Autoentrevista, parte 1: marketing pessoal transcendendo o selfie

Prosopagnosia como metáfora da perda do sentido de reconhecimento de indivíduos pessoais em interações online

Por que fazer uma entrevista consigo mesmo?

Na era do selfie, o ato primal de chamar atenção para si não deverá mais ser baseado apenas em imagens, mas também em palavras. No frenético mundo online móvel, as imagens puras e simples já perderam seu impacto comunicativo. Hoje, todo mundo se fotografa com um grau mínimo de competência. Publicar autofotos é tão fácil quanto digitar. Assim, a fotografia pessoal banalizou-se ao limiar da irrelevância. A foto tornou-se o novo chat.

Ou seja, estaríamos conversando preferencialmente por imagens?

Vai além disso. Moholy-Nagy disse: “No futuro será considerada alfabetizada a pessoa que souber operar uma câmera.” O futuro chegou. Todos nós portamos câmeras dentro de nossos bolsos. A maioria de nós escreve muito mal; só não é um desastre completo porque o celular fica corrigindo nossos erros de grafia ao digitarmos. Muito mais pesssoas hoje sabem fazer uma foto interessante do que escrever um texto interessante. Eis, pois, o paradoxo: num mar de retratos, quem está à tona é quem usa palavras.

Qual fica sendo o papel da foto?

Já estamos habituados a ver os rostos dos amigos sendo constantemente reciclados em nossas telinhas. Essa constante revisão de autoimagem é abstraída da vivência real e imediata de cada um. Quando, porém, queremos relatar nossas experiências pessoais, elas precisam ser validadas pelo testemunho de uma foto. Caso contrário, a experiência não existiu para o mundo e não há assunto de conversa.

As redes sociais tornaram-se um imenso fórum de debates.

Embates, não debates. Um debate visa estabelecer uma verdade básica em que as duas partes possam concordar. Já um embate é apenas um enfrentamento onde se tenta apenas superar em força o outro lado. Existe um sinal de que uma pessoa está viciada nessa pseudodialética competitiva: é quando ela pensa que “ganhou” a mais recente discussão. Pela sua própria dinâmica, não existe algo como “ganhar” discussões em comentários de redes sociais. Porque não é possível dar um ponto final em nenhuma dessas discussões. Como as pessoas vão lá para combater e não para adquirir dados novos que permitam sofisticar seu pensamento, a possibilidade de persuasão nesses debates é zero. Cada um entra com uma pedra na mão, atira-a na discussão e depois se retira levando de volta a mesma pedra.

Bem pessimista essa abordagem… Mas talvez o mais irritante seja esse inplícito imperativo social prático de se ter opinião fechada sobre tudo.

Para além disso, da obrigação social de demonstrar posicionamento, há o agravante de que a opinião precisa ser expressa em termos exaltados, categóricos, repetitivamente, cansativamente, senão não “aparece” no meio de tanto ruído. É a tática de choque com imagens violentas, das palavras de ordem em “memes” agressivos, da difusão de ideias por atrito, da invasão de tópicos onde a maioria pensa o contrário para insultá-los. A opinião pode ser desinformada e absurda, pois sempre fatalmente haverá outros pensando a mesma coisa, criando para quem emite tal pensamento uma ilusão de sempre estar do lado certo. As redes, para quem se ocupa de debater, é estruturada entre ilhas de consenso e fronteiras de dissenso. Nas ilhas de consenso estão os amigos, colegas e familiares que automaticamente concordam com quase tudo, mas isso tem a ver fundamentalmente com uma bagagem cultural em comum e não com saberem pensar melhor. Nas fronteiras de dissenso estão os inimigos ideológicos do momento. Participar na batalha verbal é reencenar algo que o humano fez ao longo de toda sua existência: medir forças. A substância do argumento fica em segundo plano. A meta é obliterar o oponente, mesmo que apenas por alguns momentos. É uma guerra; é um esporte; só não é uma atividade intelectualmente construtiva.

E qual é o foco de uma entrevista na qual se é o próprio entrevistador?

O foco do entrevistado é falar apenas o que lhe interessa dizer, e nada sobre o que o entrevistador pensa que os outros desejam saber. Não inventei nada disso. O recurso já foi usado por escritores variados. Para a minha geração, o exemplo mais famoso é o press-release em que Paul McCartney apresentava seu primeiro LP solo e ao mesmo tempo anunciava o fim dos Beatles, em 1970. O truque está ao alcance de qualquer um, com ou sem talento. Ao falar de textos autocentrados, novamente cabe a conexão com os selfies. Estes e aqueles não passam de marketing pessoal. Vou desenvolver essa ideia a seguir, mas adianto já que uma postagem em blog ou rede social é simples extensão desse marketing. Na década passada, as pessoas que achavam que tinham mensagens relevantes para revelar ao mundo escreviam seus blogs. Mas as redes sociais e sua interatividade engoliram completamente esses sites. Para a geração milenial, majoritariamente, o Facebook em si passou a ser “a Internet”. Sites ensaísticos e diários online parecem agora tão engessados quanto as revistas literárias que os precederam. Por que não, pois, criar um simulacro de interatividade estruturando um artigo de opinião como se fosse um diálogo? O que você acha disso?

