Somos moços demais pra tanta tristeza

O domingo foi um dia estranho. Às onze da manhã eu chorava um choro estranho, com uma sensação de não sei o que, vinda não sei de onde. Não era pela morte de uma figura pública que eu sequer havia estado a 200 quilômetros de distância em toda minha vida. Fosse por isso, seria fácil explicar.

O pessimismo carregado durante alguns dias, meses, contribuíram para dizer, como em uma sentença, que o sonho míngua aos poucos. A história é cíclica, eu sei. Tudo vai e vem, isso é certeza. Eu não. Nós, limitados, somos presos a nós mesmos. Somos presos às nossas memórias e experiências. Somos feitos de nossas memórias e experiências. Nesse domingo fiquei preso a lembrança de alguém que em minha adolescência disse ser possível conciliar sua identidade com tudo que o mundo tem a lhe oferecer, manter a mente aberta e o coração quente.

Belchior se foi. Sumido há uns dez anos, agora se foi. Tinha ainda muito por fazer. Queria fazer. Não deu tempo. O homem sábio pode morrer se não souber nadar, é o que dizem. Morreu, tudo bem, todos morrem. Mas morreu também mais um pouco da esperança, pelo menos em mim, de que as coisas melhorem. Incêndio nas ruas. Fogo e bala. Porrada. Aplausos. A tônica é cada vez mais sombria em um tempo no qual não só a arte não importa, como a arte simboliza algo odiável.

A pessoa que tanto falou por nós, que tanto nos feriu com suas verdades cotidianas, não existe mais. Nos sentimos frágeis. O homem que denunciava o teatro se foi e o teatro continua de pé. Sua obra permanece, mas as palavras parecem perder força frente ao desamor que tanto combatemos. Fraquejamos.

Os versos e acordes ficam vagando pela minha cabeça tal qual o seu autor pelo extremo do hemisfério sul. Ele queria voltar porque sabia que era o momento de voltar. Ele foi embora quando mais precisávamos dele. Ele quis voltar quando a volta não era mais opção. É difícil escrever. Por que o domingo causou tanta estranheza? O que morreu no domingo além dele? Ao mesmo tempo que ecoavam os versos de Belchior, me chegavam também notícias do servidor do estado que quebrou um cassetete na cabeça de um estudante. Um policial quebrou um cassetete na cabeça de alguém desarmado. Aparentemente, Belchior morreu em uma época onde a história do começo de sua carreira se repete. Aliás, nunca cessou, essa história maldita.

Nesse tempo onde algozes não tiram férias nem vão para a reclusão, quem irá cantar a desesperança cheia de otimismo em uma juventude de coração quente, às vezes mais que o necessário?

É uma pena legados não serem pessoas. Fossem pessoas, Belchior duraria mais que o possível e necessário. Seria eterno o homem comum. Não sagraria. Se bem que, não sangrando, não seria de verdade o amado Belchior. Não cantaria as coisas do porão. Não seria nosso o seu tempo. Não seria pessoa e o lugar dele não seria onde é e sempre será: nos nossos corações e mentes.

Adeus, moço. A gente ainda se demora um pouco por aqui. Obrigado por tudo.

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