão estranhos e ofensivos ameaça destruí-los finalmente, rasgá-los, torcê-los, esmagá-los.

Apresentam-se aqui publicações cujos temas são políticos, sociais ou subversivos. E cujo aspecto gráfico chama a atenção. Tenta-se perceber se a sua política se alicerça — ou não — nas suas formas gráficas, no seu formato, nos seus materiais. É apenas isso.

©Espaço Mira

Decidimos mostrá-los em vitrinas porque a maioria é frágil, antiga ou complicada de manusear. Fizemos um filme para dar uma ideia do seu interior. É o possível, como é evidente. Muitos destes objectos já só circulam enquanto documentos ou peças de colecção, tratá-los como se tivessem acabado de ser impressos, como se não fizesse diferença nenhuma à sua integridade folheá-los ou lê-los seria um acto de ostentação acima das nossas posses, com o qual não viveríamos bem. Mas quase todos já foram reeditados ou os seus conteúdos podem ser acedidos na internet gratuitamente. O que fica nestes objectos é a sua matéria, o seu design. E isso, para o melhor ou para o pior, é indissociável da sua fragilidade actual.

É preciso que se entenda que não nos preocupa muito (mesmo nada até) a acusação ou aviso habitual que se faz quando se trazem objectos políticos ou subversivos para o museu ou para a galeria — que isso implica a sua morte no sentido de perderem a ligação ao contexto original, de o seu carácter político se diluir, a sua força, etc. Duvidamos. Esta exposição dura pouco mais de um mês. Não será isso que os vai matar.

Mas, no caso de falecimento, são só estas cópias que batem a bota ou é a tiragem toda? Isto são objectos produzidos em série, feitos por muita gente e transmitidos por uma cadeia mais ou menos longa de pessoas até chegarem aqui. Muitos os viram e leram. Ou simplesmente ouviram falar e tentaram coisas parecidas. Não há um uso correcto, original, para eles. Não vai ser a nossa exposição que lhes vai fixar um sentido final; nem acreditamos que alguém o tenha feito ou o venha a conseguir fazer.

A vida, ou melhor a longevidade de um objecto não depende apenas do seu lugar de origem mas dos modos como foi apropriado, interpretado, coleccionado, citado, etc. A revista Internationale Situationniste, por exemplo, foi usada como base do Punk inglês nem tanto pelo seu conteúdo textual denso e difícil mas pelas ilustrações, colagens e slogans. Foi lida pela rama e julgada pelas aparências. Daí parte da sua influência. Se uma publicação ainda tem hoje algum impacto, se é lembrada de todo, é porque ainda é alvo desses processos de interpretação, apropriação, misapropriação. É por ser discutida e reclamada por contextos e ideologias por vezes antagónicos entre si.

Escolhemos apresentar estas publicações enquanto documentos. Não nos interessa vê-los como relíquias. Não nos interessa fazer desta exposição um parque temático ou uma sessão espírita. Isto não é um jardim zoológico, um diorama ou um relicário. Ou seja, estas são coisas de papel e tinta. Toda a vida que têm neste momento, aqui nestas vitrinas, depende de quem as vê e de quem lhes usa as lições, as ideias. Estão vivas enquanto se pensar sobre elas.

A maioria desta exposição foi feita a partir do material que fomos coleccionando. Alguns objectos foram-nos disponibilizados (agradecemos à Oficina Arara, à Isabel Baraona, aos Ghost, à Dois Dias Edições e à Virgínia Pinho). Tomamos a opção de identificar os colectivos apenas pelo seu nome comum.

Núcleo 1: Subversão pelo correio

Aqui temos publicações concebidas para serem distribuídas pelo correio, que participam da distribuição de outras coisas pelo correio, que foram proibidas ou penalizadas por terem sido distribuídas pelo correio. O sistema postal permitia distribuir publicações com formatos e conteúdos exóticos, agressivos e/ou frágeis demais para serem vendidos numa livraria comum.

