Cartas a Madame Ludovick

#1 — Uma Aurora Surreal

Nottinghamshire, Inglaterra, 13 de novembro de 2015.

Madame Ludovick, olá. Antes de qualquer coisa, gostaria de explicar o motivo de escrever-lhe uma carta e não enviá-la um e-mail, sms, whatsapp ou uma cutucada qualquer por rede social.

GPS. Internet. Big Brother. Obama. FBI. CIA. KGB. Ku Klux Clan. Ordem dos Templários. Maçonaria. Eles sabem de tudo. Tudo é controlado. E vigiado. Calma. Não sou louco. Muito menos adepto de teorias conspiratórias. Tenho motivos para me manter reservado, como uma boa botelha de vinho. Mais tarde a senhora vai entender.

Agora permita-me explicar o motivo de estar entrando em contato. Hans Baryshnikov. Amigo seu. Falou-me muito sobre sua vida, suas histórias, seu jeito de levar as coisas, suas opiniões, seu programa de rádio, que faz sucesso em uma cidade pela qual tenho um apreço especial.

Depois de tudo o que ouvi do amigo Hans, achei que seria interessante contar-lhe uma parte de minha história. Sabe, são tantos e tantos anos neste planeta sem poder dividir meus segredos com ninguém. Não saberia explicar bem o motivo, mas senti que a senhora pode ser uma adequada guardiã de tais histórias. Espero que entenda minha necessidade em desabafar.

Pronto, agora acho que já posso me apresentar apropriadamente. Meu nome é Igor Scheck e minha história é um tanto quanto inusitada. Assim como você, sou da linhagem dos vikings que dominaram o leste europeu no início dos nossos séculos. O Hans, nosso amigo em comum, me confidenciou que a senhora também descende dos bárbaros do norte. Gosto de pensar que vem daí a confiança que sinto na sua pessoa.

A minha casta fundou a cidade de Kiev, onde nasci em 1573. Sim, sou mesmo do século XVI. Daqui a algumas linhas a senhora entenderá como ainda estou vivo. No ano de 1598, Kiev estava uma loucura. Àquela época, a cidade pertencia à comunidade Polaco-Lituana, mas estava sendo disputada pela Rússia, que começava a conquistar territórios e montar o seu gigantesco império. E esta foi a deixa para eu ter saído da minha cidade natal naquele ano. Não gosto de violência. Pelo menos, não daquele tipo de violência.

Zarpei para Veneza. Uma realidade completamente diferente. Um lugar que exalava vida em todas as suas molhadas esquinas. O comércio era riquíssimo, havia bancos, uma novidade na época, o capitalismo crescia e os mais ricos, comerciantes e banqueiros, bancavam as artes e ajudavam a estruturar o Renascimento, um dos movimentos artísticos que mais mudaram a história das artes no mundo.

Foi em Veneza que a minha vida também mudou. Lá eu conheci Antonia Dandolo. Ruiva. Branca. Linda. Cheia de fogo. E não era só nos cabelos. Irresistível. Foi um amor tórrido. Sórdido. Quase claustrofóbico. Antonia era casada. Mas seu marido era um mistério. Nunca o havia visto. Quase não se via ele pela cidade. Estava sempre a fazer viagens. Longas temporadas fora. Não se deixa uma mulher como Antonia sozinha em uma cidade como Veneza. Eu não deixaria. Aliás, nunca deixei. Assumi o comando da ruiva.

E foi em uma noite de agosto de 1600 que Antonia me revelou um segredo que mudou toda a minha vida. A gente gostava de passear de gôndola pelos canais de Veneza depois do sexo. De madrugada, a cidade silenciava, a escuridão da noite cobria tudo. Sentíamo-nos livres para fazer o que quiséssemos. Era a melhor parte do dia. Aquela noite estava especialmente bonita. A lua cheia prateava o mar e deixava a pele de Antonia ainda mais branca e bela. Depois de algum tempo sendo levados pelo balançar das marés, ela me disse que precisava contar algo muito importante. Deitou-se no fundo do barco, me colocou em seu colo, deslizou suas unhas grandes e afiadas por meus cabelos e começou a falar.

