Acabando com a Paulista
Tudo que empolga muito acaba estragado…
Durante muito tempo, nós por aqui, que moramos perto da Avenida Paulista, elogiamos o resgate da sua humanidade com a abertura para pedestres ao domingo, a instalação da ciclovia e o florescimento de um comércio local de varejo e uma cultura artística de rua, que transformaram em um local de interesse genuíno para o lazer aquela área anteriormente invadida pelo esterilizante poderio bancário-industrial e envenenada pelo rodoviarismo teratológico que, note-se, não se dá por derrotado e ensaia um retorno nas próximas eleições.
Mas hoje a avenida me mostrou como boas intenções, descontroladas, criam novos problemas.
Para começar, a prefeitura municipal errou ao abrir para as bicicletas hoje, sábado, uma faixa de cada lado da avenida a propósito do feriado estadual do 9 de Julho. Simplesmente não havia demanda de bikes especial que justificasse essa medida. O número de ciclistas era inclusive inferior ao habitual. Os veículos a motor ficaram congestionados à toa. Estou admitindo isso na condição de ciclista entusiasta e insuspeito. Reitero: não era para separar mais espaço para as bikes hoje. Sábado com feriado é apenas sábado, não outro domingo.
Por volta da hora do almoço, um insano invadiu uma loja de chocolates vizinha ao Conjunto Residencial Suíço e fez uma refém em ponta de faca por uma hora e meia. GCM, Civil, GATE, Bombeiros, Choque: cada divisão da polícia enviou unidades para o local, interditando a avenida num espetáculo diligentemente fotografado por milhares de transeuntes portadores de celulares. Imaginei franco-atiradores prontos para qualquer coisa, postados com seus rifles nas janelas do edifício Nações Unidas e um negociador dizendo ao sujeito no megafone: “Você não tem alternativa; por qualquer coisa que fizer morrerá imediatamente, e sua brilhante ideia de exigir a presença da imprensa não resultará em nada de útil”. Claro que negociações com sequestradores não se desenvolvem dessa maneira. Em vez disso, eles chamam a mãe para apaziguar o perpetrador. Não é piada. Foi exatamente o que aconteceu de fato.
Os analistas econômicos não param de gritar na imprensa que estamos atolados na maior recessão da história republicana e que o Brasil está prejudicado para o resto da década. O movimento comercial no centro da cidade os desmente. Na era do Plano Collor, eu lembro, boa parte do comércio fechou repentinamente, havia tentativas de saques violentos no centro e até o trânsito sumiu das ruas. Hoje não havia qualquer sinal de crise ou tensão econômica na agora popular avenida. Com uma oferta maciça de camelôs que obliterou sua transitabilidade a pé, a avenida que aspirava a ser nossa Quinta Avenida e mais recentemente tinha ares de Times Square, ambas no bom sentido, acabou virando mera extensão da 25 de Março, no mau sentido.
À frente do Masp, um grupo de extremistas de direita agitando incongruentes bandeiras de São Paulo pede para “buzinar em apoio a Moro”, demonstrando seu reconhecimento de que o magistrado cumpre tarefa de natureza essencialmente política e não judicial. Na semana passada, esse mesmo pessoal foi protegido pela PM de uma tentativa de ataque por anarquistas em plena luz do dia. Mas espere, há mais para se ver na fauna política. Vizinho à Fiesp resiste um imundo acampamento permanente, com barracas, fogareiros e cartazes de papelão, que, parece-me, tem o fito de apoiar o governo federal interino contra o partido que antes estava no poder. Seria legítimo fazer tal ocupação porque a famigerada entidade patronal apoia abertamente esse lado da controvérsia? Um acampamento de, digamos, marxistas, provavelmente teria sido removido, de preferência na calada da madrugada, com generosa dose de tiros e bombas. A mesma entidade já perdeu o direito de usar o painel luminoso do prédio por abuso ao empregá-lo em sua militância.
Ainda bem perto dali há um prédio erguido durante a era bancária-industrial que está sendo remodelado para servir como shopping center. Esse é claramente o grande novo negócio na avenida. Mudem-se as sedes de bancos e empresas para a Faria Lima, Funchal, Berrini, novas versões da Paulista onde não acontece manifestação toda semana. A deduzir-se do imenso sucesso de público do maciçamente medíocre “Cidade São Paulo” (que importância tem a gramática da língua portuguesa num nome de shopping center? Eis a resposta), se a avenida inteira resolver abrir novos shoppings, aparentemente os clientes continuarão aparecendo indefinidamente, como formigas. Teremos unidades do Cinemark no Shopping Santa Catarina, Shopping Casa das Rosas, Shopping Casa da Moeda, Shopping São Luís e Shopping Masp. Não tem crise por aqui.
O detalhe original da remodelação do edifício em reforma (Errata: o nome oficial disso é “retrofit”) é que a sua fachada de arcadas, que lhe dava uma atmosfera claramente reminiscente do Palazzo della Civiltà Italiana (aquele centro cívico da época fascista que fica na periferia de Roma; vale uma googlada para conferir), está sendo cruelmente encoberta por uma camada de vidraças. Assim, um prédio de fisionomia original, ainda que não fosse muito amigável, ficará idêntico aos vizinhos para ganhar palatabilidade. É um equívoco razoavelmente comparável à demolição dos palacetes no Anhangabaú. Com reformas dessa natureza, a cidade de São Paulo nunca falha em confirmar que é um túmulo da arquitetura.