Ralph Ginzburg, o editor da revista Eros passou oito meses numa cadeia americana por distribuir a sua revista pelo correio. O conteúdo era ousado para a época. Hoje em dia seria banal. A revista de Domingo de um jornal diário ou até o catálogo de uma loja de roupa pareceriam mais arriscados. Mas Ginzburg estava a pedi-las: como endereço postal, procurou terras com nomes que sugerissem calão sexual: Blue Balls, Intercourse. No fim da revista reproduzia páginas e páginas de talões de assinaturas reenviados para a revista com insultos, recusas indignadas, espirituosas ou secas. Graficamente, era uma publicação imponente, de grande formato em capa dura. O número que mostramos usa contrastes de cores primárias e uma grande variedade de tratamento da fotografia desde a cor ao alto contraste. O design de Herb Lubalin usava com à vontade as vantagens da fotocomposição, que permitia aproximar as letras até quase se colarem — é possível ver esse efeito no próprio título da revista.

O Last Whole Earth Catalogue é provavelmente a revista charneira da contracultura americana entre o final da década de 1960 e 1970. É tida como um antepassado directo da internet, não do seu lado técnico mas de uma acessibilidade universal a recursos, a ideias, a cultura, a arte, etc. Era a utopia, ao alcance duma encomenda postal. Tal como a Eros, é uma publicação de grande formato em todos os sentidos, com um sentido de composição anárquico, desenhada pelo corte e cola de classificados estranhos, sob a imagem tutelar da primeira imagem de todo o planeta Terra que ilustra a capa e lhe dá o nome.

A Aspen: Magazine in a Box era uma publicação sob a forma de caixa, cada uma obedecendo a um tema: o Minimalismo, a Pop, etc. Apresentamos aqui o quarto número dedicado a Marshall McLuhan com design do seu colaborador habitual. Quentin Fiore, que já tinha adaptado os seus textos ao formato de bolso, em The Medium is the Massage e War and Peace inthe Global Village. Esta publicação é portanto um crossover entre dois objectos seminais do design gráfico da década de 1960: os ensaios gráficos de Fiore e a própria Aspen, um projecto de Phyllis Johnson que propunha uma revista multimédia (alguns números incluíam bobines de filme e discos), não hierárquica, que tratava de igual para igual texto, som, imagem, etc.

Núcleo 2: Pasquins de rua

Neste núcleo temos revistas de intervenção directa, que procuram mobilizar, que funcionam tanto como órgãos de movimentos, de colectivos, de causas, como veículos de inquietações, de propaganda, de desabafos, de humor. Apresentamos um conjunto de jornais Buraco, cada um com variedade impressionante de recursos técnicos, gráficos e textuais distintos, que comentam o quotidiano político em Portugal e sobretudo no Porto. Do mesmo espaço de intervenção trazemos um conjunto de pequenos zines de Gui Castro Felga, arquitectados a partir do mínimo de materiais temos também o Espelho, jornal de parede criado por ocasião da vinda da Chanceler Merkel a Portugal em 2012 para reflectir a crise, a austeridade, etc.

Na década de sessenta a Holanda não era o país das bicicletas e das drogas legalizadas. Se o é hoje, deve-o em parte às acções dos Provo. O nome é uma abreviatura de “Provocação”. O grupo funcionou apenas durante dois anos mas teve uma influência duradoura. Orquestraram várias acções a que chamaram os “Planos brancos”, que incluíam a proposta de fechar ao trânsito o centro das cidades (“Bicicletas brancas”), anti-poluição (“Chaminés Brancas”), de partilha de automóveis (“Carros brancos”), etc. A revista Provo era um dos órgãos oficiais do movimento, composta com máquina de escrever, colagens de fotos e desenhos em folhas A4 dobradas ao comprimento. Era ao mesmo tempo económica e memorável, produzindo o máximo de efeito com o mínimo de recursos.

O pasquim Black Mask foi o órgão do colectivo Up Against the Wall Motherfucker, de Nova Iorque, que se descrevia a si mesmo como uma “gangue de rua com um programa”. Os Motherfucker escolheram essa designação em parte porque era um nome que desafiava a censura. A imprensa “séria” nunca o reproduziria. Fizeram um conjunto de acções a meio caminho entre a política e a arte — desde intimidar senhorios e traficantes até fecharem o MoMA. A acção mais memorável foi talvez uma ocupação subversiva do Macy’s onde, disfarçados de funcionários, trocaram os produtos de lugar, soltaram os animais à venda e, vestidos de clientes, fizeram protestos políticos nas filas de pagamento levando à expulsão pela polícia dos verdadeiros clientes. Esta acção seria copiada pelos situacionistas ingleses que invadiram um grande armazém vestidos de Pai Natal, tirando brinquedos das prateleiras para dar às crianças, a quem os seguranças e a polícia iam retirando para choradeira geral.

