Me Apaixonei de Novo

Lembro perfeitamente da cena. Eu tinha 7 anos de idade. Estudava no Girassol e havia sido escolhido para ser o noivo em nossa quadrilha de São João. Fiquei meio cabreiro. Sempre fui envergonhado para essas coisas. Mas na hora em que disseram que o meu par ia ser Karina, meu coração disparou. Era como se a minha prateleira de brinquedos tivesse se desprendido da parede e caído de repente, espalhando todos os bonecos, carrinhos e bolas pelo chão. Mas não no meu quarto, e sim dentro do meu peito.

Karina era a menina mais bonita da sala. Eu não sabia o que sentia por ela. Mas tinha certeza que não era a mesma coisa que eu sentia pela Luísa, pela Flávia, pela Roberta, pela Patrícia ou pela professora. Aos 7 anos, eu me apaixonei pela primeira vez. E aquilo era tão bom que, a partir daquele dia, passei a dedicar grande parte da minha vida às paixões.

Não dá para esquecer. Aos 14 anos de idade, conheci Manuela na festa de 15 anos dela. Nós dançamos, nos beijamos, ficamos e começamos a namorar. E aquilo era tão bom que, a partir daquele dia, passei a dedicar grande parte da minha vida aos relacionamentos.

Está marcado em minha memória. Aos 41 anos de idade, sofri a separação do meu terceiro casamento. E aquilo era tão ruim que, a partir daquele dia, passei a dedicar grande parte da minha vida a mim mesmo.

Durante 34 anos, achei que a coisa mais importante da vida era amar e ser amado por outra pessoa na mesma medida. Que a única forma de ser um adulto feliz e realizado era casando, tendo filhos, vivendo uma vida exemplar em família. Como pude estar tão errado por tanto tempo? Amar e ser amado é incrível. Viver uma vida em família, com mulher e filhos é espetacular. Mas nada disso se compara a tudo o que vivemos em uma viagem de autoconhecimento. Eu sei que uma coisa não anula a outra. Não é necessário estar sozinho para se conhecer. Mas foi assim que aconteceu comigo.

Logo comecei a perceber que havia perdido muito tempo tentando ser o amante perfeito, o namorado ideal, o marido que caiu do céu. Tudo que não sou. Mais uma vez, é importante frisar, não se trata de uma regra. Foi assim comigo. E reconstruir minha personalidade, meu jeito, minhas vontades, minhas preferências, tem sido um aprendizado constante e delicioso. Entender quem eu realmente sou, minhas aptidões, meus desejos mais profundos, minhas virtudes, meus vícios. Perceber minhas ações, minhas reações e minhas respostas a tudo o que a vida me apresenta. Sentir cada momento. Viver cada experiência. É tudo tão espetacularmente maravilhoso, apesar de trabalhoso, às vezes até doloroso.

Antes, era como se eu estivesse tomando refrigerante para matar a sede. É docinho. É bonito. É gostoso. Mas não mata a sede. Ilude a sede. Só. Hoje eu bebo água. Gelada. De uma fonte inesgotável que encontrei em mim. Estou sempre saciado. Sozinho ou acompanhado.

Hoje eu dedico meu tempo, minha munição e minha força em uma luta diária, para encontrar minhas luzes e minhas sombras, buscando iluminar tudo o que é escuro, tentando transbordar tudo o que é luz. E seguir adiante. Radiante.

E logo agora, quando me sinto mais eu, quando me sinto melhor, quando me sinto em paz, me pego apaixonado de novo: por mim.

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