Sim, está rolando um coxinhização do futebol, principalmente dos grandes e endinheirados clubes. É bom demais quando vemos aquela emoção, os gritos, os cânticos. Mas de onde isso vem? É possível resgatar essa identidade da torcida nos tempos atuais?

Os ingressos indubitavelmente deveriam ser acessíveis. Na Alemanha, os mais baratos são os mais próximos ao campo, para empurrar o time e ficar bem nas transmissões televisivas. Não é só ingresso que dá grana, também tem o consumo no estádio (pipoca, cerveja, cachorro-quente, camisa do time [esta que tbm é caríssima] etc.). Além de haver o ganho de imagem ao clube, com seus estádios/arenas lotados. Rico pode assistir os jogos no payperview com sua camisa Nike oficial e, se quiser ir ao estádio, que se misture a todos os torcedores. Afinal de contas, estão todos unidos acerca do mesmo propósito, o êxito do clube dentro de campo.

Um aspecto que deve acabar são as torcidas organizadas. Pode-se argumentar que eles são os mais vidrados no time, mas será que isso também não poda a torcida "comum"? Sem as organizadas, tira-se o poder delas e o coloca nas mãos de todos os torcedores. Ainda haveria amontoados de fanáticos se esgoelando para dar moral ao seu time, mas sem o título de “organizada” (onde estão vários bandidos).

Acompanhando a ESPN, vejo que o campeonato inglês está passando por um momento bem interessante: o Leicester em primeiro lugar, deixando United, City, Arsenal, Tottenham, Chelsea (LOL) para trás. Espero que não seja fogo de palha como o Sport, aqui no Brasileirão. A alegria de seus torcedores deve ser imensa agora. Sou a favor de um trabalho sério e consistente como ocorre em alguns times da Europa e como, em parte, o Corinthians faz no Brasil. "Em parte", porque ainda gasta mais do que ganha, mas segue com Tite e alguns jogadores vieram base, ao invés de serem contratações absurdas e infrutíferas.

Outra coisa, na Inglaterra (Alemanha também, por exemplo), mesmo sem as torcidas organizadas e hooligans, a torcida tem suas músicas e torcem apaixonadamente. Famílias vão aos estádios periodicamente assistir e participar da disputa esportiva e não ficam de fora quando precisam empurrar o time adiante ou fazer os adversários tremerem.

Uma das coisas que nos deixou envergonhados na Copa do Mundo foi a falta de paixão, de gritos de guerra da torcida. Sim, de vez em quando podem entoar que somos brasileiros com muito orgulho e amor, mas essa não pode ser a única coisa a ser dita. A crise nos estádios permeia não somente os clubes brasileiros, mas impacta também a nossa seleção.

Não sei como se daria a volta para os padrões de torcida do século 20, em um mundo em que o dinheiro é deus e o ego, seu braço direito. Talvez uma das formas seria a independência da FIFA ou a maleabilização de suas normas, deixando a critérios nacionais (com apenas alguns mundiais) a inovação no esporte, permitindo, por exemplo, a volta da Geral.

Vejo as arenas como uma forma estéril de padronizar o futebol. Estéril pois não se sente mais a mesma emoção no estádio, quando se está tão longe dos jogadores e banco de reservas. Então esbarramos novamente nos preços proibitivos dos ingressos, que ao invés de incentivar torcedores e lotar estádios, nos fazem pensar uma, duas, mil vezes, antes de comprá-los. Com os estádios cheios, os espaços vazios são reduzidos, inclusive entre a torcida e o campo. Seria essa a fórmula para dar mais vida e identidade às grandes e novas arenas?