Disse que era vampira, da linhagem direta do Conde Drácula. E disse mais. Que estava completamente apaixonada por mim. Que me amava. Tanto quanto seria possível uma vampira amar. E completou dizendo que a maior prova de amor que um vampiro pode dar é transformar a pessoa que ama em um ser das trevas. Em um igual. Dar-lhe a vida eterna. Me assustei. De um salto, já estava na outra ponta do barco. Agoniado, queria me jogar. Mas antes de completar o pensamento, ela já estava ao meu lado, me envolvendo em braços e mãos e carinhos e cheiros e suspiros. Naquele momento, percebi que não teria escapatória. Estava entregue. Mesmo assim, ainda tentei, relutei. Lutei. Resisti. Antes de desistir. Ela não me venceu pelo cansaço, e sim pela sedução. E se tem algo que um vampiro sabe fazer, é seduzir. Com muita delicadeza no jeito, muito amor no olhar e muita paixão na boca, cravou seus caninos em meu pescoço. Rasgando minha veia. Estraçalhando minha mortalidade. Lambendo meu sangue. Me transformando em um morto vivo.

No final da luta, nós dois estávamos exaustos. A dor da morte é absurda. Sentir seus órgãos se desligando, seu sangue parando de circular, o ar rareando. Não é fácil morrer. Principalmente quando se permanece vivo. Depois que o pior passou, veio a calma. E depois que a alma se esgotou, a paixão voltou. Entretidos em beijos, apertos e mordidas leves, não percebemos o tempo passar. O sol nasceu. A luz lambeu a branca pele de uma adormecida Antonia. Que nada pôde fazer. Enquanto a pele dela se rasgava e suas entranhas viravam cinzas, eu não sabia como ajudar. Ela ainda abriu os olhos e se despediu de mim com uma única lágrima negra escorrendo por seu rosto marmorizado. Minha amada imortal simplesmente evaporou dos meus braços.

Fiquei ainda por alguns dias em Veneza, sem saber exatamente o que fazer com aqueles poderes que acabara de ganhar. Sabia que precisava me alimentar, mas não tinha vontade. Ou melhor, tinha medo. Muito medo. Estava ficando fraco, quase sem forças, quando um dia, vagando pelo porto à noite, vi um homem arrumando seu barco. Me senti estranhamente atraído por aquele homem. Agindo instintivamente, me aproximei. Conversamos um pouco. O siciliano de nome Andrea me disse que estava de partida para Nápoles. Sem pensar, pedi para ir junto. Chegamos ao nosso destino antes do sol nascer. Quando fui agradecer a viagem, Andrea me agarrou e me beijou na boca. Disse estar louco. Que nunca havia estado com um homem antes. Que não entendia o que estava acontecendo. Em um primeiro momento, empurrei-o para longe. Mas no segundo seguinte, pulei em cima dele. Depois de um longo beijo, levado por uma força que ainda não conhecia, mordi seu pescoço. Suguei todo o seu sangue. Me senti vivo de novo. Forte. Poderoso. Feliz.

Era como se o sangue voltasse a correr por minhas veias. Desde aquele momento, comecei a me sentir verdadeiramente um vampiro. E passei a fazer do sangue humano minha dieta principal. Vivi muitos anos em Nápoles. Uma cidade quente, vibrante, passional. Um lugar que destoava completamente de minhas origens nórdicas e que talvez por isso mesmo, tenha me conquistado. Talvez ali, em Nápoles, eu tenha começado a perceber uma característica que me diferencia dos demais vampiros e que terei oportunidade de falar a respeito mais à frente.