Quem deve fazer as perguntas sou eu. Acho que esta conversa tem um foco muito fechado na questão da autopromoção.

Exatamente. Acabei de dizer que tudo que as pessoas fazem nas redes para os outros verem é autopromoção. Inclusive e especialmente quando defendem exaltadas a causa político-social da moda no momento. Frente a seus amigos, elas ficam com o “lucro moral” correspondente a uma parcela pequena do prestígio da causa que promovem. E os inimigos não podem roubar esse capital moral, pois a qualquer instante podem ser bloqueados para não incomodarem mais.

Essas palavras: lucro, capital… Tudo então é uma forma de comércio?

É tudo comércio. A metafísica capitalista é a mais pervasiva já inventada, depois da religiosa. Nas redes, os seus amigos são os consumidores do seu produto, que é você. Marketing consiste em gerar e manter desejo de consumo. Este é o interesse que as outras pessoas devem ter para assinar a sua página, engajar-se nos comentários, partilhar suas boas postagens. Há o detalhe fundamental de que o dinheiro que essas transações representam circula na mão dos mantenedores da rede, não na sua. Quanto ao que gera interesse por você nas redes, fico com Schopenhauer, que foi bem claro: “A maioria das pessoas é tão subjetiva que nada as interessa de verdade. Só pensam em causa própria, assim que surge algum comentário; toda a sua atenção é direcionada e absorvida pela mais ínfima possibilidade da referência a algo que as afete pessoalmente, não importa o quão seja remoto.” Desenvolvendo isso, temos que as pessoas que atraem muita audiência são as que parecem falar a cada um em particular. As que prometem algo num nível pessoal. Eu vejo profissionais de comunicação flagrantemente não entendendo de marketing quando postam “Acabei de ser premiado por este trabalho” e “Vejam meu novo portfólio”. Penso egoisticamente, porém honestamente: “Não vou clicar nessa porcaria, pois a alegria é toda do cara e participar dessa pantomima não acrescenta nada ao meu lado”.

Ou seja, o narcisismo dá errado quando não tem um disfarce de utilidade para quem vê.

O narcisismo tem maneiras de dar certo e de dar errado. Imagine duas pessoas fazendo viagens internacionais bacanas. A primeira delas partilha detalhes culturalmente interessantes e inusitados do que está vendo — um animal diferente, um menu de restaurante, uma placa de rua engraçada — em primeira mão. Isso sempre é divertido e cria um sentido de cumplicidade. Quem vê está participando. A segunda pessoa fica mostrando que esteve no local postando aquelas lamentáveis fotos de cartão-postal de lugares famosos com a cabecinha dela se intrometendo no meio de cada uma. A mensagem nesse caso é: “Eu estou aqui e você não, portanto inveje-me”. Essa pessoa eu não vou acompanhar; não por ter inveja, como ela supõe, mas por eu reconhecer nela um lamentável ser pobre de espírito, que confunde o estar com o ser. Isso tudo não quer dizer que para se ter sucesso nas redes seja preciso ser uma pessoa legalzinha. Pode-se ser tão manipulador quanto um televangelista. É preciso, aliás, manufaturar carisma e cultivar mistério. Enquanto isso, os seguidores estão todos muito ocupados iludindo-se em achar que eles mesmos são atrações. Não, a verdade é que a imensa maioria não é nada interessante e a atenção do público é uma quantidade finita.

Como não há uma forma de verificar automaticamente o que cada um alega no que posta, a vivência é ainda mais abstraída do seu discurso…

É preciso forçar um pouco o cérebro e pensar de maneira mais profunda do que simplesmente “na Internet todo mundo se apresenta como desejaria ser” ou “todo mundo online mente”. Esses são pressupostos básicos. Óbvio que cada um parece feliz ou infeliz nas redes na medida de como se expressa, assim como em sua vida particular pode ser bem diferente daquilo que deixa aparecer online. Os mais sem noção passam vexame, mas estão satisfeitos dessa forma e não temos subsídios para julgá-los pelo são, apenas pelo que mostram. Por outro lado, pessoalmente conheço várias pessoas que online parecem admiráveis, mas de perto são abjetas. Tudo bem com isso. Alguém em algum canto do mundo deve pensar igual a meu respeito.

Então é impossível escapar a um certo pensamento dualístico ao analisar as relações online?

Mesmo que minha cabeça seja puramente holista, fica impossível escapar aos antagonismos, rotulagens e divisões, porque esses são os instrumentos usados por todo mundo ao redor. Cabe usar as ferramentas que nos põem na mão, instrumentalizar esses problemas no sentido de criar algo positivo.