Contra o amor complacente dos hippies, que não achavam suficiente para assegurar a revolução, pregavam o “Armed Love”, o amor armado. Surpreendeu-nos um fanzine suíço com esse nome, que reproduz entre outras coisas um texto de Ben Morea, um dos fundadores do grupo americano.

A proximidade entre os Motherfuckers e o núcleo situacionista inglês acabaria por levar à expulsão deste último da Internacional Situacionista. Para além de terem popularizado a dérive e o detournment, os Situacionistas foram pioneiros do desamigamento puro e simples. Tiveram um papel crucial no Maio de 1968 — incluímos uma edição trilingue, em Chinês, Francês e Inglês do panfleto Da Miséria no Meio Estudantil que foi um dos catalisadores dessa movimentação e cuja segunda edição foi incluída como separata na revista Internationale Situationniste.

Apresentamos na exposição o quarto número do Situationist Times, dedicado a labirintos e editado por Jacqueline de Jong (também ela expulsa) e o nono número da Internationale Situationniste, o órgão central do movimento, de grafismo simples, textos densos, mas cuja capa metalizada e colagens ajudaram a popularizar o movimento mesmo entre os que achavam os textos cansativos. Como Malcolm McLaren: “Just when you were getting bored, there were always these wonderful pictures and they broke the whole thing up. They were what I bought them for: not the theory.” Ou Jamie Reid: “I was never involved with the Situationists to the fullest extent because I couldn’t understand half of what they written. I found Situationist texts to be full of jargon — almost victims of what they were trying to attack — and you had to be really well-educated to be able to understand them. […] I wasn’t so much attracted to the Situationist theory as to how they approached media and politics. The slogans, for instance, were so much better than the texts.”

Núcleo 3: Revolução, Alegria, Desilusão

Juntamos aqui um conjunto de publicações à roda de um mesmo evento, a Revolução do 25 de Abril de 1974, antecipando-a, comemorando-a, documentando-a, desde a euforia até à desilusão e à memória. Temos publicações a lembrar quem morreu durante a ditadura (um livro dedicado ao Pintor Dias Coelho, morto pela Pide; o último relatório desta organização editado pela Afrodite). O grosso do núcleo é dedicado a várias publicações que documentaram os vários aspectos da revolução através da fotografia, da reprodução de posters, autocolantes, etc. Temos sobretudo ensaios visuais, álbuns de imagens que hoje são considerados photobooks. O mais impressionante pela variedade de recursos gráficos usados é talvez o catálogo Da Resistência à Libertação (1977), que conta através de mosaicos dinâmicos de fotos e de arranjos tipográficos a história de Portugal desde a República até ao 25 de Abril.

Lisboa ao Voo do Pássaro, de João Freire (fotos) e Mário-Henrique Leiria (textos) comenta com sarcasmo a desilusão que se seguiu. A foto de um popular a urinar contra um tapume onde está escrito “Revolução Alegre” é comentada com “é mijar meus senhores/é mijar/à revolução alegre/à revolução traída/em Lisboa/que querem?/é a vida…”. Resume bem o tom do livro.

Núcleo 4: Cidadãos da República Gráfica

Neste núcleo estão publicações que se situam na esfera pública, comentando-a, criticando-a, levantando-lhe um espelho que nos permite vê-la tal como ela é. Escolhemos jornais e revistas informais, exemplos das publicações que se multiplicaram durante a última crise. Apneia é uma simples folha impressa a meio e destinada a ser distribuída durante as manifestações contra o governo de Pedro Passos Coelho. Money Worries é uma banda desenhada onde figuras quase reduzidas a ícones reflectem as contradições do derradeiro ícone, o dinheiro.

