SARCASMO É MUITO LEGAL

Só que não.

Algum filósofo midiático tem levantado esta questão: sarcasmo não é o mesmo que senso de humor. Achei interessante que essa noção tenha atingido o “mainstream” da conversação pública.

Meditemos a respeito de quem por aqui mesmo utiliza as redes sociais para fazer “zoação” com tudo e todos, indiscriminadamente, produzindo “memes” ofensivos e frases “sacadinhas”.

A sua experiência pessoal pode ser outra. Eu, por mim, conheci bastante gente que inicialmente considerei inteligente e interessante, mas que sempre estava pronta a demonstrar irreverência e senso de superioridade cultural fazendo ataques generalizados contra qualquer tópico do dia. Achei aquilo engraçado por algum tempo, até que em vários momentos encontrei a mim mesmo sendo alvo de seus comentários desrespeitosos, sem qualquer provocação que lhes desse abertura para isso. Percebi que estavam me nivelando por baixo com todo o resto que abertamente desprezavam, no sentido de “nunca perco a piada, mesmo perdendo a amizade” e “se eu zoo com você, considere-se lisonjeado”.

Afastei-me permanentemente desses indivíduos. Fique tranquilo, que tomei as medidas necessárias de isolamento e este artigo nem chegará a seus olhos. Mesmo porque seriam incapazes de entender a mensagem — e digo isso sinceramente, além de desapontado: sarcastas “pros” geralmente são irrecuperáveis.

Demora livrar-me da culpa de ter sido plateia e escada de algum desses caras. Por vezes você só percebe que a pessoa é genuinamente malvada depois de anos de convivência, depois de rir macacamente de muitas tiradas virulentas, de prolongada coparticipação na sua vileza.

O sarcasta inveterado é um narcisista: acha-se mais inteligente que os outros, por ter facilidade e rapidez em criar frases cortantes, por sempre encontrar o ângulo mais infame, por ser o autor do primeiro ataque. Só que isso não revela inteligência, mas treino. O costume se autoalimenta e faz a pessoa entrar numa mentalidade negativista persistente.

Provavelmente o sarcasta comunica constantemente que o mundo é uma merda porque ele mesmo se sente um merda num mundo que somente o frustra, e sua forma mais fácil de descontar é detonando tudo em vez de assumir a trabalhosa obrigação existencial de enfrentar os seus problemas. Isso só torna sua situação pior. A iconoclastia generalizada traduz um estado de infelicidade generalizada.

Considerando que a imprensa online em português está em um estado irremediavelmente lastimável (Está vendo? Uma crítica direta, não uma frasezinha pretensamente espertinha), fui procurar referências gringas sobre o tema. Eis algumas lições colhidas, em forma resumida:

  • O sarcasmo descarrega ódio e frustração, sob o disfarce de graça proporcionado pelo emprego retórico da ironia, que é sua característica em comum.
  • O sarcasmo não denota senso de humor, mas sim falhas de caráter.
  • As falhas de caráter que o sarcasmo pretende mascarar (e que não mascara) são insegurança, agressividade, hostilidade e covardia.
  • A verdadeira graça é afiliativa: o ouvinte é um cúmplice da piada. O sarcasmo é confrontacional: o ouvinte é contado entre as vítimas.
  • A intenção da graça é comentar coisas divertidas nos fatos da vida. A intenção do sarcasmo é puramente destrutiva.
  • Sarcasmo é fácil de praticar porque é a forma de expressão mais insincera. A graça verdadeira requer verdadeiro talento.
  • O interlocutor do sarcasmo frequentemente fica mais ofendido do que poderia prever o emissor do comentário.
  • O interlocutor do sarcasmo não reclama do tratamento que recebe porque sabe que isso apenas deflagrará novas piadas do mal. A solução do incomodado é cair fora da conversa.
  • O sarcasta acha que deu “a palavra final” e se considera recompensado. Eis o mecanismo de retroalimentação do vício.
“Don’t hesitate to tell others that you don’t appreciate their sarcastic comments because it’s just thinly veiled hostility and unacceptable bullying.”
“People must be careful with how they use sarcasm, especially males. The fact that most of the males view sarcasm as a subtype of humor suggests that they neglect the verbally aggressive nature of sarcasm. This would cause them to be ignorant of some people’s feelings, especially those of females.”

Aqui, as referências:

http://www.scienceofpeople.com/2011/12/sarcasm-why-it-hurts-us/

https://www.psychologytoday.com/blog/think-well/201206/think-sarcasm-is-funny-think-again

http://ccat.sas.upenn.edu/plc/communication/valerie.htm

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.