Letra Morta

Imploro às letras que não me venham formar palavras de amor. Estou bêbado, trôpego, fingido e ainda tão cedo, rápido, sofrido. Podem me falar a respeito de quartos, livros, sons ou cheiros de perfume sem sentido. Podem relatar o desejo dos ratos, cínicos, bons ou cheios de aventura sem risco. Caiam e desenhem. Transportem e transitem. Falem e critiquem. Digam o que quiser. Mas poupem as minhas lembranças, minhas vinganças tramadas na dor. Puro veneno sem valor que procuro não mais encontrar na linha da vida cravada em minha mão, enrugada pela razão de não mais querer acreditar. Caiam sem virar lágrimas. Saiam sem levar nada que jamais prometi a ninguém. Pulem sem deixar vírgulas. Rolem em sentenças que não me transformem em um refém.

Despedida. Desmedida vontade de ficar nu. Desferida a pervertida impossibilidade de tentar ser apenas um. Eu, como tu, sou vários. E assim, neste verso letal acerto em cheio o papel com o meu ponto final

.