Escolhemos periódicos e, se possível, suplementos e separatas, coisas que se foram separando dos seus órgãos de origem para se tornarem em pequenas “Repúblicas Gráficas” independentes e com regras próprias. O título tiramo-lo de um slogan irónico do colectivo Bazooka, do qual apresentamos quatro Un Regard Moderne e os dois últimos Bulletin Periodique. Estes suplementos do jornal Libération começaram como uma contaminação das hierarquias internas do jornal, com o que era apenas ilustrações a infiltrar-se pelas notícias, pelas páginas, etc. A relação entre os Bazooka e a redacção foi agreste chegando-se mesmo ao ponto da expulsão física do colectivo. Eventualmente, a solução foi darem-lhes um espaço próprio, um suplemento mensal onde podiam fazer o que lhes apetecesse. O resultado foram duas séries de publicações de muito grande formato, distribuídas como cadernos autónomos impressos a preto e branco e duas cores. Os Bazooka praticavam uma apropriação agressiva das imagens da actualidade, redesenhando-as como se fossem uma banda desenhada atravessada pelos sólidos geométricos de uma colagem construtivista.

Igual caminho seguiu a revista &etc, que começou como um suplemento do Jornal do Fundão, fundado por Vítor Silva Tavares e José Cardoso Pires e continuaria como revista, identificada como quinzenário cultural e folheca cultural, publicando textos de pendor anarco-surrealista entre 1973 e 74. Mais tarde, continuaria o seu trajecto como pequena editora ferozmente independente. A folheca cultural conseguia com muito poucos meios um grafismo elegante e contemporâneo, de destacar as capas, constituídas por uma única ilustração às vezes geométrica,

A Paródia foi um jornal satírico dirigido por Rafael Bordalo Pinheiro entre 1900 e 1907. Usava as possibilidades da impressão em litografia com gosto e verve. A litografia, inventada no fim do século XVIII, permitia um desenho quase informal numa escala e uma interacção entre texto e imagem difíceis de alcançar com a tipografia tradicional em chumbo. Bordalo usava estas possibilidades para fazer das páginas centrais um cartoon de grande formato, em geral uma cena alegórica satírica.

Núcleo 5: Pode-se escrever com isto

Nesta secção, temos publicações que derivam a sua existência de grafittis, de panfletos, e outros formatos mais ou menos efémeros. Tem sido uma preocupação na actual crise registar não apenas as pessoas afectadas pela austeridade, mas as suas mensagens, escritas pelos muros, em placards, em cartazes. É esse impulso que vemos nas publicações do colectivo Ghost, My vie va Changer, My life is going to change. Ou em Erosão, do fotógrafo Nelson D’aires, que retrata as concentrações de trabalhadores despedidos de uma fábrica e inclui um poster com o memorando da troika de 2011.

Este impulso de arquivo que demonstra como não há contradição nenhuma entre documentar, expor, antes é um impulso natural que faz parte deste género de movimentações ao longo dos tempos que, longe de serem efémeros, deixam quase sempre atrás de si um conjunto de vestígios, publicações, inscrições. Incluímos a título de exemplo um jornal documentando as actividades da Anti University of London, uma experiência feita em 1968 de ensino comunitário, auto-gerido.

Um dos efeitos da liberdade de expressão alcançada com o 25 de Abril de 1974 foi uma explosão de grafitti. As paredes e até mesmo os sinais de trânsito encheram-se de propaganda e contra-propaganda política. Adeptos de vários partidos ou ideais pintavam ao desafio mensagens que se rasuravam, completavam ou se subvertiam mutuamente. O grupo anarquista responsável pelo Livrinho Vermelho do Galo de Barcelos subvertia tudo e todos com mensagens dadaístas. Muitas dessas tiradas efémeras foram registadas no dito livrinho que, como publicação anarquista que se preze, não tinha numeração de páginas sequencial e vinha furado de uma ponta à outra por um buraco a imitar a passagem de uma bala. O Livrinho Vermelho seria uma influência duradoura sobre outras publicações como o número do Buraco, dedicado à Ocupação da Escola da Fontinha, que também apresentamos.

Foi também essa revoada de grafitti que E. M. Melo e Castro, poeta concreto, se debruçou usando-a como matéria de reflexão. Com o título inspirado numa inscrição fotografada na parede de uma escola, que adivinhava ter sido escrita por um aluno, publica Pode-se Escrever com Isto em 1977 , uma separata da revista Colóquio Artes. É um ensaio sobre a profusão de grafitti no período a seguir ao 25 de Abril, que documenta e teoriza sobre o modo como as inscrições deixadas por diferentes forças políticas interagiam entre si, completando-se, rasurando-se, dialogando.