Não há nada de novo sob o sol

Durante pensamentos sobre o comportamento humano, um assunto ficou marcado em minha mente: o narcisismo de nossos tempos. E aí, o que isso significa?

Tendo em vista que nosso comportamento advém de aprendizado e não de simples determinismo genético, nos deparamos com muitas mudanças sociais oriundas de avanços tecnológicos. As possibilidades são imensas para quem domina a técnica e/ou outros meios, como o dinheiro e contatos. YouTubers se sustentam com a publicidade em seus vídeos (alguns enriquecem, como o PewDiePie), blogueiras de moda tomam os holofotes, ideias novas recebem o título de startups e arrecadam milhões. Exemplos não faltam de pessoas que alcançaram o sucesso dentro das novas oportunidades surgidas.

Diante desse cenário cheio de empreendedores, aliado à divulgação dos êxitos alheios, nos fica a impressão de que todos nós podemos fazer parte desse grupo novo bem sucedido a qualquer momento — só nos falta aquela "ideia genial" para sairmos do nosso mundo dos mortais. Eis então que me deparo com um aplicativo que propõe a exposição de sua vida (como um Periscope). Qual é a função de mostrar a minha vida a pessoas ao redor do mundo dentro de um aplicativo? E o que isso gera? Seremos nós tão interessantes assim, que merecemos plateia?

Acredito piamente que a vida de qualquer pessoa no mundo é interessante e que venderia milhões de livros. Pois então, a questão passa a ser "o que deve ser escrito" ou mostrado, no caso dos vídeos. O que as experiências nos têm mostrado? Gente tocando música, fazendo vídeos engraçados, pagando de gatinho, jogando videogames, conversando com os espectadores. Nossa geração é viciada em ao vivo, tempo real.

Falamos sobre vídeos em streaming ao redor do mundo, divulgando parte da vida de pessoas comuns, mas veja que isso se aplica a redes de outros conteúdos, Facebook, Twitter, Instagram, Snapchat… Estamos rodeados de veículos que nos exibem e exibem o outro, seja em texto (como vos escrevo aqui), seja em fotos, gifs etc.. E o que se faz com o espaço que temos? Em sua grande parte, entretenimento. Percebendo que as pessoas tendem a publicar mais sua alegria em detrimento de sua dor, damos continuidade ao ciclo de perpetuação virtual dos "momentos bons", seja uma foto com os amigos ou uma piadinha em imagem.

Recentemente, desisti de acreditar na salvação da humanidade. Quero dizer, deixei de acreditar na constante evolução da sociedade. Nascemos animais e, a não ser que haja um esforço intelectual que inclua reflexão moral, não saímos do senso comum, do banal, do fútil. A História nos mostra o caos que é a sociedade humana: violenta, excludente, egoísta e com uma média baixa moral e intelectual. E quantas pessoas existem no mundo? 7 bilhões. Como educar 7 bilhões de pessoas com diferentes culturas, localizações e condições financeiras? Impossível!

Não digo que buscar o aprimoramento intelectual e moral seja o caminho certo ou o errado. O mundo é plural e cheio de imperfeições. Vivemos do jeito que suportamos, aprendemos, ambicionamos. A partir disso que penso sobre a Geração Caras ou Millenials, sem julgamento de certo e errado.

Engraçado notarmos que mesmo com tantas inovações tecnológicas ainda somos pessoas. Pessoas com sentimentos e emoções, com desejos. E, sendo um ser desejante, facilmente nos perdemos em nosso querer: querer ficar mais bonito, mais rico, mais poderoso, mais inteligente, mais amado, mais aplaudido, mais famoso, mais [insira seus valores]. Desejos que, em seu âmago, mesmo com esses traços narcísicos, se aproximam do desejo de pertencimento. Durante nossas vidas, colocamos em nossas cabeças, passo-a-passo, que precisamos ser mais e mais para sermos acolhidos pelos grupos queridos, sejam eles atuais ou futuros. Por "futuros", me refiro à "imortalidade humana", o pertencimento indelével na História da humanidade oriundo de feitos marcantes.

Seria esse o motivo da busca pela simplificação da vida? Estamos fartos de ter que mostrar tanto que somos os mais "antenados"? De que somos os mais felizes? Ou os mais realizados? Bom, aí sejamos relativistas, cada um cuida da sua vida: eu não vivo a sua vida, nem você a minha. Cada um sabe onde seu calo dói. Mas que fique registrado que a simplificação da vida não é simples, como o termo pode levar a entender, visto que temos que reaprender a viver, assim como fizemos quando criança.

Adentrando essa questão: temos diferenças externas, mas não seria a alma humana pecadora e falha por natureza? A sofisticação do mundo contemporâneo nos dá a impressão de que somos melhores do que o mundo natural (que até vira "Causa de Facebook"), mas no fundo somos animais e, como dito anteriormente, temos que aprender a sermos pessoas sociais que falam, trabalham, estudam etc.. O trabalho racional a domar a animalidade humana é intenso e ininterrupto: basta desviarmos o olhar que os instintos rotulados de "feios" ou "errados" vêm à tona.

Muito do que traz sofrimento ao próprio ser ou ao próximo tem sido rotulado de tal maneira. É nos dito que somos herdeiros do Divino e esquecemos que vivemos em um mundo de sofrimento e vaidade. A felicidade dá as caras de vez em quando, mas o suor — físico ou não — é muito mais presente nas nossas vidas. Então os desejos desnecessários e, em última análise, inúteis são expostos na prateleira como um artigo absolutamente necessário à condição humana da nossa sociedade.

