MARA E OUTRAS DONAS

Sempre fui muito observador. Desde pequeno, gostava de ficar no meu canto, olhando as pessoas, percebendo seus gestos, ouvindo suas frases, tentando entender o que sentiam, enxergando o que era colocado para fora e, muitas vezes, o que ficava preso do lado de dentro também. Mas no inverno de 1986, minha mania de observação ganhou um novo campo de visão.

Mês de junho, Copa do Mundo no México, época de férias. Depois dos jogos vistos pela televisão, íamos jogar bola na pracinha. Todo mundo queria ser Maradona, o craque argentino que estraçalhou naquele mundial. Eu queria ser Zico. O Galinho de Quintino era o meu ídolo no futebol e eu sempre fui fiel a ele. Estes babas eram disputados por toda a galera do Jardim América, condomínio onde morava, perto do fim de linha da Pituba. Galera que era basicamente dividida em dois grandes grupos: os da rua de trás, mais perturbados e os da rua da frente, mais comportados. Não gostava de Maradona, queria ser Zico. Quer dizer, se você tem uma noção mínima da personalidade dos dois ex-atletas, já deve ter presumido que eu fazia parte da turma da rua da frente, né?

No dia 25 de junho, depois da semifinal em que Maradona deu mais um show e despachou os belgas pra casa com dois gols a zero e um chocolate, fomos para a pracinha tentar reproduzir os lances do jogo no campinho. No baba, tudo normal. Correrias, firulas, dribles, gols, discussões e algumas brigas. Nenhuma novidade. Voltando para o condomínio, observador como era, comecei a perceber que a turma da rua de trás trocava olhares de maneira estranha. Havia algo combinado, uma cumplicidade, como se existisse um acordo tácito, um segredo velado entre eles. Foi a primeira vez que percebi aquilo e fiquei muito curioso. Tanto que, naquele dia, em vez de acompanhar a minha turma para a rua da frente, resolvi seguir a outra parte da galera.

Não demorou muito e percebi que eles estavam indo para a escadinha, um lugar que fica na saída dos fundos do condomínio e que, apesar do apelido, tinha muitos, muitos, mas muitos degraus mesmo, que, divididos em dez blocos de quinze, ligam a Rua Várzea de Santo Antônio, embaixo, à Rua do Jaborandi, em cima, onde havia algumas casas e vários terrenos desocupados. Era lá que empinávamos pipa, andávamos de carrinho de rolimã e “caçávamos” licuri, uma espécie de coquinho. Existia uma lei em minha casa e na casa da maioria dos meninos que moravam na rua da frente sobre a escadinha: nunca deveríamos ir lá à noite. Era perigoso. Quando o baba acabava, já escurecendo, a galera dos comportados preferia ficar em frente aos prédios tentando acertar morcegos com pedras em badogues.

Mas naquele dia, minha curiosidade foi maior que o meu respeito à “lei” e resolvi subir a escadinha junto com a turma do fundão. Lá em cima, a rua tranquila, como sempre. Ao lado direito, as casas começavam a ter suas luzes acesas; à esquerda, a beirada do morro, um pequeno penhasco de onde era possível ver os prédios do Jardim América e do Flamboyant, condomínio vizinho. E foi exatamente ali, naquela ribanceira cheia de pequenos arbustos que a turma começou a se infiltrar. Cada um parecia já possuir seu lugar demarcado. A princípio, eu fiquei meio sem ter onde ficar, sem entender nada, no meio da rua. Mas Paulista rapidamente me chamou atenção: — Ô Mariozinho, pode ficar aí não, moleque, vai dar na pinta. — foi então que eu me aproximei e me agachei em um arbusto que estava desocupado, mesmo sem ter nenhuma ideia do que estava por acontecer.

Depois de alguns minutos de silêncio absoluto, Freaza, sussurrou: — Olha lá, olha lá. Segundo andar do primeiro prédio do Flamboyant. — todo mundo se ajeitou para ver. Eu também. Tinha uma janela aberta e a luz estava acesa. Só isso. Até que apareceu uma mulher enrolada numa toalha. Ela jogou a toalha em cima da cama e desvendou-se completamente nua. Era a primeira vez que eu via uma mulher de verdade nua. Até então, só tinha visto aquelas feitas de celulose, na coleção de Playboys que meu pai achava que escondia no armário dele. Fiquei estatelado, boquiaberto, quase catatônico. Não demorou muito e Peitchola falou: — Olha lá. — e então Nem disse: — Ali. — depois Budião clamou: — E aquela. — e Wladimir se espantou: — A mãe do Cebola é gostosa pra caralho! — de repente Robson falou: — Eita porra, Érica chegou, galera, se liga. — Érica era a bunda mais desejada do condomínio. Era tão gostosa, que eu ficava constrangido toda vez que passava por ela. Érica era irmã de Expedito, vulgo Pel, melhor amigo de Marcus, meu irmão. E também era meia irmã de Igor, que morava na rua da frente, mas andava com o pessoal da rua de trás. Igor disse: — Porra, vai começar! — Calma Igor, ela é mais irmã de Pel do que sua, porra! — exclamou Élton, querendo colocar panos quentes na situação. Igor mudou de lugar, foi tentar ver outras janelas. Eu não. Só queria ter um binóculo ou um zoom automático em meus olhos, como aquele do Steve Austin, o Homem de Seis Milhões de Dólares, para ver mais de perto, com mais detalhes. Daquela vez, não fiquei constrangido. Olhei tudo, vi tudo o que tinha direito. E vi muito, foi perfeito, inesquecível.

Para onde olhava, era um show de mulheres peladas. Mulheres de verdade. Donas de casa. Donas de suas vidas. Donas de seus corpos, cheios de seios e ancas, bocetas e coxas, andares e jeitos. Belas donas peladonas, dançando em um baile mais belo que os de Maradona nos campos do México. Donas Maras, Marias, donas Joanas, donas Marinas, donas fulanas. Donas infinitas, donas nuas e lindas. Nunca havia visto nada mais espetacular.

A partir daquele dia, além de sempre voltar ao morro depois dos babas, virei um aficionado por janelas. Passeando de carro, andando de ônibus ou de bicicleta, indo para a padaria, para a escola ou para a casa de um amigo, ficava sempre de olho. De esquadrias, de madeira ou de blindex, as janelas passaram a ser meus objetos de observação preferidos, abrindo meus olhos e me presentando com lindas paisagens.

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