No futebol só se vê o agora

Queremos tudo para ontem, e falhamos em ver que tudo é resultado de uma construção.

O costume de se trocar treinadores como se troca a roupa de baixo faz parte da cultura futebolística brasileira. Basta uma sequência de jogos ruim que se dá como certa a demissão do técnico. Não importa o quanto seu trabalho foi eficaz e eficiente ano passado ou no início da temporada e, fatalmente, são desligados do clube.

Quem não estuda o passado tende a repetir seus erros. Parece que isso acontece copiosamente no futebol. Apenas o hoje importa. Esse imediatismo custa tanto aos clubes (com rescisões e investimentos que passam a ser custos) quanto aos seus profissionais, que por vezes não criam uma ligação com seus clubes, atletas e torcida.

Roger Machado, agora ex-técnico do Grêmio, foi uma das maiores revelações do clube em muitos anos. Após a saída do Felipão, assumiu a responsabilidade com uma visão atual do futebol, como um sistema complexo que depende do relacionamento com e dos jogadores e comissão técnica. Além de saber como organizar e treinar o time inteiro, não apenas os titulares — traço que encontramos também em Tite, uma das referências do ex-tricolor.

Em entrevistas, nota-se claramente a diferença na mentalidade desses dois técnicos, que não se bastam em falar demagogias e sensos comum. Mostram que entendem do que estão falando e que existe um trabalho sendo realizado.

"Agora é levantar a cabeça e treinar, pr'a gente estar bem e conseguir os 3 pontos do próximo jogo" — maioria dos técnicos e, principalmente, jogadores

Dessa forma, não se evoluiu o futebol, não se ganham jogos apenas achando que repetir a mesma coisa vai dar certo. Alguém tem que pensar o que é necessário para estar melhor que o adversário. Arte da Guerra, de Sun Tzu, nos apresenta diversos fatores de extrema importância no rumo à vitória. E não é só levantar a cabeça e focar no próximo jogo: o que foi aprendido com a derrota também tem função fundamental no crescimento de todo o clube. Isso implica dizer que não será um aumento no rendimento "pra ontem", mas a equipe inteira (técnico, atletas e comissão técnica, principalmente) colherá os frutos de uma gestão bem realizada e que pensa o que faz.

Comumente ouvimos que "Roma não foi construída em um dia", que contraste vemos na gestão brasileira! Onde tudo é para agora, onde não há planejamento, onde se quer e não se pensa.

Isento os clubes de carregarem toda a responsabilidade, já que as torcidas mimadas, carentes de vitórias, ajudam a desestabilizar o próprio time e jogar para o alto qualquer proposta que esteja implementada.

Isento os clubes, quando os jogadores já mostraram que podem render melhor e não o fazem. As ambições mudaram? Quem quer realmente conquistar um título nacional e mundial? Quem fica uma hora a mais treinando faltas? Quem ainda tem sede por deixar seu nome na história?

Isento os clubes, quando o treinador entrega os pontos ao invés de seguir em frente, acreditando em seu trabalho, que ele dará frutos mais cedo ou tarde. Com um olhar desesperançoso, vejo Roger sair do Grêmio e largar seu trabalho promissor. Acredito que sua hora de glória ainda viria, mas nem ele firmou o pé e prosseguiu sua caminhada.

Responsabilizo os clubes, quando vendem jogadores, impossibilitando um melhor rendimento do time; colocam pressão demais nos jogadores e na comissão técnica; acham que são merecedores de resultados sem se envolver positivamente; deixam o talento ir e, de herança, ficamos com a falta.

O 7 a 1 ainda não foi compreendido.

Os alemães trabalharam por uma década para alcançar seu objetivo e, no Brasil, só se vê o agora.