Pouco tempo depois de ter chegado à região da Campânia, encontrei uma turma de vampiros que vivia por ali. Éramos uns 10 ou 12 se me lembro bem. Tínhamos uma única regra: não atacávamos na cidade de Nápoles propriamente dita. Percorríamos a região e fazíamos vítimas nos arredores, principalmente nas ilhas de Capri e de Ísquia. Também gostávamos de atacar navios piratas no Mar Tirreno. Eu andava junto. Caçava junto. Morava junto aos demais vampiros, mas não me sentia como eles. Algo me incomodava. À noite, quando todos ficavam excitados, eu me sentia melancólico, triste, cansado. E não entendia o motivo.

Em 1675, Petra, uma grega que fazia parte do bando, me levou em uma viagem à ilha de Creta. Do lugar onde, dizem, nasceu Zeus, guardo boas lembranças, principalmente a de um encontro, que iria mudar o rumo dessa minha morte-vida. Foi em Dionisíades, ilha situada ao norte de Creta, em uma festa sagrada a Dionísio, que conheci Pietro, um vampiro da região da Ligúria. O homem mais bonito que vi na vida. Foi impossível não me sentir fortemente atraído por ele. Havia algo naquele sujeito que me chamava. E me inflamava. Naquela mesma noite, descobri que a afeição era mútua. Viramos grandes amigos. Passamos a fazer tudo juntos. Resolvi não voltar mais a Nápoles. E o período que passei em Creta foi fascinante. Principalmente pela presença de Pietro.

O italiano da província de Gênova, tinha se tornado vampiro mais de 100 anos antes de mim. Segundo ele, pelo próprio Conde Drácula, que, como mortal, entrou para a história com o nome de Vlad III, o empalador. O príncipe da Valáquia lutava pela independência do seu território, pertencente aos Otomanos nos idos do século XV. Seu avô, Vlad I, fazia parte de uma ordem católica que tinha como símbolo um dragão, dracul na língua da região. Draculea significa filho do dragão e era o apelido de Vlad II, pai de Vlad III, que herdou o mesmo codinome. Draculea. Drácula. Como o empalador se tornou vampiro é um mistério que Pietro nunca me revelou. Só disse que foi no período tido como o da morte dele, no final de 1476. Meu amigo genovês se transformou em um ser das trevas em 1497.

Pietro me ensinou muitas coisas. Esclareceu verdades, desfez mitos e me ajudou a ser um vampiro sedento, mas limpo; cruel, mas discreto; violento, mas na medida certa; sensual e letal. Em uma de nossas conversas, contei a ele como havia me tornado vampiro, falei sobre Antonia Dandolo, sobre Veneza, sobre tudo o que vivi por lá. E foi aí que as coisas mudaram de figura. Pietro era ninguém menos que o misterioso marido de minha musa ruiva. E isso não era uma notícia boa. A coisa encrespou. O clima esquentou. A amizade se desfez e o meu melhor amigo virou meu pior inimigo. Ele me jurou de morte e em um inesperado gesto de condescendência, resolveu me dar um dia para desaparecer, dizendo que depois deste prazo, não descansaria antes de matar aquele que havia destruído a vida do seu grande amor. Ou seja, ele me deu 24 horas de vantagem para depois partir à minha caça. Virei uma presa.

E com pressa, fugi. Vaguei por toda a Europa por mais de 100 anos. Aprendi a me esconder. A não deixar rastros. A ser simples. A passar despercebido. E gostava daquele estilo de vida. Só a insistente melancolia da madrugada me incomodava. Passei noites inteiras sem se quer conseguir levantar da cama. Alguns poucos amigos que fiz pelo caminho me chamavam de vampiro depressivo. E riam disso. Eu também achava engraçado. Outros diziam que eu exagerava no vinho, por isso, dormia demais. Realmente. Depois do sangue humano, o fermentado de uva tinta era a minha bebida preferida.