Ora, como me importar e me envolver com cada campanha humanitária que me convida a publicar uma imagem para ajudar indivíduos do outro lado do planeta. Qual resultado isso trará a quem necessita de ajuda? Me parece mais um consumo do "bem" hipócrita do que uma ajuda honesta e satisfatória para ambos os lados. Por outro lado, as mídias sociais mudaram nossa forma de sentir e pensar ou apenas mudou a forma como expressamos o que vem de dentro, nossos impulsos íntimos?

Penso que essas redes sociais digitais apenas expõem o que antes era velado. A hipocrisia nos acompanha todos os dias em comentários sobre política, religião, sexo… Em um mundo em que se vende o "diferente", o inovador, parece que somos todos iguais. Todos dentro da mesma caixinha de classe média rotulada de Geração Lorem Ipsum que se preocupam com o meio ambiente, sabem tudo de tecnologia, inovadores/pensam fora da caixa, com os direitos humanos na pauta, querendo criar um mundo melhor: sem violência, fome e carros. Besteira. Quem se enquadra nessas características de santo-geek-hipster? Uma categorização que apenas enaltece a hipocrisia do ser humano, incapaz de suportar a infelicidade e a dor do mundo real, recorrendo a subterfúgios para manter sua imagem imaculada de protetor do mundo (não só da humanidade).

Veja como se comportam as pessoas quando percebem que famosos / celebridades não são perfeitas. Publicações sobre como a pessoa é má surgem como praga nas redes sociais, alimentadas por um compartilhamento sem prévio raciocínio, ignorante de sua própria condição. O moralismo está na moda (será que um dia não foi?) aliado à crise financeira e à intolerância nos debates políticos. O moralista covarde, que se apropria do poder do ódio para tirar seus divergentes da cena. Nós estamos criando um mundo melhor ou uma ilusão sofisticada em que há mecanismos para a manutenção da opressão e do status quo?

O caminho mais factível de se produzir mudanças é o da educação, isso para mim é um fato. Mas não confunda escolaridade com educação. Quais valores aprendemos com os conteúdos programáticos? Estudar obrigatoriamente fórmula de Bhaskara e íons te fizeram uma pessoa melhor? Sem menosprezar as Exatas, existe o argumento antiquado de que o estudo desses temas melhora o pensamento racional do indivíduo. Digo antiquado, pois com certeza há outra forma de desenvolver essa habilidade, por exemplo no estudo da História. Quando entendemos as relações entre cada parte, entendemos muito melhor o que aconteceu e não precisamos decorar todo o livro.

A educação começa em casa e continua ininterruptamente nos estímulos que o indivíduo recebe cotidianamente. Não prego uma higienização para uma perfeita aprendizagem, mas um olhar que poucos parecem ter de que o que existe de fato não é ensino, mas aprendizado. O aluno decide (ou tem em mente) o que lhe importa e o que não. Esse fato combinado com o da educação fordista traz cada vez mais desinteresse e, consequentemente, a falta de fome por conhecimento, algo que acredito ser inato à condição humana. A falta de interesse nos estudos é aprendida da mesma forma como outros temas em sala de aula. Um aluno se acha um burro por não saber resolver equações matemáticas, outro pensa ser impossível aprender algo de química, o colega do lado desistiu de interpretar textos literários… O que os levou a tal condição? Nasceram inaptos ao pensamento? Duvido muito.

De onde tiraram esse pacote educacional estéril, que nos tira o tesão em aprender? Os frutos vemos todos os dias. Cobramos políticos melhores, mas perceba que eles também não tiveram uma educação voltada à reflexão e à moral: ignoram a miséria e maquinam como irão angariar votos e permanecer mamando nas tetas do povo. E assim se perpetua o ciclo da ignorância, da desinformação, da falta de interesse.

E, mimados, achamos que as coisas se ajeitarão e que basta uma foto no Facebook para mudar alguma condição. Somos limitados e rejeitamos essa ideia. Sonhamos acordados com o dever-ser, enquanto o ser, o que é, nos mostra como estamos nos mentindo. Quando a teimosia sonhadora cessará para amadureceremos, encarando o mundo como é? O objetivo do mundo não é cuidar do ser humano. O belo sol que brilha de manhã é o mesmo que mata de sede, a árvore que dá frutos é a mesma que cai no telhado e o destrói; assim como sua luz é alimentada por usinas hidrelétricas que matam milhares de seres vivos em sua construção, assim como o frango que comemos tem sua cabeça cortada fora e suas penas arrancadas à força para nos alimentar. Construímos fortalezas urbanas distantes da realidade mundana elementar e a desconexão nos tem feito covardes e mimados, acreditando que, por direito, merecemos algo. O que fizemos para merecer esse direito? Nascer é o bastante para acharmos que somos especiais em meio a 7 bilhões de pessoas?

Perdemos a noção de que quando todos são especiais, ninguém o é. Sentados em frente ao Facebook, deixamos de criar e passamos a ver a vida como nos devendo privilégios, ao invés de trabalhar por conquistas. Quantos de nossos pais eram de classe baixa e conseguiram ascender a partir de trabalho duro? O mundo não é feito de facilidades, sonhos e comodidades como a mídia e a propaganda nos vende, muito pelo contrário, é uma vida de labuta, de persistência, de resiliência, de esforço, de suor e lágrimas que, por vezes, dão espaço à felicidade e alegria.