Para não alongar esta carta mais do que ela merece, vamos partir diretamente para o verão de 1796. Florença. Minha querida Florença. Minha bela Florença. A Europa vivia uma época de lutas. E conquistas. Napoleão Bonaparte seguia firme no seu propósito de governar o mundo. Liderava e ganhava batalhas por toda a região do Mediterrâneo. E havia acabado de assinar um armistício com o Papa Pio VI. A Itália comemorava. E Florença era um ótimo lugar para se estar naquele final de junho de 1796. Não fosse por um detalhe: Pietro também estava lá.

Comecei a perceber uma sombra. Que me seguia. Me perturbava. E não era a tão presente melancolia das madrugadas. Era outra coisa. Ainda mais forte. Mais incômoda. Mais pesada. Que me dava medo ao mesmo tempo em que me excitava. Até que no dia 3 de julho, em uma festa dada pela famiglia Corsini em seu palácio situado em Castello, região ao norte de Florença, vi Pietro. Ele estava, como de costume, muito bem acompanhado, muito bem apanhado, muito bem articulado, muito bem situado. Pietro me viu também. Depois de algumas poucas horas de trocas de olhares sedutores entre caça — eu — e caçador — ele -, resolvi dar-me uma chance de ser pego e fui ao jardim. Acho que no meu íntimo, era isso que eu queria, ser pego por Pietro e acabar logo com aquela história.

Depois de um breve momento pique-esconde entre os famosos ciprestes, azinheiras e loureiros do jardim dos Corsini, ganhamos as ruas de Florença em improvável velocidade. Até pararmos na Ponte Vecchio em posição de duelo, como dois cowboys fora de tempo e espaço. Naquele momento, eu sabia que não havia mais para onde fugir. E me entreguei. Pietro me espancou de todos os jeitos possíveis. E eu me deixava apanhar. Me sentia um pouco culpado pela morte de Antonia. Achava que até certo ponto, merecia a surra. Até sentir a lâmina da unha de Pietro rasgar meu pescoço. Neste momento, entrei em pânico. Mas me parecia ser tarde demais. Meu sangue jorrava. E Pietro se deleitava. E se lambuzava. Me entreguei à iminente morte.

Mas um milagre me salvou. Sim, madame Ludovick, vampiros também acreditam em milagres. Naquele exato instante, o sol começou a nascer. Virei meu rosto, abri os olhos, deixei o calor dos raios me embalarem e celebrei a visão mais espetacular de minha vida. Como se fosse a última. Nunca antes tinha reparado no nascer do sol. Em Kiev, como mortal, não tive oportunidade. O céu sempre encoberto. O clima sempre muito frio. No dia da morte de minha amada Antonia, não tive coragem. E depois de ter me tornado um vampiro de verdade, não quis arriscar. Como é espetacular ver o sol nascendo. E como aquela aurora foi importante para mim. Pietro simplesmente derreteu. Virou um líquido gosmento esgueirando-se pelo piso de pedra até encontrar uma vala e cair no Rio Arno. Mas comigo, nada aconteceu. Pelo contrário. Ao sair andando pelas ruas de Florença douradas pela cor do sol, me senti forte e ativo como nunca. Poderia correr uma maratona, escalar o Vesúvio, nadar até Pisa e ainda colocar a torre de pé.

Naquele dia, eu descobri o motivo de tanta tristeza e melancolia durante minhas madrugadas. Acredite, senhora Ludovick. Eu sou um vampiro diurno. Caso único até onde eu sei. Não saio espalhando isso com outros vampiros. Afinal, com esta vantagem competitiva, posso passar a ser o alvo preferido destes seres desprovidos de misericórdia e cheios de inveja. Vampiros são muito invejosos. Querem tudo. Mas teve uma vez…

Desculpe-me, madame Ludovick. O sol já está quase se pondo e sinto-me cansado. E, a bem da verdade, nem sei como este meu ímpeto literário será recebido pela senhora. Vou deixar o resto da história para uma outra carta.

Até breve.

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